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O catavento

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Carnaval 02

 

 

 

 

 

 

 

“As casas tinham balcões e sacadas,
Úmidos porões e sótãos com fantasmas.
Homens e mulheres iam aos velórios,
morriam discretamente e ficavam nos retratos…”

(Aparício Silva Rillo)

Minhas lembranças daqueles tempos ficaram associadas aos prazeres de verão e aos medos de inverno. Sim, daqueles distantes veraneios o que bem recordo eram dulcíssimas compotas caseiras e canecas de fresca água de cacimba. E, nas noites de invernos, o assovio do minuano e o guinchar de um catavento. Mas, como acontece com antigas memórias, sons, sabores e imagens se embaralham, acordando emoções difusas, às vezes doces, às vezes amargas.

***

Nos verões da infância no campo, não sentíamos falta da água corrente nem da luz elétrica. A água trazida das vertentes e os velhos lampiões de querosene eram divertidas novidades e animavam nossas fantasias.

Em nossa inocência, éramos poupados da trabalheira de carregar pesadas barricas d’água em carrinhos de mão e de limpar lampiões e candeeiros pretos de fuligem. Claro que as mucamas e peões encarregados dessas e outras tarefas do duro cotidiano do campo, não tinham nenhum motivo para se divertir ou fantasiar.

Muito ao contrário, reclamavam baixinho que já era hora do Coronel comprar um catavento e instalar água corrente. Foi então, em um determinado verão, quando os jornais da cidade anunciavam o fim da guerra na Europa que o Coronel anunciou que encomendara um moderno catavento nos Estados Unidos. E que, em pouco tempo, água correria das torneiras e lâmpadas elétricas iriam clarear as noites de inverno.

Festa nos sombrios galpões e na cozinha, com gente rindo nos cantos. Mas a novidade não emocionou a criançada. Gostávamos dos banhos em bacias de zinco e do ritual noturno de acender os lampiões depois do jantar. De longe, olhávamos os adultos carregar candeeiros e castiçais pela casa e pelo terreiro até os galpões do outro lado.

Esperávamos que o vento noturno apagasse as chamas, para vê-los voltar até o fogão para reacender as velas nas brasas, tropeçando no escuro e resmungando palavrões.

***

Em uma tarde clara de céu azul, chegou um barulhento caminhão com, vigas de metal e grandes caixas de madeira marcadas ‘Made in U.S.A.’.

E homens de macacão azul começaram a martelar e aparafusar, erguendo uma torre ao lado da casa grande. Pouco depois, entre gritos e puxar de cordas, o catavento de 12 pás foi içado até a alta plataforma. Então, ao abrir a última caixa, ouviu-se exclamações de surpresa e desapontamento dos homens de macacão. Estava faltando o mais importante, o gerador, que transformava o vento em energia elétrica. Um dos homens foi despachado até a cidade e, na volta, avisou que o gerador continuava em um armazém no porto de Montevidéu. Com erguer de ombros e pedidos de desculpas, os homens de macacão embarcaram em seu barulhento caminhão e foram embora envoltos em uma nuvem de poeira.

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A criançada foi chegando ao redor da torre, olhando boquiaberta para o alto, onde o catavento, travado para poupar o mecanismo, girava de um lado para o outro, à procura do vento que não chegava. Dias depois, viajamos de volta para a casa na cidade, levando conosco a imagem da torre com o inútil e silencioso catavento.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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