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Os portugueses no Bananão

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A literatura portuguesa anda bastante badalada no Bananão, mas, confesso, o último gajo que li com prazer foi Santos Fernando: Absurdíssimo, A sopa dos ricos e A árvore dos sexos. Isso faz tanto tempo que tenho até medo de reler.

Como Santos Fernando é um gozador – embora clássico pra chuchu, como disse o Millôr –, não pegou nessas bandas, ou não foi levado a sério. Ou, vai ver, foi por causa da língua. Podemos dizer sobre o português do Bananão/Portugal, o que dizia Oscar Wilde sobre o inglês da Inglaterra/EUA (ou pesadelo com ar-condicionado, segundo a definição do Henry Miller): uma língua comum nos separa. Mas com os novos portugueses e africanos de língua portuguesa, que botamos sempre no mesmo bolo, não se pensou mais em tradução.

Não me sinto na obrigação de ler os autores muito festejados pelos jornais, porque conheço de sobra os jornais, mas acabo dando uma conferida – não gosto da ideia de perder um bom livro. Foi o que me aconteceu com José Saramago, António Lobo Antunes, Mia Couto e Inês Pedrosa. Se eu tivesse vinte anos, com certeza teria lido tudo, mesmo sem entender ou sem gostar. Mas a velhice é fogo – não aguentei trinta páginas desses aí e não senti remorso nenhum.

Esses dias enfim li As palavras não se afogam ao atravessar o Atlântico, livro de entrevistas do Carlos Vaz Marques, lançado pela Tinta China em 2015. A primeira coisa que se deve dizer é que Vaz Marques é um jornalista excelente. Não só sabe tudo de cada entrevistado, como é culto e inteligente – de uma inteligência muito rápida no gatilho. Outra coisa: sem perder a cortesia, ele bota os entrevistados contra a parede, quando necessário. Mesmo no caso de entrevistados desinteressantes, a entrevista é boa, porque é reveladora.

Foi um prazer conhecer Vaz Marques – e um incômodo, porque de três em três páginas eu me perguntava que jornalista cultural no Bananão tem essa tarimba toda? Sim, o Sérgio Augusto é o primeiro que me ocorre, mas ele parece ter arrumado um cantinho confortável onde nada o incomoda. O resto, bom, é melhor nem falar. Sem exagerar muito, a impressão que fica depois da leitura do jornalismo cultural é de que é melhor a gente ir ver tevê.

Pode ser uma ilusão minha, mas os escritores entrevistados por Vaz Marques, jovens ou velhos, me pareceram mais cultos que a média dos brazucas. Duas e três, citam até algum latino dos primórdios de Roma e nunca babam na gravata por norte-americanos de segunda, terceira, quarta e quinta. Nenhum disse que jamais leu Eça de Queiroz nem tem plano de ler, como ouvi um jovem e conhecido escritor brazuca dizer do Machado de Assis. Todos têm noção clara da história literária, todos pensam no que fazem e como fazem e alguns, sem jamais se fixar no umbigo, pensam na relação da literatura com seu país, os grandes problemas e tal. Fiquei com a impressão de falar com gente grande. É refrescante, sabe?

Mas, claro, há de tudo. Agustina Bessa Luís é considerada por muitos um gênio. Ela mesma posa de gênio. Chegou a dizer que se alguém em Portugal merecia o Nobel, era ela. Pelas respostas que dá a Vaz Marques não percebi a genialidade. Vi, isso sim, muito chute e presunção. É uma pena que o livro abra com ela.

Por falar em ego, é deprimente ver a guerra de Lobo Antunes e Saramago. Me parece que Saramago leva vantagem – é um tiquinho mais comedido. Os dois se acham o máximo – como quase todos, sim, senhor, mas há uma falta de vergonha constrangedora. Como não consegui ler nenhum deles, não sei se seus livros seguram essa onda toda. Torço pra que sim. É muito triste quando o ego dança no vazio.

Mas, enfim, das dez entrevistas, só achei ruim a do Walter Hugo Mãe, além da primeira, a da Agustina Bessa Luís. Muito fricote e pouca substância, o Hugo Mãe. O fato de ter posado nu numa avenida pra capa de um livro de poesia não me pareceu estranho. Pior seria pra revistas, como fez a Fernanda Young. Por falar nela, me pergunto se Hugo Mãe também é tatuado e seus versos são quânticos, como a prosa da dona, segundo a orelha de um livro.

A entrevista pode ser enganosa, claro. Hugo Mãe pode ser um gajo insuportável pessoalmente e um ótimo escritor. Acontece a três por quatro, sabe-se. Mia Couto, na entrevista, aparece muito simpático e modesto. Dá até vontade de ler os livros dele. Mas não esqueço das minhas tentativas e de achar tudo muito tosco. Uma pena. Espero estar errado.

Mas falemos bem, coisa sempre difícil. O crítico Eduardo Lourenço me pareceu sensacional: inteligente, culto, sensato. Só a entrevista dele valeria o livro. Mas ainda temos Gonçalo M. Tavares e Dulce Maria Cardoso. Li com alegria: opa, dois escritores de verdade. Eles driblam o ego, a literatura não é só terapia ou a apresentação de fatos mas, como diz Dulce Maria, uma reflexão. Abaixo uns trechinhos que falarão melhor que eu.

Eduardo Lourenço, quando fala de literatura de evasão: “O Paulo Coelho começa por ser uma pessoa que um sujeito que se preza não lê. Mas o fenómeno Paulo Coelho é verdadeiramente espantoso. É uma reciclagem de coisas simples. (…) Li o primeiro. Aquilo é uma coisa contrária à tradição da grande literatura. Mas lê-se. É uma literatura de um optimismo beato, em todos os sentidos da palavra. Ele descobriu que havia aqui uma carência. Com essa ingenuidade – ou falsa ingenuidade – da visão do Paulo Coelho, as pessoas encontram-se nessa espécie de paraíso portátil e de receitas de salvação, quando as receitas de salvação das grandes religiões capotaram. Ele oferece-lhes um sucedâneo da essência de todas essas coisas, mas em versão light”.

Gonçalo M. Tavares: “(…) gosto muito das frases que são aparentemente muito simples. Se as lermos a correr, a cem quilómetros por hora, parecem uma coisa. Mas, se pararmos e olharmos atentamente, vemos que há ali uma complexidade muito grande. Agrada-me muito tentar ser exato mas que ao mesmo tempo essa exatidão esteja ligada a uma espécie de dificuldade. Ser exato e simultaneamente paradoxal. Uma exatidão que implique interpretação. Normalmente, associamos a exatidão a uma coisa que não requer interpretação”.

Dulce Maria Cardoso ao falar da escrita de O retorno, romance que trata dos 600 mil portugueses que voltaram da África depois do 25 de abril de 1974: “Foi muito doloroso. Talvez por isso eu o tenha adiado tanto. Por isso e por não ter uma proposta de reflexão para o romance e não querer aproveitar só o sofrimento como aquela coisa de provocar emoções. Senão, fica-se muito parecido com aquelas pessoas que param o carro para ver os acidentes. Só se expõe o sofrimento, não há mais nada. Eu andei à procura de uma proposta de reflexão que me servisse. A ideia é de perda, é de estar à deriva. É a perspectiva de o futuro ser negro. Esta altura da crise é terrível. Eu não vou começar para aqui a dizer que há benefícios”.