Mãe, eu te amarei até o infinito

Era março de 1967 em uma Porto Alegre totalmente diferente da cidade que vemos nos dias atuais. Sem elevado índice de violência, com mais …

Era março de 1967 em uma Porto Alegre totalmente diferente da cidade que vemos nos dias atuais. Sem elevado índice de violência, com mais segurança, sem engarrafamento no trânsito e onde os vizinhos se conheciam bem mais do que um simples e forçado bom dia. E recordo perfeitamente de minha mãe saindo apressada do apartamento localizado no hoje Centro Histórico com meu irmão de um ano no colo, meu mano de dois anos no carrinho e levando as filhas maiores, eu e minha irmã, com respectivamente sete e nove anos, para o primeiro dia de aula no Colégio Paula Soares. Usava de uma força e disciplina impressionantes para conseguir controlar os quatro filhos na subida exaustiva da Rua Espírito Santo.
Mirthô retornava depois só com os meninos para arrumar toda a casa, cuidar da comida, sempre apetitosa, e perto do meio-dia fazer uma nova aventura na lomba para buscar as filhas maiores na saída do colégio. À tarde, ela dividia-se entre os cuidados com os quatro rebentos, na lavagem de roupas, no preparo de bolos deliciosos para o lanche e alguns trabalhos de tricô que vendia para aumentar a renda e engrossar o orçamento familiar.  De noite, enquanto meu pai não chegava do trabalho, ela mantinha a mesma disposição e agilidade para administrar a casa, pensar na alimentação, educar os filhos e abrir um animador sorriso a cada nova descoberta de qualquer um dos filhotes.
Minha mãe foi sempre uma pessoa que se doava e que estava sempre pronta a ajudar, a colaborar, a abrigar os filhos, a visitar os parentes, a preservar, a todo custo, a harmonia da casa e da família. Muitas vezes anulou projetos para dedicar mais tempo ao marido. Muitas vezes trancou seus planos para ajudar nos sonhos dos filhos. Inúmeras ocasiões, ela relevou desentendimentos a fim de manter o equilíbrio familiar e preservar a união. Mais tarde, com o nascimento dos netos e cuidando sozinha da casa, depois de uma separação traumática, ela continuava com a sua prática de distribuir carinhos, de entregar ternura, de elaborar guloseimas de enlouquecer e de investir em reuniões e encontros familiares.
A mãe da Mariza (que faleceu aos nove meses), da Sílvia, da Márcia, do Fernando e do Luis era uma destas mulheres exemplares, corajosas, valentes, belas, um tanto recatada e muito do lar, enquanto este fosse sinônimo de abrigo, de acolhimento, de trocas de afetos. A avó do Rafael, da Camila, da Gabriela e do Lucas tinha aquele perfil típico de vovó: permitia travessuras na sua casa, deixava todos vendo televisão conforme vontade dos netos e esmerava-se em delícias culinárias numa desobediência ao horário habitual das refeições. A bisavó da Lohana e do João Pedro foi mais econômica nos mimos, brinquedos e traquinagens, porque a saúde debilitada e um pequeno desgosto que se instalou com a velhice limitavam suas atitudes.
Perto das 17h de uma segunda-feira fria de julho de 2011, lá em Butiá, onde fora morar para ficar mais próxima do filho e da nora, que controlavam bem sua saúde, a minha mãe desistiu de continuar vivendo, de sofrer com dores da doença, de brigar com as saudades do filho caçula, que partira oito anos antes. Mas todas as imagens que tenho dela são de ocasiões bonitas, de comemorações, de dias felizes, de confraternizações familiares, de cafunés quando os filhos precisavam, de ajuda financeira quando um de seus pequenos se apertasse, de conforto aos netos e netas a qualquer hora, mesmo que isto interrompesse a sua rotina.
Em todos os momentos da minha vida, os bons e ruins, quem estava ao meu lado era a mãe Mirthô. Foi ela que preparou o humor de meu pai nas vezes em que algum filho desobedecia. Foi ela que me levou para tomar as vacinas. Pela sua mão carinhosa e amável, eu visitava praças e parques. No seu abraço, eu depositei muitas vezes as minhas angústias com amores desfeitos. No seu colo, eu acomodei em várias situações as dores com as encrencas da minha vida. Com o seu apoio, fui para a maternidade ganhar a filha Gabriela. Na sua casa, eu fui recompor a minha vida depois de separada e socorri-me da sua ajuda na educação da minha filha a partir dos oito anos.
Por isso, a comemoração do Dia das Mães, desde a sua partida, é amarga, é triste, é embalada em saudades e recheada de lembranças. Quando a Mirthô se foi, levou um pedaço enorme meu, deixou a minha vida incompleta, tirou as minhas certezas e arrancou parte do meu coração. Mãe, eu te amarei sempre e até o infinito.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

Comentários