Notícias de mercado da comunicação do RS.

Home Colunas Sylvia e seus amores

Sylvia e seus amores

Compartilhar
,

“Como uma abelha carregada de pólen,

ela fertilizava escritores e poetas.”

(Andre Chamson)

Os cafés eram (e talvez ainda sejam) um local de culto na vida cultural de Paris. No final do século 19, quando despontavam os Anos Dourados, existiam mais cafés em Paris do que em qualquer outra cidade europeia – um café para cada 300 habitantes. Foi então que surgiu na Rive Gauche um endereço que se transformaria na meca de escritores, poetas e pintores chegados dos Estados Unidos e Inglaterra: o nº 12 da Rue de l’Odeon.

***

Em sua biografia, Sylvia Beach confessa que teve apenas três grandes amores na vida – a companheira Adrienne Monnier, a livraria Shakespeare & Company e o escritor irlandês James Joyce (não necessariamente nesta ordem). Amores que ocupariam plenamente a jovem nascida em Baltimore e que a transformariam em uma das mais influentes mulheres do modernismo literário. Já no primeiro encontro na Rue de l’Odeon, ela se fascina com a genialidade de Joyce e resolve apostar seu prestígio e dinheiro na novela experimental Ulysses.

Sylvia se sentia consternada com o fracasso do livro nos Estados Unidos. A primeira publicação de trechos do livro causara a condenação de Jane Heap e Margaret Anderson, acusadas e condenadas por divulgar baixa pornografia. Exercendo uma espécie de vendetta, ela emprega toda sua energia para encontrar um editor para Joyce. Em vão, pois ninguém queria apostar em um livro controvertido e acusado de obsceno. Então, ignorando todos os riscos, ela banca a publicação. E no dia 2 de fevereiro de 1922, os primeiros 1.000 exemplares chegam à livraria e se esgotam rapidamente. Contrariando os críticos, a aposta se revela uma vitória e faz de Ulysses um dos mais importantes livros do século 20. Mas Sylvia como a Shakespeare & Company pagariam um alto preço pela ousadia.

***

Com a primeira edição esgotada em semanas, a proibição de Ulysses nos Estados Unidos e Grã-Bretanha é suspensa. Entram em cena os editores da Random House com uma substancial proposta a James Joyce. Para surpresa de todos, ele a aceita, virando as costas à Sylvia, já ameaçada de falência e desiludida com a deserção do amigo. Escritores franceses, com André Gide à frente, acorrem em socorro, promovendo leituras de clássicos, para atrair clientes à livraria. Acossada por problemas, a livraria continua funcionando, mesmo após 1940, quando os alemães chegam à Paris.

Haverá ainda um gesto final de coragem na trajetória de Sylvia Beach e sua Shakespeare & Company. Em um dia de dezembro de 1941, ela vê um alto oficial da SS examinando com atenção o exemplar de Finnegans Wake na vitrina da livraria. Polidamente e em inglês perfeito, o alemão pergunta pelo preço. Sylvia responde que o exemplar não está à venda. No dia seguinte, o mesmo oficial volta e repete a pergunta. Mas desta vez, não se conforma com a negativa e promete voltar com soldados, confiscar todos os livros e fechar a livraria.

Em duas horas, Sylvia, Adrienne e amigos recolhem mais de 5 mil livros  e os escondem no sótão do quarto andar, onde ficariam até a liberação  de Paris. Quando o oficial nazista retorna mais tarde, estantes e vitrinas estão vazias e até mesmo a efígie de Shakespeare da fachada havia desaparecido. Em agosto of 1944, as tropas da Wermacht começam a retirada, mas o quartier da Rue de l ‘Odeon é um dos últimos a ficar livres dos franco-atiradores alemães. Em sua biografia, Sylvia Beach descreve a emoção no dia em que a livraria foi libertada:

“Ouvi uma voz grave que chamava: Sylvia!”

Pessoas correram para a porta da livraria repetindo Sylvia, Sylvia!

“É Hemingway! É Hemingway!, chorava Adrienne.

Desci correndo as escadas e trombei com Hemingway.

Ele me ergueu e rodopiamos no ar, enquanto me beijava.

As pessoas na rua e nas janelas batiam palmas e muitos choravam de emoção.”

Logo após declarar liberada a Shakespeare & Co., Ernest Hemingway toma a direção da Place Vendôme, onde reassume sua mesa no bar do Hotel Ritz, que por longos anos havia sido o lugar favorito dos oficiais alemães.

A livraria nunca mais reabriu suas portas, mas Sylvia permanece em Paris até sua morte, em 1962. Morava em um pequeno apartamento da Rue de l’Odeon, a alguns metros de onde encontrou e viveu seus grandes amores: Adrienne Monnier, Shakespeare & Company e o grande escritor que revelou ao mundo, James Joyce.

***