A falta reparadora que faz uma simples noite de sono

Depois de rolar na cama de um lado para o outro, tirar as cobertas, voltar a se cobrir, acomodar o travesseiro, contar carneirinhos, agrupá-los conforme as semelhanças, levantar às 3 horas da madrugada e providenciar um chá calmante de camomila, tomar mais de um comprimido rosinha para puxar o sono e rezar todas as orações que nem eu mesmo sabia que conhecia, tive a certeza de que aquela noite não havia sido destinada ao meu repouso. Definitivamente, o amanhecer da terça-feira me encontrou totalmente cansada, exausta de buscar todas as técnicas para relaxar e com olheiras profundas que corretivo nenhum conseguia disfarçar. E preciso confessar queridos leitores e queridas leitoras: eu fico insuportável quando não tenho as mínimas horas de sono.

Para não me tornar uma pessoa amarga, resmungona e que já desperta de um sono reparador que não ocorreu de mau humor, tentei relaxar, sossegar, afastar qualquer resquício de tema que pudesse ser nebuloso, imaginar só paisagens tranquilas. Uma das últimas técnicas que usei, antes de jogar tudo para o alto e decretar o fim do meu relacionamento com a cama, foi a de mentalizar um campo enorme, todo verde, um cenário de paz e calmaria e com o barulho de uma gostosa de uma cachoeira. Dizem que é um santo e insuperável remédio para estimular o sono perdido. Não funcionou. Lá pelas 6 horas, abandonei o quarto e fui para a sala, atrás de mil e uma coisas para fazer.

Evidente que o resto do dia foi insuportável. Porque faltava o combustível das horas de sono. Porque o cérebro estava cansado e nenhum pensamento conseguia ter começo, meio e fim. Porque não tinha paciência para absolutamente nada. Porque meu corpo não tinha vontade de mexer-se para lugar algum. Amaldiçoei a moça do telemarketing que telefonou mais de uma vez para oferecer não sei o quê. Praguejei o som do interfone quando o porteiro avisou da chegada de uma encomenda. Odiei com todas as minhas forças (e ainda peguei outras emprestadas), as pessoas que cruzavam comigo pela rua e ostentavam aqueles sorrisos cheios de dentes. E detestei aqueles que gargalhavam e o som da felicidade deles ecoava por todos os ambientes.

Não sei exatamente qual o motivo que me tirou o sono. Acredito que foi uma soma de fatores. As contas do mês que nunca fecham. Os trabalhos de freelancer que sumiram. As rugas que proliferam e não cedem aos efeitos dos cremes anti-idades. A doença do neto canino Dalai que não apresenta sinais promissores de melhora após quase dois meses de tratamento. A amiga que ficou de convidar para um café e não efetuou o combinado (e a neurótica aqui a imaginar mil situações). Os preços da cesta básica que só aumentam. Sei lá. Poderia enumerar muitos e muitos fatos geradores da minha insônia.

Só o que sei, sem a menor sombra de dúvida, é que antecipei-me à escrita da coluna para não precisar acordar na quarta-feira. Nada irá me tirar da cama. Nada motivará o despertar. Vou silenciar o celular. Cancelar todo e qualquer compromisso. Fechar todas as frestas da janela. Vou usar todas as horas da noite de terça-feira, da madrugada de quarta e do dia para compensar o sono que não tive. Se tudo der certo (e com a ajuda dos santos, deuses, oxalás, anjos e querubins dará), só acordarei na hora do jogo do imortal tricolor contra o Barcelona de Guayaquil, para torcer fanaticamente pelo Grêmio.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e segunda secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó do canino shih tzu Dalai.

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