Atraso alegre

Por Fraga

Obra terminada atrasada é obra da prefeitura.

Obra concluída no prazo é obra do acaso.

(Fraga, 1981)

 

A Física deve muito a Porto Alegre: a cada minuto que passa, a cidade consegue deixar a inércia mais inerte. Se houvesse Nobel do Atraso, os suecos não poderiam ignorar a capital gaúcha.

É uma arte atrasar tanto e nossos gestores públicos - palmadas pra eles - são uns artistas. Mestres da procrastinação administrativa e executiva, gestores municipais - do passado, de agora, do futuro -  são capazes de paralisar o Tempo. E enquanto protelam, por sobre suas planilhas pobres de justificativas passam céleres cágados e lesmas.

Como subjugaram Cronos, que virou mais um lerdo e apático funcionário público? Como tornaram oficial a lentidão dos cronogramas? Como deram tanta elasticidade à morosidade decisória? Como conseguem multiplicar travamentos e tranqueiras burocráticas? Como trançam adiamentos num calendário careca de possibilidades?

Até antes do surgimento da figura do gestor, devagar e demora eram partes da vida, e nada deixava de ser feito apesar dessas palavras frequentarem o cotidiano da prefeitura. Veio o gestor e o quase parando deixou parado até o gerúndio. Com os gestores públicos e seus assessores ineficientes em cargos de confiança, tudo se arrasta em partos de obstáculos. Tudo se complica, nada anda.

Cais Mauá, Passarela da Higienópolis, Instituto de Educação, Entorno da Arena do Grêmio, Mercado Público, corredores de ônibus, Perimetral Vila Cruzeiro etc. A soma de todos os atrasos não altera a paisagem desfigurada. Nem o progresso tem marcha sã.

 

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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