Café au lait

"Em Paris, os sonhos começam

e terminam com um café au lait."

Victor Hugo.

 

Certa vez, perguntaram a Ernest Hemingway qual seu bistrÔt predileto em Paris. Ele parece pensar e demora até dar uma resposta genérica:

"Ir a um bistrot é como visitar uma amante proibida.

Uma dama capaz de acender velhas paixões

e acalentar novos sonhos."

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A lista dos bistrôts que ele deve ter percorrido em suas temporadas parisienses seria interminável. Ele começou frequentando o triste e mal-cheiroso "Café des Amateurs", nos seus tempos da rue Cardinal Lemoire. Era uma época quando Hemingway não tinha francos para mais do que um café au lait no balcão.

Não muito tempo depois, ele migraria para endereços mais nobres, nos boulevares Saint Michel e Saint Germain; não por acidente, os preferidos pela intelectualidade francesa e pelos expatriados norte-americanos. A resposta que deu ao jornalista duplica quase na íntegra um diálogo de Paris é uma Festa. Quando o escritor escreve: "todos nós precisamos de uma concha como proteção contra as agruras e perigos do mundo exterior". Enquanto rabisca a lápis no bloco de notas, em sua mesa no Closerie de Lilas, ele bebe rum da Martinica e registra uma jovem que entra no café e senta-se perto da janela:

"Era muito bonita. PossuÍa um rosto fresco como uma moeda

acabada de cunhar-se fosse possível cunhar moeda

em carne macia e úmida da chuva.

O cabelo, muito curto e negro como a asa de um corvo,

emoldurava-lhe a face em diagonal. Me deu vontade de incluí-la

em meu conto, mas a jovem se colocara de maneira

a observar a rua e a entrada do café.

E percebi que estava à espera de alguém.

Por isso, voltei a escrever."

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Não é simples diferenciar o autêntico bistrôt do falsificado. O chef e aventureiro Anthony Bourdin usa um método para saber se estamos em um bistrôt - ver se o piso está coberto de serragem (para esconder manchas de vinho e cerveja). E o balcão de madeira está polido pela ação de milhares de cotovelos? Este é o lugar para se ficar.

Dizem as lendas que o bistrôt foi uma invenção dos granadeiros de Napoleão. De volta da guerra, famintos e sedentos, procuravam um lugar que servisse bebida farta e comida "que colava nas costelas". Melhor ainda, se houvesse uma cama de palha seca nos fundos, para digerir a comilança e curar a ressaca. Patrimônio sentimental da França, o bistrôt resiste às modernizações e à pausterização trazida pela globalização. Que chega na forma de franquias, tentando repetir a fórmula original da casa-mãe em outras latitudes, climas e culturas.

Os habituais que frequentam o mesmo bistrôt por anos e anos a fio recusam inovações, preferindo a ambience constituída por resíduos de gerações que ali desfilaram mágoas e celebraram alegrias. Eles se debruçam no balcão, investigam os queijos, discutem as virtudes do vin du pays, enquanto aguardam o plat-du-jour. Poucos consultam o cardápio rabiscado a giz no quadro-negro com caligrafia indecifrável.

Por décadas em tradicionais bistrôs, como o Le Consulat, não se usava cardápio. O patron, vestindo avental manchado por muitos molhos, tomava pedidos nas mesas, descrevendo o que estava sendo preparado na cozinha. Velhos bistrôts, assim como os ancestrais pubs londrinos, procuram conviver com modernidades e novos hábitos.

Mas são espaços atemporais, como a concha buscada por Hemingway, refúgios que nos fazem ingressar na história da rua, do quartier, do borough - ou mesmo da cidade.

Depois de algumas horas absorvendo sua ambience, nos chega uma certa nostalgia pelos anônimos personagens que sentaram naquelas mesas e beberam o mesmo que estamos bebendo. Seja uma grande caneca de cerveja ou um simples e inesquecível café au lait.

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A mística do bistrô ainda acende definições de intelectuais e alimenta intermináveis discussões de gourmets, gourmants e bebedores inveterados. Talvez seja a mistura de comida camponesa, empoeiradas garrafas de vinho no porão, paredes decoradas por fotos e souvenirs, tudo temperado com calor humano e com uma pitada de je ne sais pas quoi.                                                 

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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