Cagada federal

Por Fraga

Alguém já definiu o ser humano como um tubo excretor. A vida nada mais seria que a manutenção das funções desse tubo insaciável. Dito assim, cruamente, soa como animalização da vida.

Mas como a intenção filosófica da frase, parece, foi fazer pensar a respeito do bicho que no fundo somos, a gente releva. Tanto que toda vez que vamos ao banheiro atender à natureza nem refletimos sobre a frase. Sequer lembramos o autor.

Infelizmente a frase que o nosso deprimente da república excretou não é tão esquecível. Ele sugeriu - e prefiro uma versão eufemística - dia sim, dia não uma constipação controlada. Inspirado por seu único intestino - o grosso - quis talvez dizer: se o brasileiro reduzir a frequência com que produz dejetos, o planeta seria beneficiado.

Como toda teoria doidona, essa exige premissa maluquete: para cada brasileiro produzir menos dejetos, tem que obrigatoriamente se alimentar menos. Senão, se o quimo continuar a se acumular para lá adiante formar o quilo, mais dia menos dia o acúmulo todo terá que ser expelido. E aí o dano volumoso estará feito.

O problema de comer menos é que isso já é feito por incontáveis cidadãos, e pouco notável tem sido a contribuição disso à Terra. São duas as minorias da população que praticam, involuntariamente, o conselho presidencial: os coitados que sempre comem menos todos os dias e os miseráveis que quase nada comem diariamente. Pra ir ao wc, essa gente teria que antes esperar ver crescer o bolo fecal da sociedade e aí tê-lo enfezado em seus intestinos.

A equiparação social entre a mesa e a latrina não é, nem nunca será, parâmetro lisonjeiro para a nação. É que, ao contrário dos glutões e dos cagões das classes mais abastadas, as parcelas sociais menos favorecidas precisam esperar que as fezes acumulem em suas tripas para que dali a dois dias (ou três ou quatro) consigam reter algum sólido excremento. 

Sem falar naqueles concidadãos abaixo da linha da pobreza, que só sabem o que é usar o sistema gastrointestinal quando têm diarreia por engolir o que a OMS não recomenda. E dizer que ainda há pouco tempo milhares de pobres tinham chance de ingerir até mesmo comida de avião que, boa ou ruim, também forma cocô. Tempos em que o papel de um presidente não era o higiênico.

Fascismo diário é uma bosta pra democracia. Se o deprimente da república fosse fascista dia sim, dia não, aí a bosta seria bem menor.

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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