O homem mediterrâneo (Um falso Maigret)

"Descobrir a verdade nem sempre significa resolver o caso."

(Georges Simenon)

O homem tinha certos ares mediterrâneos, pois vestia roupas de verão, embora lá fora, no Canal Saint-Martin, soprassem ventos anunciando a chegada do outono. Ele estava sentado a uma mesa no terraço do restaurante por uma hora ou mais, sorvendo sem pressa seu eau-de-vie. Não demonstrava ansiedade ou consultava o relógio, como fazemos quando aguardamos alguém que está atrasado. Ou pressuroso por resolver algo urgente.

***

Pela terceira vez, Lapointe foi até o telefone da farmácia da esquina para informar sobre os movimentos do homem no terraço. Estava entediado e obrigado a ouvir o comissário Jules Maigret receber com resmungos seu relatório de que não havia nada a relatar. O inspetor interrogara os garçons do restaurante, que falaram dos hábitos daquele visitante. Disseram que ele aparecia sempre às 10h da manhã das terças e quintas-feiras e acomodava-se no terraço, cada vez em uma mesa diferente. Pedia sua bebida e permanecia em silêncio diante das janelas envidraçadas, sem sequer olhar para as pessoas que passavam na rua, ou para os que cruzavam pela ponte de ferro. E que, perto do meio-dia quando os primeiros clientes chegavam para o almoço, levantava-se, deixava o dinheiro na mesa e saía sem olhar para trás.

O fato do homem não almoçar no restaurante intrigava em muito o comissário Jules Maigret, já que o Quai de Valmy era conhecido pelos excelentes pratos que preparava à moda da Normandia.

O próprio comissário apreciava as trutas frescas, cozidas com ervas e principalmente o linguado com aspargos e beurre blanc. A maior parte dos clientes era de moradores do quartier e casais de meia-idade em busca da boa comida e dos vinhos brancos de Isigny-sur-Mer, sem falar no excelente calvados servido como cortesia.

No entanto, para desalento dos garçons, o visitante do terraço nunca abria o cardápio posto sobre a mesa, nem lançava um olhar demorado para o "menu du jour" na porta de entrada.

Pelo quê - ou por quem - esperava o homem mediterrâneo?

***

O Outono chegou e os ventos do Midi varriam as folhas caídas dos castanheiros e plátanos. O terraço do Quai de Valmy permanecia vazio, os clientes acomodados no salão principal, aquecidos pela grande lareira de pedra. Durante várias semanas, o visitante não apareceu, mas os garçons notaram o sedã preto, de modelo antigo, estacionado do outro lado da rua. Por coincidência, às terças e quintas-feiras, sempre entre 10h e 12h. Intrigados, os garçons apostavam entre si quando o misterioso visitante voltaria a tomar seu eau-de-vie. Então, em uma certa manhã chuvosa, ele reapareceu. Entrou no salão, mas em lugar de sentar a uma das mesas desocupadas, foi direto ao bar. Carregava uma pesada maleta de couro preto que depositou no chão entre os pés. O barman, sem dizer palavra, serviu uma dose de eau-de-vie e deixou a garrafa sobre o balcão. O visitante não mais usava roupas de verão. Parecia outro, de chapéu, sobretudo e um cachecol de lã que escondia parte do rosto.

***

Naquela mesma manhã, no Quai des Orfévres, o comissário Maigret examinava com curiosidade um envelope marcado Urgente!, que chegara de Marselha, enviado por seu amigo, o Inspetor Gérard Collombe. Continha uma foto e um relatório sobre as atividades da quadrilha corsa que atuava na região do Mediterrâneo e cujo chefe, fugindo do cerco da polícia, embarcara em um trem com destino a Paris. Maigret abriu a porta da sala dos inspetores e mostrou a eles a foto. Era o mesmo homem que Lapointe estivera seguindo por semanas no Canal Saint-Martin.

Enquanto o Inspetor Janvier ligava para o Quai de Valmy, Maigret e Lapointe entravam em um carro do Ministério da Justiça, que seguiu pela rue du Pont Neuf, entrando na rue de Rivoli com a sirene ligada a toda a força.

Poucos minutos depois, estavam diante do restaurante. Um dos garçons, Gaston, esperava à porta, com os braços abertos e uma cara de desolação. O comissário entrou às carreiras, seguido por Lapointe. Logo viram o corpo caído junto ao balcão, o rosto oculto pelo cachecol, manchado de sangue fresco.

Sobre o balcão, uma garrafa de eau-de-vie e um copo vazio. Mas a maleta de couro preto que Gaston mencionara ao telefone, havia desaparecido.

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

Comentários