O jeitinho brasileiro começa dentro de casa

Por Elis Radmann

O jeitinho brasileiro está introjetado em nossa cultura política. É como se estivesse no nosso DNA comportamental. Vivemos em uma república, que significa "coisa pública". Culturalmente, muitos entendem que o que é público não é de ninguém. Temos que trabalhar na perspectiva contrária: o que é público é de todos e deve ser zelado por todos.

Mudar uma cultura dominada pelo jeitinho é um caminho árduo e que precisa perpassar a educação, que começa dentro das nossas casas, avançar dentro das escolas, para mostrar resultados a partir de exemplos práticos nas relações cotidianas.

Para tanto, é necessária a consciência de que o jeitinho é algo próximo e que está perto de nós. Temos que compreender quais práticas são baseadas no jeitinho ou são jeitinho em sua essência.

O jeitinho é uma forma de burlar, é um atalho que torna o caminho mais fácil. Utiliza-se da rede de relacionamento, da omissão ou da conivência das pessoas, promovendo vantagens pessoais a alguém. O jeitinho faz um ganhar e outro perder, tira a chance de quem é correto e privilegia quem não é.

O jeitinho está enraizado em pequenas práticas que vão ganhando força, dando o tom da cultura política, estabelecendo-se nas relações sociais e sendo a base para os diferentes níveis de corrupção do País.

A luta contra o jeitinho deve começar dentro das casas, com o reforço do caráter, com a orientação e com o exemplo cotidiano. Em uma república não existe meio certo, existe o certo e o errado. Tanto é que o direito de um termina quando o do outro começa.

O jeitinho deve ser observado nas pequenas ações cotidianas:

- Quando uma criança aparece com um brinquedo que não é seu e os pais não fazem nada;

- Quando uma criança cola na prova e os pais ainda dizem que o filho é esperto, pois enganou a professora;

- Quando se vê o filho furar uma fila e não o orienta;

- Quando o filho quebra algo em uma loja e os pais fazem de conta que não viram nada;

- Quando um filho assina um documento enviado pela professora, como se fosse um dos pais;

- Quando o filho mente a idade para se cadastrar em uma rede social e os pais aceitam;

- Quando um colega assina a lista de presença por outro colega que não foi à aula;

- Quando se coloca o nome de um colega no trabalho que ele não fez.

Aplicar o jeitinho brasileiro é fazer uma gambiarra. Muitas vezes, para se burlar uma regra, se tem mais trabalho do que para cumprir a regra. Há casos de estudantes que gastam mais tempo preparando a cola do que estudando.

Quem pratica o jeitinho tem uma desculpa na ponta da língua, desenvolve a capacidade de transferir a culpa.

- Se joga papel no chão por falta de lixeira;

- Se ocupa a vaga de estacionamento para deficiente com o argumento de que será por pouco tempo;

- Se fura a fila e se diz que alguém deu bobeira;

- Se ocupa o espaço público, pois outros também ocuparam;

- Se arranca uma muda de flor de uma praça por não ter esta flor em casa;

E como um faz, o outro se sente no direito de fazer e o jeitinho vai tomando conta do corpo da sociedade, estabelecendo-se no nosso DNA comportamental.

A mudança deste cenário requer etapas integradas: a) A consciência dessa realidade; b) O debate sobre essa realidade, refletindo e deliberando o que é certo e o que é errado; c) A educação, que deve começar dentro de casa com exemplos e orientação; d) A prática, quando se abre mão de vantagens pessoais, trabalhando em prol do bem comum, da coisa pública.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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