Pai precisa ser muito mais do que os clichês

As redes sociais foram inundadas no último final de semana de muitas e variadas mensagens carinhosas, fofinhas e merecidas pela passagem do Dia dos …

As redes sociais foram inundadas no último final de semana de muitas e variadas mensagens carinhosas, fofinhas e merecidas pela passagem do Dia dos Pais, comemorado no domingo, com textos lindos e verdadeiros, declarações de paixão explícita e fotos de filhos e filhas com seus progenitores em momentos de convivência partilhada. Sempre entendo que as datas comemorativas devem e precisam ser destacadas em todos os lugares e meios possíveis. E que, principalmente, o amor e o afeto necessitam ser sempre espalhados, declarados e pulverizados todos os dias, todas as horas, todos os minutos e os segundos. E não tenho, já aviso bem no início da coluna, para evitar as críticas excessivas, absolutamente nada, mas nadica de nada mesmo contra o Dia dos Pais.
Mas, preciso ressaltar que estamos, apesar de inúmeros exemplos nos dias atuais de pais sensacionais, participativos, companheiros dos filhos e filhas, parceiros das companheiras ou companheiros na lida diária da educação dos rebentos (que é função tanto materna quanto paterna), ainda longe do padrão aceitável de pai ideal. Ou melhor, de pai responsável. Não tenho, nem de longe, a menor sombra de dúvida de quanto a figura de um pai é importante e essencial na formação do filho e da filha. Mas não é só para levar no futebol, para ensinar a torcer pelo mesmo time e ficar bravo se isto não ocorrer, para ajudar nas tarefas escolares de ciências exatas, para ser o provedor da mesada ou da pensão alimentícia ou para aparecer feliz e risonho nas festas das creches e colégios no Dia dos Pais.
Pai precisa ser muito mais do que os clichês de estórias com finais felizes das novelas dos horários nobres, de imagens que aparecem nas propagandas de famílias em harmonia que enfeitam comerciais de margarina, do senhor de barba e  com ar sisudo e compenetrado assistindo as notícias na televisão, da figura tradicional e não mais a única, nos dias de 2017, em lares formados pelo papai homem na representação da união heterossexual. Hoje, começam a ser melhor aceitas - graças a todos os santos de todas as crenças, seitas, heresias e religiões - as relações homoafetivas de casais de homens e casais de mulheres. E estes novos pais e estas novas mães que emergem destas relações devem ter lugar nas comemorações organizadas pelas creches e colégios nos Dias das Mães e dos Pais.
Portanto, nem todo o amor, mais uma vez endosso totalmente verdadeiro e legítimo de parte dos filhos e filhas, derramado nas redes sociais pela passagem da data do último domingo, encontra o pai companheiro, responsável e exercendo sua plena função que se espera em pleno agosto de 2017. Nem sempre se vê o pai amigo, o pai camarada, o pai que educa, o pai que aconselha, o pai que ouve, o pai que ensina valores e conceitos, o pai que espalha carinho, o pai que permite ao filho e filha escolher os seus caminhos, o pai que se preocupa com as diferenças e injustiças sociais, o pai que aceita as novas relações dos filhos e das filhas. Existem hoje sim muitos pais que se encaixam nas definições acima e que correspondem na sua plenitude às expectativas do filhos e filhas. Mas as exceções ainda são gritantes. E não deveriam mais preocupar pela sua existência.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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