Pertencimentos

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Sou amor e pertencimento,

Sou loucura e nostalgia.

E sou também todos os lugares onde nunca estive".

Einar Már Gudmundsson, poeta islandês.

Sentado à mesa de um café de Paris, em uma tarde de janeiro de 1909, Marcel Proust molha distraidamente uma madeleine na xícara de chá. O prosaico gesto lhe desperta lembranças da infância em Auteuil e da adolescência passada, que ele evoca como Combray. Esta cena icônica descrita em 'O Caminho de Swann' transformou um simples biscoito e uma prosaica xícara de chá em inescapáveis referências de nossa busca do tempo perdido.

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Passados 109 anos depois, sem aviso prévio, um objeto qualquer à nossa frente pode despertar fragmentos esquecidos em gavetas da memória. Para um, serão navios e portos longínquos. Para um outro, rostos de afetividades distantes, que esquecemos no limbo. E quase sempre, são imagens incompletas, que precisamos recompor e redescobrir. Mas que, de uma forma ou de outra, estão enraizadas em nosso repertório de vivências. E assim como em Proust, perguntamos porque determinadas cenas do passado nos assaltam justamente quando tentamos esquecê-lo.

O filósofo Alain de Botton escreveu que nenhum leitor de Marcel Proust  se livra facilmente de seu passado. Ele foi visitar Illiers-­Combray, a vila francesa que tem importante papel na geografia emocional de Proust.  Mas não encontrou o que procurava - Illiers-­Combray é simplesmente uma cidadezinha comum, igual a dezenas de outras no interior da França. Ele vai fazer o percurso dos célebres caminhos de Swann e Guermantes, mas nada descobre de extraordinário - são trilhas comuns, semelhantes às que conhecemos nos campo de nossa infância. E de Botton conclui:

"Não será na visita aos caminhos de Swann e de Guermantes que reencontraremos o tempo perdido em La Recherche - nem o nosso".

Para o filósofo, é preciso ver o mundo com olhar de Proust, ao invés de tentar ver o mundo de Proust com nosso olhar.

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Os muitos biógrafos e estudiosos de Proust repetem que sua obra nunca tenta ser amável com o leitor. Ele era um bom conversador e pessoa amável, mas indiferente à idéia de que o romance deve ir ao encontro   do público. Ao contrário de escritores de seu tempo, Proust não tinha dúvidas sobre o que escrevia. Nem discutia literatura com os amigos ou colegas de profissão. Escrevia à noite, durante os últimos quinze anos de vida, fechado no apartamento de Paris, com as persianas corridas e paredes forradas de cortiça, para evitar os ruídos externos.

Aos poucos visitantes, não comentava sobre o que estava escrevendo e amigos não o julgavam capaz de algo significativo ou importante. Seu primeiro manuscrito foi recusado por uma grande editora francesa, que  se viria a arrepender amargamente. Em 1913, quando La Recherche começou a ser publicado, Proust ainda estava vivo e um crítico mais atento registrou que ele escrevia como se sofresse de falta de ar. Na verdade, Proust ocultava que sofria de asma.

O tempo é o elemento mais importante em Proust, que usa esta variável como poucos. Ele faz parecer que a memória rompeu com o passado e futuro, que se transformam e se fundem: o homem e o menino da narrativa são uma coisa só. Experimentam os mesmos sentimentos, é impossível dissociar um do outro. O menino que espera com ansiedade a resposta de um bilhete enviado à mãe através da criada Françoise, é na verdade o homem que revive o passado.

Na fusão de passado e presente, o tempo se desfaz como neste simples parágrafo:

" (?) Mandou-me dizer pela Françoise estas palavras:

'Não tem resposta. São palavras que depois tantas vezes ouvi da boca de porteiros de palácios ou de criados de casas de jogo, dirigidas a uma pobre moça qualquer, que fica admirada:

'Como? Ele não disse nada?' ".

A criança que se angustia com a ausência da mãe, não a retrata com cores favoráveis, sugerindo uma mulher fria, pouco amorosa. O narrador vê em Swann o grande culpado, pois sempre que ele chega em Combray, a mãe não vai lhe dar o beijo de boa-noite. Uma memória que nunca morrerá na memória de Marcel. Mas será seu caminho de reencontro com o passado:

"Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles que perdemos permanecem cativas em algum ser inferior, num animal, num vegetal, numa coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós e, mal as reconhecemos, quebra-se o encanto. Libertadas para nós, venceram a morte e tornaram a viver conosco.

O mesmo acontece com o nosso passado. É trabalho baldado procurarmos evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido, fora de nosso domínio e de nosso alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria) de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objeto antes de morrermos - ou não o encontrarmos nunca".

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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