Sr. Presidente, que parte da indignação social o sr. não entendeu?

A greve dos caminhoneiros é greve da maioria da sociedade.

A dificuldade financeira dos caminhoneiros é a dificuldade financeira da maioria da sociedade.

A indignação dos caminhoneiros com a situação do Brasil é a indignação da maioria da sociedade.

A descrença dos caminhoneiros com os políticos é a descrença da maioria sociedade.

A desconfiança dos caminhoneiros com as instituições é a desconfiança da maioria sociedade.

Todas as pesquisas de opinião deste País mostram que o brasileiro está decepcionado, não aguenta mais tanta corrupção, desvio de recursos públicos, ineficiência de serviços, manutenção de privilégios e, principalmente, não suporta mais pagar tantos impostos. O brasileiro não aguenta mais driblar tanta dificuldade na área da saúde, na educação, na segurança pública e ainda 'pagar a conta'.

O brasileiro está 'exausto', 'machucado', e acredita que a classe política é a grande responsável pela situação em que o País se encontra. A população vive a frustração com a mesma intensidade que tem esperança. A sociedade precisa de propósito, de uma bandeira. E não se pode esquecer do raciocínio clássico: na falta de um caminho, qualquer caminho serve.

A população estava apática, pois não sabia o que fazer, em quem acreditar, como ser ouvida. Agora, a apatia social pode encontrar o seu extremo, que é a reação social. Os caminhoneiros tiveram a coragem e mostraram o caminho, tiveram a adesão e a solidariedade da sociedade.

A maioria da população apoia as manifestações (mais de 70%) e a adesão às manifestações está sendo realizada de diferentes formas. Há "muitos cidadãos com coração de grevista", pois há muitos "cidadãos indignados".

Os caminhoneiros estão nas ruas, os empresários estão suportando as perdas, o povo mesmo passando trabalho entende a situação e apoia os caminhoneiros com o seguinte argumento: "É ruim, mas como está não pode ficar".

Nos grupos de WhatsApp se multiplicam os apoios aos caminheiros. São depoimentos de empresários que mostram suas perdas e reclamam dos impostos e da corrupção, relatos de donos de transportadoras que ajudam caminhoneiros e são acusados de locaute, são trabalhadores da iniciativa privada que não aguentam mais as dificuldades cotidianas, são autônomos que não conseguem mais alimentar as suas famílias. São pais e mães de família que querem ter esperança.

A população conclama por mudança. Uma mudança real, para além da diminuição do valor do diesel e da gasolina.

Deseja uma nova forma de administrar, onde o Estado esteja a serviço da sociedade. A esperança é por um governo que vise o bem comum, que lute pelo interesse público e que não ceda aos interesses pessoais. Um Estado onde a corrupção e o jeitinho brasileiro não sejam os protagonistas.

O anseio da sociedade pode ser retratado em um trecho do poema de Elisa Lucinda: "Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar a limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: é inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal. E eu direi, não admito! Minha esperança é imortal. E eu repito, imortal: sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser, dá para mudar o final".

A maioria da população só quer o que é seu de direito: o direito de viver em paz, de trabalhar e não ser extorquida.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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