Uma mesa à janela

"Os cientistas dizem que somos

feitos de átomos, mas um passarinho

me contou que somos feitos de estórias."

(Eduardo Galeano)

Todas as manhãs, Eduardo Germán María Hughes Galeano caminhava pela Ciudad Vieja até o Cafe Brasilero, na Calle Ituzaingó. Ele sempre ocupava a mesma mesa, junto à parede de madeira e perto da janela envidraçada. Abria seu jornal, pedia um "cortado" ou o café batizado com seu nome, feito com Amaretto e doce de leite. O escritor de "As Veias Abertas da América Latina" podia não ser uma unanimidade entre os uruguaios. Mas, quando morreu, em uma manhã de abril de 2015, a cidade de Montevidéu parou, congelada no tempo.

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Eduardo Galeano era verdadeiramente apaixonado por sua cidade. Costumava dizer que, se um dia tivesse que nascer de novo, seria em Montevidéu. Era um dedicado flâneur, embora detestasse a expressão. Seus roteiros mais frequentes eram as ruas estreitas da Ciudad Vieja, a Rambla 25 de Agosto e a Rambla Gran Bretaña.

Sobre suas longas andanças, escreveria:

"- Caminho pelas ruas da cidade onde nasci. Ando nela e ela anda em mim. E, enquanto vou, as palavras caminham dentro de mim e vão formando estórias."

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O escritor era um autêntico storyteller. Nascido de família de classe média, católica, não negava sua ascendência europeia. Na infância, sonhava ser jogador de futebol - como confessou em O futebol de Sol a Sombra. Na adolescência, trabalhou como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Aos 14 anos, vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol. Começou sua vida jornalística no semanário Marcha, que tinha colaboradores figurões como Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti. Em 1973, com o advento do golpe militar, ao saber que seu nome estava na lista dos esquadrões da morte, exilou-se na Espanha, onde começou a escreve a trilogia Memória do Fogo. Em 1985, retornou a Montevidéu, onde viveu até sua morte.

Sempre sustentou uma visão lúcida e crítica sobre sua terra. Escreveu que os uruguaios acreditam que o Uruguai existe, embora o mundo não o perceba. Lembra que o país aboliu castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha e adotou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes da França. Ao mesmo tempo, registra, com tristeza, que a população uruguaia está ficando escassa e envelhecida:

"- Aqui nascem poucas crianças. Nas ruas, vemos cada vez mais cadeiras de rodas do que carrinhos de nenês."

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Os amores de Eduardo Galeano por Montevidéu são frequentemente lembrados nos roteiros que admiradores e leitores gostam de percorrer na bela cidade platina. Neles, está sempre presente o indefectível Cafe Brasilero, uma tradicional cafeteria que funciona na Ciudad Vieja desde 1877. Em sua mesa de janela, ele costumava se encontrar com os amigos, o ex-prefeito Mariano Arana e o escritor Mario Benedetti. Requisitado por quem o via à janela do café, atendia aos pedidos de autógrafos, justificando a incômoda fama de celebridade:

"- As pessoas querem ver Deus, mas não sabem como ele é. Então, criam deuses nas pessoas. Como faz bem a elas, deixo que me vejam."

Até hoje, o Cafe Brasilero conserva nas paredes fotos e frases de Galeano. Garçons, o gerente e o dono, não se furtam de falar da convivência com o ilustre frequentador, sempre com elogios. Uma de suas frases mais lembradas pode ser lida em placa junto à entrada:

"Montevidéu é uma cidade onde as pessoas amam sem dizer e se abraçam sem se tocar."

O visitante que percorrer o roteiro Galeano vai conhecer o edifício clássico do Correo Central de Uruguay, onde ele ia buscar correspondência nas antigas caixas postais feitas de bronze. Na Calle Buenos Aires, 451.

Outro ponto preferido do escritor era a Plaza Matriz, próxima ao jornal Marcha, onde foi chefe de redação. A praça, considerada o coração do centro velho, se chama na realidade, Plaza Constitución, mas nem todos usam a denominação oficial.

Especializada em livros antigos e sobre a história da América Latina, a livraria Linardi y Risso teve papel marcante na formação de Galeano e muitos de sua geração. Ali se reuniam intelectuais como Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa, Haroldo de Campos, Mario Benedetti e Julio María Sanguinetti. Calle Juan Carlos Gómez, 1.435.

Eduardo Galeano também era apaixonado por futebol e torcedor do Nacional. Gostava de visitar o Estádio Centenário mesmo quando não havia jogo. Lembrava que ali o Nacional havia sido campeão da Libertadores por três vezes e onde o Uruguai se sagrou campeão da primeira Copa do Mundo, em 1930. Em O Futebol de Sol a Sombra escreveria, nostálgico:

"- Não há nada mais vazio que um estádio vazio."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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