Afonso Licks: Por acidente no Jornalismo

Atropelamento na infância fez comunicador sair do Interior para viver em Porto Alegre, onde seguiu uma trajetória intensa de jornalista, escritor e advogado

Por Patrícia Lapuente

Aos seis anos de idade, Afonso Licks mal sabia que um acidente de carro iria torná-lo o homem que é. Naquela época, ao ser atropelado por um veículo desgovernado, deixou a pacata vida no Interior do Rio Grande do Sul, onde adorava mergulhar no rio Caí, para se tornar um ativista estudantil do Colégio Júlio de Castilhos, o famoso Julinho, em Porto Alegre.

Acostumado a ir de trem para Porto Alegre, ainda quando criança passou a morar na Capital. Já na escola, após participar de um levante contra o uso do uniforme e da criação de um jornal, que questionava alguns métodos da instituição de ensino, foi convidado a se retirar. Detalhe: estava a um passo de se formar.

"Sou um de sete." É assim que o montenegrino, filho de Otto e Irma, se denomina. Irmão de Augusto Licks, ex-integrante da banda Engenheiros do Hawaii, brinca: "Ele que é meu irmão, pois eu vim primeiro". Atualmente, a casa em que viviam não existe mais, pois foi desmanchada no início do ano pelos novos moradores. Contudo, as memórias do local, no centro de Montenegro, permanecem no sorriso de quem relembra a infância.

Sua turma

Hoje, quem olha o senhor de terno sentado à frente de um computador não imagina que ele já dormiu em redes de barcos e se considerava um hippie em uma Garopaba ainda não popular. Com o pensamento de viver intensamente, após concluir o ensino médio, ingressou na Ufrgs com o intuito de cursar Música ou Direção de Arte. Foi, até mesmo, convidado para estudar Educação Física, no entanto, foi com os jornalistas que encontrou sua turma, como o amigo Fernando Goulart, que faleceu em novembro deste ano.

Após entrar para a equipe da Rádio da Universidade, na instiuição de ensino, com o também falecido Carlos Urbim e Iara Bendati, não parou mais. Teve passagens por Folha da Manhã, a qual chama de 'grande escola'; pela Central de Notícias, com Antonio Britto; e na extinta Caldas Júnior, onde criou o Caderno de Esportes do Correio do Povo. Ainda passou pela Gaúcha e acumulou atividades n'O Estadão, n'O Globo e na revista Manchete, tudo ao mesmo tempo. O SBT e outros trabalhos, como colunas e a edição da revista Voto, também constam em seu extenso currículo.

Dos fatos curiosos, relembra o tempo em que trabalhava no jornal do Grupo Globo e tinha contato diário com o dono, Roberto Marinho. O repórter ligava para o chefe todos os finais de semana para saber o desempenho dos cavalos do executivo, nas disputas realizadas na Hípica de Porto Alegre. Uma vez atrasou a ligação e Marinho perguntou o que havia acontecido. "Eu tinha pego uma carona com o pessoal da TV Globo e ele falou: 'a TV é concorrente do jornal. Pegue um táxi'."

Tinha política no caminho

Diz que prima pela mudança e, por causa dessa inquietude, ingressou no meio político a convite de Ibsen Pinheiro, atual deputado do PMDB, de quem esteve ao lado depois do Impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Como estava próximo do político cassado, também foi alvo de investigação. O período conturbado despertou em Licks a vontade de cursar Direito e, desde então, trabalha com pro bono, nome dado aos casos cíveis voluntários. Ainda enquanto advogado, foi membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara de Vereadores da Capital, convite que surgiu com o retorno de Ibsen à política.

Foi em uma mesa de bar, acompanhado de um chope, que ele solucionou uma crise do governo Rigotto. A consultoria dada ao amigo deputado lhe rendeu o cargo de chefe da Comunicação do governo gaúcho, em 2003, tornando-se o primeiro a ocupar tal posição.

Entre todas as experiências, a política lhe rendeu uma segunda esposa. A advogada Josete Mirapalheta, que também atuava com campanhas políticas, tornou-se sua companheira na estruturação e realização das ações no que se referia à comunicação na área.

Luta diária

"Essas coisas são como o oxigênio: estão no ar e tu não percebes até que te faltem", opina Licks, que também é secretário-geral do Movimento de Justiça e Direitos Humanos. Além de fazer parte do projeto Marcas da Memória, que coloca placas em locais que serviram de tortura durante a ditadura militar, atuou em processos de anistia. Este desdobramento da vida não é mero acaso: o irmão José Rogério foi banido do Brasil e vive até hoje na Alemanha. "A arma dele era um violão", revela. Nas horas vagas, é relator do Prêmio de Jornalismo dos Direitos Humanos.

Ler é o que gosta de fazer quando não está na assessoria de comunicação do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), onde atua desde 2012. Dos livros favoritos, cita A Montanha Mágica, de Thomas Mann; e Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. No ramo da literatura, além de leitor é escritor. A obra intitulada Octavio, o Civil dos 18 do Forte de Copacabana, embora fictício, traz como mote a história do único homem que não era militar na Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. O personagem o permitiu ressaltar a tragédia que foi a passagem de um governo monárquico para um republicano.

Outras duas produções sobre a história dos ingleses em Santa Catarina e da mudança da geografia do Rio Grande do Sul ainda estão em seus planos. Ele revela, ainda, que só se sentirá realizado quando conseguir destinar tempo para concretizar tais projetos.

Pé na estrada

Licks é o maior incentivador do único filho, Alonso, fruto do primeiro casamento, sobre o qual prefere não entrar em detalhes. Enquanto o herdeiro mora na Nova Zelândia, ele aproveita para viajar, atividade que o fascina tanto, que seu projeto é voltar a Roma, "onde, a cada passo, esbarramos em uma parte da história". A capital francesa é outro lugar onde moraria, graças a um amigo que reside a uma quadra da Ópera de Paris.

Em uma Garopaba agora mais movimentada, possui um veleiro, com o qual realizada a paixão de sair ao mar e sentir o vento. Mas as estradas também captam sua atenção, uma vez que já teve uma Honda Falcon e, hoje, pilota uma motoneta pelas ruas da cidade.

Aventureiro em terra e mar, é em casa que encontra a calmaria. Nas noites de sexta-feira costuma escutar jazz e, aos sábados e domingos, é a música clássica que o embala como trilha sonora. Quando está com a cabeça cheia, a saída é ir para a cozinha fazer o seu prato favorito: atum no azeite quente. Para completar, ainda é fotógrafo, atividade por meio da qual consegue expressar tudo o que passa pela mente inquieta. "Tenho essa necessidade tanto através da fala e da escrita, quanto da arte."

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