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Ruy Carlos Ostermann: O que você precisa saber?

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O Professor não consegue se conter. Até mesmo quando muda de lado, e passa a ser o entrevistado, age como entrevistador. Mal começou a conversa e ele é quem lança a primeira pergunta: “O que você precisa saber?”. Totalmente compreensível, pois o entrevistado trata-se de Ruy Carlos Ostermann, 69 anos, o jornalista que diariamente fala com os ouvintes da Rádio Gaúcha em seus programas Sala de Redação e Gaúcha Entrevista, onde mostra toda a sua habilidade – no primeiro, aliada à capacidade de dialogar; no segundo, a arte de entrevistar. E habilidades não faltam para Ruy, que já atuou em todos os meios de comunicação. Formado em Filosofia e Pedagogia, seguiu paralelamente ao jornalismo a carreira do magistério, a qual lhe rendeu o apelido de “Professor”, inicialmente utilizado pelos colegas, e hoje, também, pelos ouvintes. “Eu tenho o apelido não porque eu seja professoral, e sim porque eu sempre fui professor. Depois isso ficou com aquele sentido dúbio de parecer uma pessoa toda cheia de conhecimento, o que é diferente de uma pessoa que exerce simplesmente a profissão”, explica com humildade. Ruy também foi deputado e se dedicou à carreira de escritor, que cultiva até hoje, sendo uma das atividades da qual não deve se afastar tão cedo. Aliás, o escritor é o personagem interpretado por Ruy que mais ficará em cena. O comentarista esportivo, o cronista, o entrevistador, o colunista devem, aos poucos, se afastarem da ribalta. O professor e o deputado há muito tempo já estão fora do elenco mas, como a veia de educador permanece viva, o próprio Ruy acredita que continuará realizando palestras mesmo depois de afastar-se das rotinas atuais.

Família é tudo

Nascido em São Leopoldo, está há 40 anos casado com a professora Nilce Wink. Tem três filhos, a jornalista Cristiane, a doutora em Física Fernanda e o pequeno empresário Felipe. O filho varão não quis continuar os estudos, constituiu família e foi para Santa Catarina, onde adora surfar. Ruy apressa-se em esclarecer que Felipe tem todo o seu apoio: “Estudar é uma questão de ansiedade intelectual. Hoje estou convencido de que você tem que deixar os filhos fazerem o que eles querem, mas tem que apoiá-los”, ensina o Professor. E assim mostra que, para ele, família é tudo. O filho foi para Garopaba e levou os pais, que hoje têm uma casa lá, um bom refúgio para Ruy. Lá, ele desfruta da natureza, fica perto das mais de 250 árvores que plantou, além de curtir o rio e o mar. É um local em que pretende passar grande parte do seu tempo nos próximos anos. Apaixonado pelos netos, faz questão de contar que quem manda nos Ostermann são cinco crianças: a Daniela, de 11 anos; a Natália, de 6; a Giovana, de 5; e o Gabriel e o Vitor, de um ano. “Os netos estão revitalizando tudo, assumiram todas as nossas casas”, frisa o vovô coruja que, mesmo com o tempo escasso, sempre arranja espaço para atender aos filhos e netos. Conta que adora freqüentar a casa de todos, e que sempre se reúnem nas festas universais e nos aniversários.

Cultura é tudo

Entre seus prazeres, o Professor destaca o gosto pela leitura. Não é à toa que foi escolhido patrono da última Feira do Livro. Começou a ler cedo tudo que via pela frente. Com o passar do tempo, foi selecionando os autores, passando a conhecer as obras de Eça de Queiroz, Machado de Assis, Graciliano Ramos, entre tantos outros. Entre estes “outros” Ruy destaca escritores ligados à área jornalística, entre eles Mário Filho, Nelson Rodrigues e Carlos Drummond de Andrade, todos com forte passagem por redações de jornal. Já na Filosofia, cita Jean Paul Sartre e Merleau-Ponty. A partir dos filósofos, outras leituras nas áreas de sociologia e política foram agregadas, levando o Professor a ingressar na política mais tarde. Revela que não lê com a intensidade que gostaria, então utiliza alguns truques. “Leio parte de um livro e começo a fazer outra leitura circunstancial de exigência da trabalho. Descobri um artifício para você continuar lendo, que são as poesias e os contos, pois são leituras mais rápidas”, explica. Prioriza a qualidade e não a quantidade. Portanto, para ele não basta ler vários livros, é preciso fazer anotações e fichas, interpretar e analisar, o que denomina de leitura de trabalho. Na cabeceira, atualmente, estão Lara de Lemos, Noam Chomsky e Boaventura de Souza Santos. Seus projetos de leitura são as obras de Élio Gaspari sobre a ditadura. É redundante registrar que Ruy gosta muito de escrever, mas o que quase ninguém sabe é que não é fã do computador, que utiliza mais na redação. Em casa, trabalha numa velha máquina elétrica e também escreve à mão. E ensina: “Se você tem uma boa idéia, anote, mesmo que não esteja na melhor forma, registre os elementos constitutivos do pensamento”. Para isso tem um risque-rabisque em cima da sua mesa, que considera um grande exercício de escrita.

O ritual da comida

Ruy não dispensa uma boa comida. Mas, para ele, a hora de beber e comer são antes de tudo rituais onde pode desfrutar do convívio entre amigos e familiares. Ele destaca que os uruguaios sabem agregar comida e convivência. “Um churrasco no Uruguai começa às 9h, e esse é o verdadeiro churrasco em que todos da família passam pelo assador”, explica. Considera-se um churrasqueiro competente e identifica a praia como o lugar ideal para apreciar um bom churrasco. “A praia é uma instituição fundamental, há uns imbecis que acham que praia é mar. Até pode ser mar e se for, que bom, mas é sobretudo areia, pés descalços, bermuda, caipirinha, conversação, namoro e churrasco”, conclui. Outro local indispensável para Ruy é o bar. Adora conversar e tomar chope com os amigos. Ele acredita que o mundo contemporâneo está perdendo o exercício da conversação por falta de tempo para cuidar um pouco da vida das outras pessoas. Também aprecia a boa música, vai a concertos e shows de danças. Entre os estilos preferidos, estão as clássicas, MPB e o jazz. Tem uma estante que abriga mais de mil CD’s. Sempre que pode, tira um e escuta enquanto desenvolve outras atividades. Mas tem horas que, confessa, pára tudo para dedicar-se a ouvir um determinado som que estimule ludicamente os sentidos.

O dia de Ruy

O dia de Ruy Carlos Ostermann começa cedo com um café rápido e em seguida vêm os exercícios, que incluem alongamentos e caminhadas no bairro Petrópolis, onde mora. Faz questão de grifar que depois de um “bom banho”, estuda, lê, escreve e fica a par das notícias. A partir da meia-hora, está no estúdio da Rádio Gaúcha para iniciar o “Sala de Redação”. Após, segue para a redação da Zero Hora para encaminhar a sua coluna, e às 16h volta ao estúdio para levar ao ar o “Gaúcha Entrevista”. Finaliza a coluna depois deste programa – e assim acaba o dia de trabalho. À noite, geralmente tem compromissos, três ou quatro atividades, que muitas vezes incluem as palestras de que tanto gosta. Quando não tem compromissos, prefere ir para casa para assistir os telejornais e ler antes de dormir. No entanto, estar em casa é raridade. Também, com o seu currículo, só poderia ser assim mesmo. É autor de dez livros, entre eles, dois que estão entre os maiores orgulhos de sua carreira: o livro sobre o Internacional, “O meu coração é vermelho”, e a obra sobre o Grêmio, “Até a pé nós iremos”. “Para um colunista esportivo isso é um fato extraordinário, escrever diferentes livros sobre dois grandes rivais. Pelo tipo de atividade que desenvolvo, procuro ser muito isento. E recebi uma manifestação magnífica por parte das duas agremiações”, destaca. Outro grande marco na carreira literária foi o convite para escrever o livro “Felipão – A Alma do Penta”, que conta a trajetória do técnico da Seleção Brasileira Pentacampeã, Luiz Felipe Scolari. A obra já vendeu uma média de 30 mil exemplares.

Menos trabalho, mais lazer

“Eu trabalho demais, há muito tempo estou pensando em reduzir um pouco essa minha atividade braçal para me dedicar a escrever, a ler, a pensar e a viver um pouco também”, desabafa Ruy. Mas diz que é difícil se desvincular da atividade “porque as pessoas pedem para que continue”. No entanto, repete que está cansado e lamenta que muitas vezes sequer tem fim de semana. Pois agora tem dado mais atenção para essa necessidade de diminuir o trabalho e aumentar o prazer. Acaba de fazer um cruzeiro que saiu de Santos e foi a Búzios, em um navio de dez andares. Um passeio que define como “inesquecível”, adjetivo que, aqui, soa até surpreendente quando vem de alguém que já viajou por quase todo o mundo. Logo depois de cada Copa do Mundo sempre tira férias, e não foram poucas as competições de que participou. Sua primeira Copa foi em 1966, na Inglaterra. Desde então cobriu todas, 10 no total – só de Copas do Mundo… Os projetos para 2003 contemplam escrever um livro sobre a entrevista no rádio e outro reunindo pequenos ensaios que já tem escrito. Ainda entre seus planos para este ano está o de auxiliar a filha Cristiane, também jornalista, a desenvolver projetos na área de rádio e audiovisual. Ruy é uma usina de idéias e projetos – e o seu grande medo é de não conseguir realizar alguns. Isso porque tudo o que realiza é com muita intensidade, e acredita que se não for para ser assim, é melhor não realizar. Como o salto de pára-quedas, sonho frustrado deste ex-jogador de basquete…