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Moisés Mendes: Vícios de jornalista

Com quase meio século de profissão, passando por todas as áreas do Jornalismo, Moisés Mendes prova que o que sabe mesmo é escrever
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Moisés | Divulgação

Moisés | Divulgação

Por Gabriela Boesel

Escrever é o que ele sabe fazer. É o que ele gosta e é o que ele sempre fez. Para isso, vários foram os jornais que serviram de pano de fundo para Moisés Mendes expressar em palavras escritas suas opiniões. Um inquieto, como se autodefine, ele gosta de estar informado sobre tudo e quer sempre aprender, questionar. “Acho que é um vício de jornalista”, diz, com sotaque forte da fronteira.

Declaradamente de esquerda, Moisés defende que todo profissional de Jornalismo deve se posicionar sobre temas variados, o que não deve é militar. Jornalista, para ele, não pode ter medo, pois “se tiver muito medo, não pode ser jornalista”. Sem fugir de dar opinião sobre tudo que lhe é apresentado, afirma categoricamente que neutralidade é uma das grandes farsas da profissão, e que os códigos que regem o ofício, cedo ou tarde, vão acabar.

Mesmo sem nenhum parente no ramo da Comunicação, a influência para seguir na carreira garante que veio de casa. A coleção de revistas e jornais da avó e de uma tia despertou em Moisés o gosto pela leitura e pela escrita, e fizeram dele o que é hoje: um profissional com quase meio século de experiência, que variou desde porteiro a editor, incluídas aí todas as editorias.

Um fidalgo do Interior

A origem de Moisés é motivo de curiosidade para alguns e um tema que aparece com frequência em suas crônicas. Nascido em Rosário do Sul, em 1953, e criado em Alegrete, ele prefere encerrar a discussão dizendo que “se considera das duas cidades”.

Para a Capital veio somente em 1988 para trabalhar em Zero Hora, onde passou a maior parte de sua carreira. Foram 27 anos divididos em funções variadas. Na primeira década, integrou o time da editoria de Economia, depois foi editor Especial, época em que já se arriscava com crônicas de Opinião, e foi, ainda, editorialista de ZH antes de atuar como colunista até sua saída este ano.

Mesmo há tanto tempo em Porto Alegre, não perdeu o sotaque interiorano nem o costume de dizer ‘bueno’ a cada início de frase. Inclusive, enfatiza sua paixão pelo pampa gaúcho ao mencionar que tem muito orgulho de onde nasceu e cresceu. “Acho que o Interior tem um certo charme, uma fidalguia”, diz.

E foi nesse Interior que deu os primeiros passos na profissão. “Sou de uma geração que fez Jornalismo por conta”, fala, ao explicar que, por falta de opção de instituição de ensino, não tem formação acadêmica. Com 17 anos, já se atrevia na arte de escrever. Conta que nessa idade comandava o jornal A Patada. Surpresa seria se alguém conhecesse o impresso, pois, mesmo orgulhoso do feito, confessa que não passava de uma produção caseira, feita em papel almaço, de um exemplar e que não era distribuído. “Bueno, mas veja só, na juventude eu já tinha esse desejo de trabalhar com isso”, recorda.

Foi na Gazeta de Alegrete que iniciou no Jornalismo profissional. Foi chamado por influência da avó, que conhecia os donos do impresso. Animado, qual não foi sua decepção quando descobriu que a primeira função que exerceria seria a de porteiro. Paciente, aceitou a proposta e aguardou ser promovido. Lá, passou pelo setor de clicheria – onde se produzem clichês, ou seja, placas gravadas em relevo, para impressão de imagens e textos por meio de prensa – até assumir como editor. O fato de o jornal ter sido criado para ser abolicionista é motivo de orgulho. “Bueno, me honra muito ter começado na Gazeta. Gosto de contar que trabalhei em um jornal que nasceu com esta proposta”, enfatiza.

Das quase três décadas em Zero Hora, leva na bagagem muitas histórias e ensinamentos. Mas na lembrança mesmo, estão guardadas recordações de quando ainda estava percorrendo as redações nos pagos do Interior. Do Jornal Semanário, de Bento Gonçalves, conta, com jeito divertido, que fugiu, pois tinha perdido a carteira de trabalho e não tinha registro. “O seu [Henrique] Caprara me incomodava para assinar e eu estava sem a carteira, até que não fui mais para a redação”, recorda.

O primeiro reconhecimento como profissional de imprensa veio quando Moisés estava no jornal A Plateia, de Santana do Livramento. Com uma reportagem sobre uma vila pobre que sobrevivia em meio à riqueza do latifúndio da cidade, ele foi agraciado pela Associação dos Jornais do Interior do Rio Grande do Sul (Adjori-RS). “Aquilo mexeu muito comigo. Eu gosto de lembrar.”

Da primeira grande reportagem lembra com carinho, embora o tema fosse complicado. Foi em 1978, quando, como correspondente do extinto Folha da Manhã, da também antiga Caldas Junior, foi cobrir uma invasão do Movimento dos Sem Terra (MST). “Fui com minha ex-mulher e com meu filho, que tinha pouco mais de um ano. Levei o guri junto e entrei com ele na fazenda. Eu não tinha noção de como era a invasão”, explica.

Nada se cria. Tudo se copia

Orgulhoso da época jornalística na qual viveu, não esconde que copia os repórteres que admira. “Sou um copiador dos outros. Não tenho problema em dizer isso, é inspiração e eu sempre o fiz”, admite, tranquilamente. Inclusive, recomenda que os estudantes e jovens profissionais do ramo sigam seu exemplo. “Tudo foi criado, não tem mais o que inventar, então, temos que nos basear nas boas referências”, encoraja.

Caco Barcellos, por exemplo, foi sua inspiração no começo da carreira. Mesmo com idades semelhantes – Caco tem 66 anos e Moisés, 63 –, o colega sempre serviu de exemplo. “Eu queria ser um repórter que nem ele, que fazia matérias atrevidas”. E tem mais um detalhe que Moisés ressalta: Caco, que na Rede Globo comanda o programa Profissão Repórter, também atuou na Folha da Manhã.

Luis Fernando Verissimo está no topo da lista dos mais admirados. O escritor, inclusive, assina a apresentação da primeira obra de Moisés, intitulada ‘Todos querem ser Mujica’, laçanda agora em outubro. “Verissimo é a grande referência de humanismo e de como uma pessoa que está na sua posição de formador de opinião deve se comportar. É a grande figura brasileira de hoje”, enfatiza.

Moisés tem passagens, ainda, pelas cidades de São Borja e Ijuí, onde atuou no jornal Correio Serrano e na Rádio Progresso. Mas, atualmente, informa que, após a saída de Zero Hora, diminuiu o ritmo, porém não abandonou a profissão. Colaborador do jornal Extra Classe, do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS), Moisés também comanda seu próprio blog (www.blogdomoisesmendes.com.br).

No ritmo mais leve

Desde que deixou de assinar a coluna em jornal diário, a vida mudou. Agora trabalha em casa e administra os horários e compromissos de forma mais tranquila. Além de escrever, divide o tempo com o hobby preferido: cuidar do jardim. Pequeno, mas, como ele diz, ideal, o espaço ao ar livre da casa é um recanto que se divide entre o verde da natureza e um ambiente que serve de palco para reuniões de família e amigos. Curioso, Moisés conta que gosta muito de entender o universo das plantas e que dedica boa parte do tempo livre para isso. “Gosto de tentar entender por que e como sobrevivem, por que uma morre e outra não em um mesmo ambiente. Me faz bem”, diz.

Desenhar também está entre as atividades que gosta. Tanto que se não fosse jornalista, teria seguido na área da Arquitetura. Gremista desde a infância, o filho de Nelson e Heleonora, ambos falecidos, confessa que na década de 1990 era louco por futebol, “torcedor maluco mesmo”, enfatiza, mas, curiosamente, nunca gostou de ir ao estádio. Hoje, já não dá tamanha importância ao esporte, tanto que dos dois filhos, um seguiu seu exemplo e o outro é colorado.

Artur, de 40 anos, e Bernardo, de 36, são frutos do primeiro casamento com Maria Aparecida. O mais velho, que é chefe de cozinha em Camboriú, em Santa Catarina, é pai de Murilo, de quatro anos. O caçula mora em Porto Alegre, onde estuda Letras e tem os pequenos Joaquim, 6, e Martina, de um ano. A atual companheira Virgínia, psicóloga com quem está há 13 anos, trouxe para o relacionamento os filhos Artur, 23, e Paulo Heitor, 25, que moram na Austrália. Com todos longe, o casal, que antes tinha a casa cheia, hoje divide o sobrado de três andares com uma cachorra poodle e três gatos.

Relapso com cinema e sem acompanhar séries por medo de se viciar, o jornalista se limita a dizer que gosta de dois filmes em especial, que têm a ver com a profissão: o cult norte-americano ‘Cidadão Kane’ (1941) e o brasileiro ‘Cabra Marcado pra Morrer’ (2012), de Eduardo Coutinho. Na literatura, diferentemente da sétima arte, não tem dificuldades em citar os autores prediletos. Diz que aprecia todos os brasileiros de ficção dos anos 1970 e 1980, como Moacyr Scliar, Rubem Fonseca, Inácio de Loyola, Ivan Ângelo, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues. Da atualidade, acredita que o ator, humorista e escritor Gregório Duvivier merece destaque por sua atuação como colunista na Folha de S.Paulo.

Com uma capacidade de dispersão notável, explica que isso se deve ao fato de tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo, o que considera um defeito. Nas qualidades, ressalta que é otimista com o futuro do Jornalismo e arrisca até a dar um palpite: “Acredito que as grandes redações vão desaparecer e o jornalismo de nicho vai se sobressair.”

No futuro se vê continuando a escrever, pois nem pensa em parar. Diz que nunca vai se cansar de expressar em palavras seus anseios, questionamentos e opiniões e insiste que não se admite em um mundo sem notícia. “Já falei, tenho o vício de se jornalista.”