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Luiz Augusto Cama: Colecionador de histórias

Publicitário Luiz Augusto Cama conta episódios de família e experiências da vida profissional
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Por Karen Vidaleti

Assim como os livros que se acumulam lado a lado nas estantes do escritório, no apartamento de São Paulo, a mente de Luiz Augusto Cama também arquiva uma enorme quantidade de histórias, repletas de detalhes. Prova disso está no fato de que a entrevista que dá origem a este texto precisou ser dividida em três longas e prazerosas etapas. Publicitário por vocação, começou a carreira pelo Jornalismo, antes de pegar o ônibus que mudaria sua trajetória. Em qualquer que seja a posição profissional, se revela um grande colecionador de histórias.

A inclinação para a comunicação, ele desenvolveu desde menino, quando estudante nos colégios Marista São Pedro e Rosário. Na adolescência, em meados dos anos 1950, mantinha um semanário mural e era parte da turma que editava o jornal do Rosário. A opção pelo Jornalismo se concretizou através de uma pequena notícia encontrada nas páginas do Correio do Povo, em junho de 1958. O jornal informava a abertura de um concurso para escolha de redator e locutor para a Difusora, emissora que havia sido comprada pela Ordem dos Frades dos Capuchinhos. A concorrência era grande, mas conquistou o primeiro lugar para a redação. “Virei noticiarista”, simplifica.

Lá, acompanhava as informações recebidas por teletipo, fazia escuta de rádios e escrevia notícias. Mais tarde, passou a produtor, repórter, apresentador e até comentarista de discos. Além do rádio, Cama experimentaria o jornalismo impresso. Um convite de Carlos Fehlberg o levou a integrar a redação do Jornal do Dia. Nele, conciliou a editoria internacional e a reportagem com os primeiros semestres na faculdade de Direito, pela qual se formaria em 1963. Deixou o veículo quando este deixou de circular, em 1967.

Mas foi um trajeto de ônibus que colocou a propaganda no caminho de Cama. Durante uma viagem em que acompanhava a namorada, Vera – hoje sua esposa -, encontrou um primo. “O Faveco (Flávio Corrêa) e eu vamos abrir a Denison Propaganda. Quer ser redator?”, teriam sido as palavras de Carlos Schneider. “Achava que sabia escrever, que tinha algum talento e criatividade. Decidi aceitar”, diz, modesto.

Ousadia para construir

Em uma época em que não existiam escolas de Publicidade, o trio precisou usar da ousadia típica de rapazes que tinham entre 22 e 24 anos para desbravar o mercado, conquistar contas e ganhar visibilidade, o que, por consequência, atraiu a atenção da Standard Propaganda. “O Estado estava em decadência econômica e havia outras agências de porte na praça, como a MPM, Mercur, JWT e Mc Cann. Mas ganhamos e inventamos contas – contas que praticamente não existiam”, afirma ele, ao lembrar que, na época, muitas empresas ainda negociavam seus anúncios diretamente com o departamento de publicidade dos veículos.

Com a ida para a Standard, que logo foi comprada pelo grupo inglês Ogilvy & Mather, Cama viveu um período de um ano no Rio de Janeiro, antes de mudar-se em definitivo para São Paulo. Na propaganda, atuou na criação e planejamento estratégico de campanhas, e ajudou a desenvolver marcas reconhecidas até hoje. Um exemplo é o Banrisul, nome recomendado por ele para a instituição então chamada de Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Na Ogilvy, tornou-se vice-presidente de Planejamento e também mostrou habilidades para descobrir e formar talentos, o que fez com que se tornasse diretor de treinamento da empresa para a América Latina e integrasse o Comitê Mundial da área.

Entre as lembranças que marcam a história de Cama com a Propaganda, estão desde a campanha que apresentava a previdência privada da Gboex aos brasileiros e resultou, em poucos meses, na aderência de cerca de 500 mil pessoas – número extremamente significativo para o Brasil da década de 1960 -;  a criação do fenômeno Minuano Limão, a formação da FAMECOS moderna em 1970, o planejamento de campanhas para Shell, IBM, Sul America, Unilever, Censo 2000, entre outros; até o trabalho de tradução do livro ‘David Ogilvy – Confissões de um publicitário’ (2011) e a produção de ‘Não conformistas, Dissidentes e Rebeldes’ (2013), obra comemorativa aos 80 anos da Ogilvy Brasil.

De redator a vice-presidente corporativo, Cama permaneceu 47 anos na Ogilvy Brasil, empresa da qual se aposentou há cerca de três anos. Ao recordar a trajetória, o publicitário considera-se uma pessoa de sorte pelas oportunidades que encontrou e que possibilitaram o desenvolvimento da carreira. “Tem uma expressão de Pitigrilli (pseudônimo de Dino Segre), escritor italiano e anarquista, que gosto de usar: ‘A vida se decide por um bonde que você pega ou deixa de pegar’. Os bondes que peguei me fizeram tomar a direção na máquina da vida”, avalia.

Raízes e tradições

De origem catalã, a família viveu momentos em diferentes países antes de radicar-se para o Brasil. O avô paterno, Agostinho, chegou a empreender na Cidade do México e em Vila Nova de Gaia, em Portugal, até decidir retornar à Espanha, para cultivar uma plantação de oliveira em terras herdadas. A difícil situação enfrentada pelo país após a Primeira Guerra Mundial e os reflexos da crise de 1929 fizeram com que os membros da família migrassem, aos poucos, para o Brasil. No Rio de Janeiro, mantiveram uma Livraria Científica e foi a possibilidade de expansão do negócio que trouxe Arturo, pai de Cama, ao Rio Grande do Sul, onde conheceu a jovem Celina e formou o próprio núcleo familiar.

A Avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, ainda preserva a construção alugada que serviu de lar a eles no início da década de 1940. Um pequeno palacete, com um belo jardim em frente e um imenso quintal aos fundos. Da infância, Cama guarda com clareza as memórias dos hábitos e do ritmo de vida daquele tempo, como o costume do avô em colocar o prato ao lado do rádio para almoçar ouvindo sobre a guerra no Repórter Esso; os bondes que levavam à missa na Igreja Santa Teresinha aos domingos; os passeios de barca pelo lago do Parque Farroupilha – quando ainda não havia os cisnes -; as pequenas brigas típicas de irmãos; e as peregrinações pelos bairros com o primo até a fábrica, onde compravam peças para jogar futebol de botão.

Casado com Vera, Cama é pai de Felipe, 46 anos, e Eduardo, 44, que também fizeram carreira na Comunicação. O primogênito é diretor criativo na produtora Sentimental, enquanto o mais novo é diretor de cena e branded content na Vice Brasil. Fonte de alegria também são os cinco netos, com idades entre 15 e 2 anos, que garantem ao avô momentos de descontração e divertimento. “O segredo é ter netos em idades diferentes, assim eles nos dão atenção e alegrias infantis por muito mais tempo”, brinca o publicitário.

Artes e viagens

A leitura é uma prática que Cama tem como fonte de lazer e aprendizado desde a infância. O menino, que cresceu alfabetizado pelo pai e pelo avô quando tinha em torno de cinco anos, cresceu consumindo livros e jornais e revistas, hábito que mantém até hoje. “Ler me fascinou sempre. A leitura é tua base de formação”, sustenta. Os romances de Machado de Assis foram lidos de ponta a ponta – aliás, ainda preserva a coleção do escritor, adquirida aos 18 anos, com selo da Editora Jackson e composta por 31 volumes. “Qualquer pessoa que tenha a ideia de escrever algo um dia, tem que ler Machado de Assis”, enfatiza. Ao lado dos jornais diários e revistas, as obras não ficções, biografias e livros sobre história moderna são, atualmente, as que mais atraem sua atenção.

A música é outro elemento que mantém por perto, herança de uma família de músicos, na qual a mãe trabalhava como professora de violão e as duas irmãs, Maria Tereza e Maria Luiza cantam e tocam instrumentos. Também nas artes encontra-se outra de suas atividades de lazer preferidas: o cinema. Romances, musicais, épicos, dramas, comédias, policiais e baseados em fatos reais estão entre os gêneros que acompanha. “Já assisti milhares de filmes e continuo vendo. Me frustra quando não ao cinema vou duas ou três vezes na semana”, confessa.

É um colecionista: já as teve de rádios antigos, de caixinhas de fósforos, de carrinhos de papel, de revistas. Conserva uma inusitada coleção de xícaras de cafezinho com marcas comerciais, composta por mais de 3.500 peças entre nacionais e estrangeiras, que talvez representem um recorde mundial.

Um importante hobby, alimentado ainda mais depois de aposentado, está nas viagens. Cama encontra satisfação em cada etapa desse processo, seja ele com destino ao Rio Grande do Sul, para visitar familiares e desfrutar a Serra gaúcha, ou a territórios estrangeiros, o que costuma fazer duas ou três vezes ao ano. Além de estudar e estar atento a tudo que envolve aviação, gosta de planejar e aproveitar desde a compra de passagens “de barbada” até os procedimentos de aeroporto e, por fim, a experiência em si. “Sou fascinado por aviação comercial”, admite.

Aos 77 anos, Cama vive uma rotina em ritmo mais tranquilo, sem as preocupações e exigências que o trabalho em agência requer. Quer mais é desfrutar dos momentos simples, da presença da família e amigos, e das experiências que o mundo tem a oferecer. “Sei que minha vida ativa pode acabar de repente, mas espero que isso não aconteça. Ainda pretendo viajar muito, cuidar dos meus netos, ensiná-los a terem cultura, a serem boa gente”, conclui.