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Carlos Henrique Schroder: Estrategista de bastidor 

Da extinta Folha da Tarde para a direção-geral da Rede Globo, o jornalista dedica quase quatro décadas à profissão pela qual seu coração bate desde a juventude 
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Carlos Henrique Schroder | Crédito: Clarissa Menna Barreto/PUC

Por Gabriela Boesel

Das 7h às 8h ele é outro. Esquece trabalho, desliga telefone e desopila. Como? Um passeio na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro – onde mora –, uma aula de Pilates, de RPG ou uma partida de tênis. Este é Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Rede Globo, quando se dedica a si mesmo. “É o meu horário”, explica, ao mencionar que tenta fazer muitas coisas no pouco tempo que lhe sobra fora do trabalho.

No aconchego da sala de estar de um renomado hotel em Gramado, na Serra Gaúcha, o jornalista, de carreira consolidada, conta que, por pouco, não foi um advogado de sucesso. Concomitante à faculdade de Jornalismo, concluída na Famecos, da PUC, em 1980, cursou Direito na Ufrgs, e chegou a tirar a carteira da OAB. Porém, a curta trajetória em um escritório foi substituída pela paixão. “Enquanto pensava no Direito, o Jornalismo latejava ao meu lado, até que ele surgiu de vez. É o que faz meu coração bater.”

Nascido em Santo Ângelo, Schroder nunca imaginou que chegaria ao cargo que ocupa atualmente. Tímido e sem nunca ter aparecido no vídeo, não sabia que as portas se abririam com tanta rapidez justamente na TV. E, com apenas quatro anos de profissão, mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na Rede Globo. Aquele menino simples do Interior, e que, hoje, ocupa um dos cargos mais cobiçados do Jornalismo brasileiro, dá o ar da graça durante a entrevista, fazendo com que, por breves momentos, a função de diretor-geral seja esquecida na conversa com tom de informalidade.

Um gaúcho no Rio

As portas que a RBS abriram para Schroder foram essenciais para ele traçar o caminho profissional que lhe foi apresentado. E, tendo como parâmetro o mapa múndi, percebe-se que ele fez o caminho ascendente: do Sul, mirou o alto e subiu em direção ao Sudeste, instalando-se na Cidade Maravilhosa. Lá, criou família e reside até hoje. Com um breve “hoje, sou separado”, prefere falar daquelas que foram fruto da relação desfeita.

A mais velha, Luisa, com 26 anos, cuida do próprio negócio. Mora sozinha, também na capital carioca, e administra seu atelier de joias, fazendo jus à profissão de designer. Schroder se diverte quando explica que a primogênita vive no mesmo prédio que a caçula, Isadora, que, por sua vez, tem 25 anos e está prestes a se formar em Medicina, a exemplo da mãe. “As duas moram com um piso de diferença, é quase como se fosse o quarto no andar de cima”, ri, ao explicar a proximidade das herdeiras.

Conta que fez questão de dar a melhor educação para a dupla, com direito a experiências no exterior. “Isadora recém voltou de um estágio em Nova Iorque, e Luisa estudou em Portugal”, diz, com aquele típico tom de pai orgulhoso. A iniciativa, acredita, é uma herança do pai Carlos Wilson Schroder, falecido em 2001. “Foi ele que me apresentou a possibilidade de sair de Santo Ângelo e me permitiu ter outras vivências”, recorda, ao mencionar que o incentivo partiu da profissão do pai: professor.

Depois de sair da cidade natal aos 15 anos, e antes de se fixar em Porto Alegre, passou um ano no meio do caminho, em Santa Maria. O pedido – e por que não, exigência? – partiu da mãe Teresinha Schroder, que mora na capital gaúcha, assim como a irmã mais nova, a bióloga Nádia. “Pela minha idade, ela achava que seria mais seguro, por ser mais perto, em caso de qualquer emergência.” E assim, não deixavam de se encontrar um mês sequer. “Ou ela vinha até mim, ou eu ia até ela. Era obrigatório.”

No caminho do sucesso

Na breve experiência que antecede a chegada à RBS TV, quando assumiu para ajudar na implantação do programa Bom Dia Rio Grande, em 1983, teve passagens pela extinta Folha da Tarde. No impresso, deu o primeiro passo na carreira, seguindo para a TVE, contabilizando, então, quatro anos de profissão que precederiam os 33 anos seguintes.

Na Globo, foi chamado quando a organização lançou as estruturas regionais que atuavam para a rede. Foi para trabalhar no Jornal Nacional, assumiu a produção do Jornal Hoje e passou por todos os espaços do Jornalismo da empresa. Em 1989, foi convidado para ser diretor de Produção de Jornalismo em todo o País, conquista que o então menino prodígio alcançou aos 30 anos. Na sequência, foi segundo diretor da área de toda a rede até assumir a diretoria-geral de Jornalismo, cargo que exerceu até 2012. “Aí, me chamaram para ser diretor-geral da Rede Globo”, resume.

Totalmente realizado na profissão, Schroder atribui à sua conquista do Emmy, em 2001, seu maior feito. “É o momento máximo da construção à qual me dediquei. Foi quando pensei: valeu a pena”, fala sobre o reconhecimento. Das mudanças de funções pelas quais passou, costuma dizer que cada troca de cargo representou o encerramento de um ciclo. “Acho que chega sempre uma hora em que a etapa se cumpre e poder abrir espaço para outras pessoas faz parte do processo. É genuíno”, declara, ao trazer para o bate-papo o fato de que a aposentadoria não está fora de cogitação. A dois anos de completar 60 anos, pensa que esta é uma idade interessante.

Estratégia de vida

Sua ausência no vídeo, mesmo com tantos anos de profissão na TV, é facilmente explicada: “Sou estrategista. Minha vida é nos bastidores”. Chegou a ser convidado para atuar como repórter, mas a timidez o fez declinar o convite. “Não tenho perfil para isso”, resume. Tampouco pensou em deixar a carreira, apenas confessa que já repensou o ritmo de trabalho. “Sempre tem os momentos de pressão, que te fazem pensar o estilo de vida que você leva, mas quando jornalista não costuma trocar de profissão, pois o ofício está no sangue.”

Outra forma que encontra para se desconectar do universo laboral é por meio da leitura. Embora se diga defensor da literatura na sua essência, confessa que é inevitável que surjam insights entre uma história e outra. “No momento, estou lendo uma obra sobre a história da Rússia. Mesmo que seja para lazer, pode surgir uma ideia que pode ser levada para o campo do trabalho”, justifica, mas faz questão de enfatizar: “O foco é o lazer”.

Brasileiro até na música, com preferência quase exclusiva para MPB, não especifica artista ou canção, e diz: “sou rato de música”, fazendo alusão à máxima ‘rato de academia’, quando a pessoa é assídua da prática esportiva. Sem conseguir se desvincular do assunto trabalho, emenda sempre uma comparação com o ofício, mesmo quando o tema é vida pessoal. No quesito filmes e séries, embora também assista produções com foco no lazer, a cabeça não desliga e acaba tirando proveito de ideias que surgem nesses momentos.

Fã do espanhol Pedro Almodóvar e do norte-americano Woody Allen, tem inclinação por filmes que estão em voga no cinema. Também gosta de acompanhar produções independentes e de diretores desconhecidos, em busca de novidades e de ficar atento ao que acontece no mundo. No campo gastronômico, é apreciador de vinhos e, com a essência gaúcha, supre a saudade do Sul – para onde viaja no máximo duas vezes ao ano – aos finais de semana na casa de Petrópolis, na serra carioca, na frente da lareira. Com exceção de frutos do mar, que estão banidos do cardápio por ter alergia, não tem restrições e dá destaque ao churrasco, tradição da qual não abre mão.

Dos defeitos, prefere não falar e responde com um animado “vários não reveláveis”. Confessa que é um pouco turrão, mas que já mudou desde a juventude. “Hoje, reconheço que não sabia ouvir, mas aprendi a trabalhar com diálogo”, afirma e já emenda que sua principal qualidade é saber  a grande lição desses anos: saber ouvir.” Os elogios que ouviu na carreira não estão somente no lado esquerdo do peito. E-mails, cartas, mensagens, todos foram impressos e guardados em pastas. “Cada momento está gravado”, garante.

Da infância carrega lembranças da casa dos avós maternos. Italianos, Henrique e Rosa Fasolo faziam questão de ter todos os filhos e netos por perto. “Tínhamos que bater ponto todo dia”, conta, saudoso. A família muito próxima e unida permanece assim até hoje, mesmo com a distância, e acredita que, se não saísse de casa naquela época, não sairia mais.

Sério, porém sem perder a simpatia, dedicou-se inteiramente à entrevista. Mesmo com o celular no colo, não se distraiu em nenhum momento com as chamadas no WhatsApp. Ali, fez questão de ser outro, como o é das 7h às 8h, e pude dizer que, das 16h30 às 17h30, o horário foi só meu.