Notícias de mercado da comunicação do RS.

Home Perfil Neka Machado: Com açúcar e afeto

Neka Machado: Com açúcar e afeto

Mistura de relações-públicas, jornalista, cantora e psicóloga dos que a cercam, ela é uma mãe por onde passa
Compartilhar
,

Divulgação

Por Cinthia Dias

A caçula do fotojornalista Sebastião Bolsoni Machado, que atuou por muitos anos na extinta Companhia Jornalística Caldas Junior, não poderia ter trilhado um caminho distante da Comunicação, quando, ainda na infância, ao lado dos cinco irmãos, circulava pelos corredores do jornal. Aos 56 anos, Neka Machado recorda, com carinho, as lembranças que traz das conversas de Breno Caldas, fundador do veículo, em meio aos colegas de redação, sem frescuras ou mesmo cerimônias. Além de ter o pai como exemplo profissional, que o caracteriza como “incansável”, a convivência com Antoninho Gonzalez, Hamilton Chaves e Pedro Flores a motivou a seguir nesse universo.

Inspirada no patriarca da família Machado, decidiu estudar as três habilitações do curso de Comunicação Social na Famecos, da PUC. Porém, para se diferenciar de Sebastião, deu início à trajetória acadêmica pela graduação de Relações Públicas, na qual pôde desmistificar a máxima de que a profissão se resumia à produção de festas e eventos. “É muito mais estratégico e de relacionamento, além de entender de planejamento e comportamento de públicos”, defende. A inquietude, um traço evidente de sua personalidade, levou-a a segurar o diploma e o canudo em uma mão e, na outra, solicitar o reingresso para Jornalismo.

Nesse período, enquanto se dividia entre sala de aula e mercado de trabalho, atuava como assessora do Sindicato dos Radialistas do Rio Grande do Sul e da Opinião Produtora, e tocava projetos na área cultural e showbusiness. Não bastassem as ocupações, foi convidada, em 1989, para substituir a professora Marta Campos, que ministrava a disciplina ‘Comunicação Comunitária’ na instituição de ensino católica. “O caos estava instalado e, muito por isso, explodiu-me a depressão em 1995. Era manhã, tarde, noite e madrugada. Eu só trocava o pino e me adaptava ao cargo que ocupava em cada turno.”

A entrada na universidade, que era para ser passageira, tornou-se permanente, pois acabou se aventurando no âmbito da pesquisa – com a realização do mestrado e doutorado. Ao todo, já se passaram 29 anos. Com o tempo exercendo a docência, descobriu-se mais como educadora do que como professora em si, que compartilha conteúdos em sala de aula. “Respeito a técnica, mas não creio que o profissional seja feito apenas por ela, ainda mais nos dias de hoje. Tem que ter significado, amor, paixão, garra e ser muito humano, porque o mundo está insuportável.”

Seu filho Eduardo, aos três anos de idade, parou-a na cozinha do apartamento e perguntou-lhe se era mesmo sua mãe. Naquele momento, Neka teve a certeza de que estava trabalhando demais. “Sim, sou tua mãe”, repete a frase que respondeu na ocasião. No dia seguinte, procurou a psiquiatra para rever seus conceitos de trabalho e, aos poucos, deixou as ocupações externas para se dedicar ao ambiente universitário. “Quando me voltei para academia, tinha o desejo – e a ilusão – de que teria uma vida mais regrada, que iria trabalhar nos horários. Que nada, quem é apaixonado pelo que faz não consegue isso. E, quando me vi, estava quase 24h por dia dentro da PUC.”

Poucos, mas grandes amores

Mulher de poucos amores, passou por ter uniões. A primeira foi com Armando Appel, ex-diretor da RBS Rádios de Santa Catarina; a segunda, com Namir Bueno, deu-se por meio dos movimentos sociais; e a última, que resultou no nascimento de Eduardo, com o jornalista e servidor público Rui Porto. Esposo de Neka por 27 anos, que conheceu por intermédio da atuação no movimento sindical, a relação foi interrompida, repentinamente, pela morte do companheiro, decorrente de um câncer. “Quando nós nos vimos, a Luci Andrade, que, hoje, mora no Rio de Janeiro, disse que éramos feitos um para o outro”, conta, e explica que foram se aproximar, casualmente, em uma comemoração após um congresso, onde dançaram juntos.

Dudu, como carinhosamente chama o filho único, mostrou-se diferente dos pais jornalistas ainda aos 13 anos, quando decidiu sair do colégio Marista Champgnat para ir estudar na Escola Técnica Agrícola (ETA), em Viamão. Em respeito ao desejo do pequeno, o casal acatou ao pedido. Entre idas e vindas para Porto Alegre, o jovem foi morar de vez nas terras da família Costa Machado no município viamonense que, atualmente, divide a casa com a namorada e os enteados Anita e João. “Demorei muito para aceitar e entender a vida que meu filho queria levar. Por que seria diferente com ele, visto que eu aconselhava meus alunos a seguirem seus sonhos e desejos?”, questiona-se.

De segunda a sexta-feira, reside em um apartamento pequeno, localizado no coração da Cidade Baixa, na Capital. Aos finais de semana, desloca-se para o sítio para ficar com a família, cozinhar e receber os amigos, que vão desde ex-alunos, atuais colegas de trabalho, até profissionais da Comunicação e da Cultura que teve a oportunidade de conviver. A rotina era assim antes mesmo de Rui falecer. “Sempre convido para irem, é só chegar. Eu gosto de receber. É casa e tenho espaço para acolher.” Na vida urbana ou rural, lê livros de religiões, paganismo e biografias antes de dormir.

Notas e acordes

Poucos de seus colegas de trabalho, entre professores e profissionais de secretaria, saberão quem é Elaine Maria Costa Machado. Menos ainda que esta é Neka. O apelido, que se tornou referência por onde passa, foi dado pela irmã mais velha, cuja diferença de idade é de apenas um ano. Esta questionava a mãe Maria José se a bebê que segurava era uma boneca. A matriarca respondia que era a ‘neneca’. “Por isso Neka.”

Criada por uma família musical, a pequena acordava cedo, tomava o café, ia para o banho e se arrumava. Em seguida, iniciava o show no pátio da casa onde morava, próximo à Riachuelo, para os vizinhos, que lhe jogavam doces e bolachas. Por pouco, não seguiu neste caminho. Certa vez, dentro do Palácio Piratini, pediram para que cantasse e, ao final, lhe propuseram uma produtora. “Em seguida, perdi meu pai, que era o boêmio. Eu murchei”, desabafa.

O gosto pela música lhe acompanha até hoje. Quando não é convidada para cantar à capela em formaturas, pode ser encontrada em algum bar “dando uma palinha” ao lado dos amigos. “É normal eu estar assoviando pelos corredores da Famecos e aqui na sala do Núcleo de Eventos e Relacionamento (NER)”, conta, alegre. Entre os sons favoritos, destaca MPB e os compositores e intérpretes Ângela Maria, Cauby Peixoto, Maria Bethânia e Nelson Gonçalves.

Consultório da mãe Neka

A sala de onde coordena o NER é abarrotada de cartões, cartazes, bibelôs, fotografias, livros e trabalhos de alunos. Um espaço que guarda materialmente o carinho dos amigos, professores e estudantes por ela. O acervo, como chama, tem um pouco de cada pessoa e das turmas que passaram em sua história. Não é à toa que, desde que se assumiu docente, não esteve em, no máximo, cinco mesas de colação de grau – ora paraninfa, ora homenageada. Confessa que, aos poucos, está exercitando a arte da desconstrução. “Fico olhando diferente para esses objetos. Eles me são muito caros e importantes, mas, às vezes, vejo que tem uma validade pontual no presente, no que diz respeito ao material. Não precisa estar exposto porque está aqui dentro [coração]”, fala, com lágrimas nos olhos.

É frequente, entre um passeio e outro, ela escutar ‘Nekinha’ e ‘Mamis’ e ter uma visita inesperada no turno da tarde. “Aqui é o consultório da mãe Neka, onde converso com as pessoas sobre a vida, mudança de profissão, separação, casamento e filhos”, comenta, em relação ao cartaz que fizeram com uma foto sua e uma bola de cristal. Precisou de material para gravação em TV, objetos para compor os sets de Cinema ou mesmo dados históricos? Passa lá no NER. “Sou Bombril: mil e uma utilidades.” Compartilha o dia em que, pega de surpresa, soube que a tinham como referência materna. “Se ser mãe é educar, trabalhar aquilo que é necessário, dar colo, puxar a orelha e, de vez em quando, botar de castigo, sim, sou essa professora/educadora/mãe.”

Em tudo, açúcar e afeto

Azul, rosa, vermelho, laranja, prata, branco e preto. Estas são algumas das cores dos óculos de sua coleção – hoje, com uns 40 modelos diferentes. A paixão pelo acessório veio junto com uma bactéria, que a fez aderi-lo, forçadamente, ao seu vestuário. Como se via queixuda, aboliu os brincos grandes e fez do limão uma limonada. “Se isso vai ficar comigo, vou brincar com esses olhos a mais.” Ao todo, teve mais de 100 na gaveta.

Defeito e qualidade andam lado a lado: a dificuldade de conversar com pessoas que considera burras e a necessidade de se colocar no lugar do outro. “A empatia entra em sintonia com a burrice. Sempre tenho um entendimento do que me falam. Isso me dá uma dimensão de compreensão, maior aderência e transação para transformação.”

Para lidar com a depressão, em 1994, a jornalista se reencontrou na cozinha. Começou cortando temperos, passou a alcançar utensílios e preparou pratos bem elaborados. “A Neka do passado, aquela do excesso de trabalho, não faria isso. Hoje, mesmo cansada, deixo o feijão pronto para meu filho, faço pastéis e bolos.” Os pratos, geralmente, são expostos em sua linha do tempo no Facebook, arrancando suspiros dos seguidores que ambicionam os churrascos, massas e feijoadas das imagens.

A leveza com que conduz suas relações se reflete na forma com que encara sua morte. Quando já tiver partido, a professora deseja uma grande festa, com pessoas conversando e rindo. “E, claro, muita música. Não quero nada de dor, tem que ser prazeroso. Não sofro a ausência do Rui de uma maneira egoísta. Sinto gratidão”, exemplifica. Também é comum ler e ouvir de Neka a clássica combinação entre “Açúcar e afeto”, trecho da música homônima de Chico Buarque. Para ela, a vida precisa ser desta maneira, mesmo nos momentos de tristeza.