Ibsen Pinheiro: Ibsen e a vocação para contar histórias

História é o que não falta. A cada assunto, um fato inusitado para contar, seja sobre amigos, futebol, família ou viagens

Ibsen Pinheiro - Reprodução

História é o que não falta. A cada assunto, um fato inusitado para contar, seja sobre amigos, futebol, família ou viagens. Ibsen Valls Pinheiro é um nato contador de histórias. De origem catalã por parte de mãe e espanhol pelo pai, demonstra um encantamento pela arte de comunicar. Aos 66 anos, leva uma vida bastante agitada, muito longe da monotonia. Trabalha em torno de 14 horas diárias, à frente do comando da Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estado. Cumpre uma extensa agenda, que com freqüência se estende até à noite. Mas, para ele, a exigente função executiva não é cansativa, pelo contrário, "quem corre por gosto não cansa", relembra um velho ditado popular repetido muitas vezes por sua mãe. "No dia em que assumi como vereador de Porto Alegre, em 1976, um amigo, o Hamilton Chaves, num abraço na hora da diplomação me disse: 'Ibsen, tu conseguiste um milagre, transformaste os teus hobbies em meio de vida: o esporte, a comunicação e a política", recorda Ibsen.

As paixões do colorado

Três paixões regem a vida de Ibsen Pinheiro: esporte, política e jornalismo. "É incrível que estas três paixões, que surgiram na infância e na adolescência, continuaram por toda vida", ressalta. Desde criança, quando ainda morava em São Borja, já torcia para o Internacional. "Quando pequeno, eu era Internacional de São Borja, depois torcia para o Internacional de Santa Maria, depois para o de Lajes, o de Porto Alegre e, por último, para International, que é uma marca de caminhão", brinca para mostrar o quanto se identifica com o time Colorado. Apesar da grande paixão pelo futebol, logo Ibsen percebeu que não tinha intimidade com a bola. "Meu amor não foi correspondido", lastima. No entanto, percebeu mais tarde que tinha vocação para explicar as artimanhas do futebol.

Aos 15 anos, havia tido uma experiência no jornalismo, no colégio Júlio de Castilhos, onde escrevia sobre política no jornal 'A Tribuna', iniciando suas atividades nos ramos da política e do jornalismo. Mais tarde desenvolveu a relação com o futebol através da explicação, tornando-se comentarista esportivo, depois dirigente de clube. Nos últimos anos, especialmente depois da perda do seu mandato, foi talvez o único momento atípico da sua vida em que não esteve fazendo as três coisas juntas, mas aos poucos retomou cada uma delas, mesmo que não em igual intensidade. Agora, fazendo política na área de Comunicação, puxou o freio do futebol: é somente um torcedor, não está na militância.

No recanto do lar

Ibsen é uma pessoa caseira. Gosta de estar no recanto do lar lendo e assistindo à televisão, aliás duas atividades que costuma realizar concomitantemente. "Gosto de ler na frente da TV, dividindo a atenção entre os programas e o livro", explica. Considera-se um apreciador dos programas televisivos de informação, filmes e, é claro, de esporte. Também define-se "um leitor voraz". Lê todos os jornais de Porto Alegre e revistas de todos os estilos. Por exemplo, em cima da sua mesa de trabalho estavam os principais jornais do país e sobre eles uma revista Caras, prova de que é eclético em relação à leitura. No momento, divide seu tempo para a leitura dos livros "Cem discursos históricos" e um estudo sobre Melanie Klein. Ibsen também gosta de ver filmes. Não curte muito ir ao cinema porque acha que hoje as salas não oferecem segurança adequada. Também é eclético em relação a filmes. Entre suas preferências estão desde Cidadão Kane até Máquina Mortífera.

Outro hobby é escutar música, sempre que está em casa se não estiver com a TV ligada, o som está. Gosta de MPB, adora a qualidade do cantor Caetano Veloso, mas não admira o compositor Caetano; assim como gosta de Roberto Carlos como cantor e não como compositor. Ainda cita as cantoras Gal Costa, Simone, Elis Regina e Elizete Cardoso como suas preferidas. "Gosto tanto de música que acho até que eu merecia tocar um instrumento e cantar bem, mas infelizmente eu desafino e só toco rádio", brinca. A habilidade de Ibsen é mesmo a de comunicar, pois nem para a culinária se considera hábil, mas ligeiro ressalta "exceto churrasco", pois acredita ser um bom churrasqueiro. "Gosto tanto de churrasco que às vezes faço só para mim, é comum fazer um foguinho estreito para uma costela, que só eu vou degustar", conta. Também gosta muito de saladas, dizendo ser um "devorador" deste prato.

Controla a alimentação para o seu bem-estar, mas não consegue fazer exercícios, porque acha chato, às vezes pratica esteira. "Tinha que caminhar mais, mas eu sempre invento um pretexto, por exemplo, falo que moro numa região (bairro Petrópolis) que para qualquer lado que eu vá eu tenho que descer, e como faço para subir depois, então não vou", revela.

Futebol e bate-papo

Quando sai de casa, é para ir ao futebol e encontrar os amigos. "Acompanho todos os jogos que posso e eu só vou ao Beira-Rio, os do Grêmio assisto pela TV", diz. Costuma se encontrar com os amigos no futebol, quando pratica outra de suas paixões: conversar. "Eu acho que conviver com as pessoas é uma atividade fascinante. Esses tempos encontrei com um amigo, o Damasceno, no shopping, há 25 anos que nós não nos víamos, conversamos e chegamos à conclusão que não nos veríamos mais porque não teríamos mais 25 anos para nos vermos", mais uma vez ilustra a conversa com uma de suas tantas histórias.

Encontros com amigos são sempre bem-vindos para ele. Ibsen gosta mesmo é de conversar, seja com os companheiros ou com os familiares, seja em casa, no shopping ou na rua. No trabalho, gosta de reencontrar velhos amigos e fazer novos. A sua sala no Palácio Piratini tem ambientes para diferentes ocasiões, desde os bate-papos em poltronas mais confortáveis, até os espaços para encontros formais. Costuma ligar para os companheiros e marcar encontros, cita o restaurante Barranco como um local habitual para conversar. "Sou um amigo e conversador militante, não deixo a coisa no espontaneísmo, cuido para que aconteçam esses momentos de convivência", ressalta.

Conhecedor de países de todos os continentes, tem muito encanto em descobrir lugares novos, mas destaca que o mais importante do que conhecer lugares, é conhecer pessoas. Então, gosta de visitar lugares em que pode se comunicar satisfatoriamente, onde possa falar inglês, espanhol e francês. Para ele, as quatro cidades mais lindas do mundo são Rio de Janeiro, Hong Kong, Istambul e Sidney. E o povo mais parecido com o brasileiro é o italiano, porque acha o brasileiro sério para fazer as coisas, não gosta que falem com desprezo do Brasil, ao mesmo tempo acredita que povo daqui é bem-humorado, assim como os italianos.

O plano é não parar

Ibsen Pinheiro é casado há 37 anos e tem um filho também jornalista, o Márcio, que ao ser questionado pelo pai do porquê de escolher jornalismo respondeu: "porque jornalista é uma espécie que se reproduz em cativeiro". Ibsen é advogado por formação, exerceu o Direito durante 20 anos. Chegou ao topo da carreira de promotor, sendo procurador de Justiça pelo Estado. Hoje é procurador inativo. Apesar de estar aposentado, descansar por enquanto não está nos planos. Seu principal objetivo no momento "é ajudar o governador Rigotto a fazer um bom governo e comunicar isso aos gaúchos".

Conta que não tem planos pessoais, mas a esperança de viver bastante e com a cabeça lúcida. "Nada me assusta mais do que a demência senil. E para isso acho que pensar, usar a cabeça, trabalhar, ter curiosidade, querer coisas novas, são formas de preservar a mente sã. Acreditar nas coisas é mais importante que acertar", sintetiza. Para ele, parar de trabalhar e ter uma vida calma e mansa é uma fantasia. Conta que viver num sítio ou numa fazenda seria insuportável no segundo ou terceiro dia, "isso me daria estresse, porque eu sou uma figura urbana, lazer para mim é o restaurante, é o shopping, é o futebol é a conversa na esquina, é a viagem para centros urbanos, eu sou um produto urbano", conclui.

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