José Mazzarollo: Trabalho e família

Diretor da gráfica Comunicação Impressa, ele leva a vida de forma simples e muito espiritual

Divulgação/Coletiva.net

O brilho nos olhos não deixa disfarçar o orgulho ao falar da "filha" mais velha: a gráfica Comunicação Impressa, fundada há 40 anos em Porto Alegre. José Mazzarollo, um dos fundadores e atualmente único dono, abre um sorriso ao caminhar pelas máquinas e mostrar o trabalho operando a todo vapor. Aos 63 anos, ele conta, saudoso, sobre a infância em Veranópolis, no interior do Rio Grande do Sul, onde nasceu. Filho de Avelino e Catarina (ambos in memorian), é um dos 14 descendentes da família e conta feliz que a amizade entre os irmãos, 13 ainda vivos, contando ele, permanece até hoje. "A gente sempre compartilhou tudo, então, isso criou um vínculo muito forte entre nós, que não se desfaz", diz ele.

O pai, que tem uma rua batizada em seu nome na cidade de nascença, sempre foi muito pé no chão, rígido - tendo 14 bocas para alimentar, sabia que não podia alargar muito o passo. Uma lembrança que enche Mazzarollo de felicidade é ter ouvido dois desconhecidos elogiando a índole do patriarca. A integridade, inclusive, é uma virtude que buscou transmitir aos três filhos, José Lucas, de 28 anos; Paula Cristina, 25; e Paulo André, de 23, e defende que esse é um dos valores que são mais importantes do que conquistas econômicas.

Dona Catarina sempre foi muito cuidadosa e não se deixava relaxar, mesmo com tantos filhos. Mazzarollo recorda que muitas vezes viu a mãe acordar de madrugada para atender a alguém. A característica que sempre admirou na mãe é também a que o faz falar com carinho da esposa, Silvia, primeira e única, com quem é casado há 30 anos e diz que, se Deus quiser, será a mesma até o fim. Quando perguntado sobre a profissão de Silvia, não hesita em responder: "Ela é mãe, esse é o trabalho dela e ela ama, é muito dedicada, é um trabalho em tempo integral, ela tem uma paixão muito grande pelos filhos".

Espiritualidade

Descendente de italianos e de cultura católica, Mazzarollo brinca que aprendeu primeiro a rezar do que a falar, e que a língua italiana veio ainda antes da portuguesa. Atualmente, faz parte da Congregação Mensagem da Cruz, denominada uma religião apostólica, que busca resgatar as significações essenciais da igreja, sem interesses políticos ou econômicos. Um homem de muita fé e que fala com propriedade sobre suas crenças também propõe diariamente na empresa um momento de oração, das 11h45 às 12h. É livre, os funcionários participam se sentirem vontade, mas ele não abre mão.

Além de comandar a Comunicação Impressa, o industrial gráfico é também vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica Regional do Rio Grande do Sul (Abigraf RS) e conselheiro na gestão nacional. No 17º Congresso Brasileiro da Indústria Gráfica (Congraf), que aconteceu neste ano, em Porto Alegre, Mazzarollo comenta que teve a oportunidade de realizar uma ação diferente. "Fui convidado para fazer uma abertura espiritual, algo que pode até parecer estranho para algumas pessoas, mas pude compartilhar uma mensagem de fé para meus colegas e a ideia foi muito bem recebida", diz ele.

Até para se decidir pela profissão de gráfico, enfatiza que foi o destino de Deus que o colocou neste caminho. Dos 12 aos 15 anos de idade, ainda em Veranópolis, esteve em um seminário católico. Conta que, na época, acreditava-se que o filho padre garantiria a salvação dos pais. Sendo assim, ele e os irmãos foram estudar a fé de forma mais profunda, dois, inclusive, seguiram a vocação e são padres até hoje. Aos 20 anos, depois de passar por algumas cidades gaúchas, Mazzarollo veio para Porto Alegre para estudar. Começou a faculdade de Química, mas logo conseguiu emprego na extinta gráfica Grafosul e a trajetória passou a inclinar para outro lado. Percebendo que sua carreira teria mais futuro na área, trocou de curso para Administração e se formou na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). 

Homem do campo

O primeiro trabalho de Mazzarollo foi ainda na infância. Criado no meio rural, era comum labutar desde muito cedo. Cada época do ano tinha sua atividade, mas cuidar do gado, limpar a estrebaria, alimentar os animais eram atividades sagradas. O gosto pela terra nunca foi embora, tanto que até hoje cria gado, cavalos, galinhas, tem plantações e aproveita o tempo livre com a família no sítio em Viamão.

O empresário lida nas duas frentes com naturalidade. Ao iniciar a conversa, foi interrompido por uma ligação para falar do gado - é seu hobby favorito reunir todo mundo para curtir os encantos do campo. A aposentadoria já foi postergada. Até pensa em parar de trabalhar na gráfica, mas acha que daqui a 10 anos, quando perguntarem de novo, ele vai adiar por mais um tempo. "Gosto de trabalhar, a atividade nos mantém vivos, não vejo a possibilidade de parar, nem que eu continue trabalhando só no sítio", afirma ele.

Um armário com roupas chama atenção no escritório de Mazzarollo. Bastante ocupado, ele conta que tem pelo menos três moradias: o apartamento em Porto Alegre, a gráfica e o sítio. Mantém todos com roupas e outros objetos que ele precise para não correr o risco de ficar sem. Além disso, cultiva o hábito de correr ou caminhar no parque da Redenção, no intervalo de almoço. Na volta, toma banho na empresa mesmo e segue a rotina, que se estende até perto das 18h.

Fazer mais do que falar

Prático, Mazzarollo prefere descartar reuniões e mais reuniões, conduta habitual de chefias, e colocar a mão na massa. Indica, inclusive, que seu principal defeito é que não gosta de esperar pra nada, nem de deixar ninguém esperando. Diz que até em trabalhos que poderiam sair melhores amanhã, prefere ver prontos hoje. Não gosta de discursos públicos, prefere fazer do que falar. Bastante exigente, acredita que o traço pode ter sido um dos motivos que levou ao fim a sociedade que tinha com outros três empresários na primeira empresa da qual foi dono, a Gráfica Mar, que, depois, deu origem à atual Comunicação Impressa.

"Começamos em uma garagem pequena, na avenida Cristóvão Colombo, mal tínhamos como pagar o aluguel. Conversei com meus sócios e falei que ou investíamos, comprávamos maquinários e arrumávamos clientes, ou teríamos que fechar. Não houve concordância e ficamos em apenas dois sócios", diz ele. Algum tempo depois, Mazzarollo percebeu que precisaria expandir as operações, pediu empréstimos, a ajuda de uma das irmãs para assinar como avalista e comprou uma máquina. Começou a procurar outro lugar para a já Comunicação Impressa e também bateu na discordância quando sugeriu a avenida Voluntários da Pátria, no Centro da Capital. A partir daí, decidiu que seguiria sozinho, comprou o prédio no endereço onde ainda estão e o negócio nunca mais parou.

Apesar do apreço pelo trabalho e a alegria de ter clientes fiéis desde a fundação da gráfica, não se enxerga como um homem muito ambicioso. Vê com certa frieza o ato de alimentar muitos sonhos, pois diz que, ao passar dos 50 anos, percebe-se que, mesmo tendo saúde, o tempo que passou é mais longo do que o que ainda falta. Tem desejos, gosta de viver, mas se empenha mesmo é em estabelecer relações mais humanas do que econômicas. Não almeja cargos, títulos, até prefere o anonimato. Não é um conformado, mas se sente realizado e feliz com a trajetória que tem feito.

Admiração

O laço forte com os pais foi passado de geração para geração. Se alegra em dizer que mantém uma ótima relação com os filhos, que trabalham com ele na Comunicação Impressa. "Eles têm um respeito muito grande por mim, eu diria que quase exagerado. Eu discordava do meu pai em algumas coisas, mas eles são o contrário, têm uma aprovação muito grande a tudo que faço. O mais novo até é mais palpiteiro, jovem, quer gastar, gastar, mas eu sempre digo que primeiro tem que aprender a ganhar pra depois aprender a gastar", destaca ele.

Uma das atitudes que o ensinou princípios como esse foi a do falecido frei Rovílio Costa. Também escritor, foi um dos primeiros a ajudá-lo e o guarda como uma referência. Fez empréstimos para que Mazzarollo pudesse iniciar a carreira e permitia o pagamento com a impressão de seus livros, fato que o empresário conta ter facilitado muito seu começo de vida profissional.

A união que trouxe da família e as boas relações que construiu ao longo da vida se intensificaram com a chegada do neto. Agora, diz-se um pai melhorado, porque, com mais estabilidade e experiência, pode curtir o pequeno Davi sem preocupações. Gosta de preservar hábitos como o de fazer as refeições juntos, sem a presença de celulares, e dividir os momentos. Valoriza como virtudes o ser trabalhador, correto, cumprir suas promessas e ser transparente. "O José é uma pessoa como as demais. Vive, saboreia a vida, tem uma vida material com todo o zelo, mas também alimenta uma espiritualidade que é diferente de muitas pessoas de nossos dias", diz, ao tentar definir-se, salientando que essa é a pergunta mais difícil de se responder.

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