Marino Boeira: Do verbo viver

Jornalista, publicitário e professor de História, ele busca viajar para viver intensamente

Marino Boeira - Patrícia Lapuente

Por Patrícia Lapuente

Depois de exercer três profissões - jornalista, publicitário e professor de História - e trabalhar em diversas áreas, Marino Boeira, aos 78 anos, ainda não se sente realizado. "Se assim fosse, já estaria morto", diz, enfático, e completa: "Sempre estou na expectativa de que surja algo". Sobre o lema de vida, é incisivo: viver. Para aplicá-lo, o colunista de Coletiva.net já viajou por quase todos os países que desejava conhecer e pretende visitar os que restam, como deve acontecer em janeiro, ao lado do filho do segundo casamento, Conrado, estudante de Engenharia e Ciências da Computação. A dupla desembarcará na terra da revolução que imortalizou Che Guevara: Cuba.

A paixão por conhecer novas fronteiras começou cedo, quando Marino realizou o sonho de tantos jovens porto-alegrenses da época: chegar à Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro. Outra viagem que o marcou foi Paris, devido a todos os livros que leu e filmes que viu sobre a Cidade Luz, além das influências históricas que por ali passaram. "Minha expectativa é aproveitar mais alguns anos viajando e conhecendo lugares, como China e Índia. Gosto muito de viajar, guardava dinheiro todo o ano para as férias", conta. Apesar de ter conhecido a Rússia e a Turquia há pouco, Berlim é a cidade que mais chamou sua atenção e foi eleita, por ele, como o lugar ideal para viver.

Difícil para quem não possui mais carga horária comercial desassociar a rotina de horas de lazer. "Meu dia a dia é de um aposentado comum: leio, vou ao cinema, saio com os meus amigos..." Ele relata ainda que não tem mais obrigação de tempo, em contrapartida ao passado: tinha três ou quatro empregos e vivia correndo de um lado para o outro. "Minha rotina é não ter rotina", resume.

Colorado, acompanhava todos os jogos do Internacional pela televisão e, também, os do rival "para secar", conforme diz, enquanto ri falando que não está dando muito certo no momento. Porém, apesar de ser um torcedor assíduo, não vai mais ao Estádio como anteriormente.

Após dois casamentos e três filhos - além de Conrado, tem, do primeiro matrimônio, Alexandre, juiz em Novo Hamburgo, e Tatiana, defensora pública -, hoje mora sozinho e cozinha algo básico, como peixe, somente como pretexto para reunir amigos e família. De acordo com ele, não possui ouvido para música e relembra que um professor do colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, o chamava a atenção por isso. Mas, ainda assim, conta que escuta Música Popular Brasileira (MPB).

Anteriormente com predileção por romances, nos últimos tempos são as biografias de políticos que têm chamado a atenção. Como livro de cabeceira, cita o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 1937, Les Thibault, de Roger Martin du Gard.

Inquietação

Apesar de contar que não sabe se definir, ele diz: "Uma amiga me disse que eu sou uma mente aberta às coisas novas e acho que ela tem razão". O mesmo vale para uma qualidade, porém, acredita ser uma pessoa muito leal aos seus amigos. Já em relação ao maior defeito, é enfático: "Sou um provocador nato. É aquela velha história: perco o amigo, mas não a piada", conta, mesmo admitindo que, às vezes, exagera nesse âmbito.

Ao iniciar as lembranças marcantes da infância, Boeira logo rememora o inverno de 1942, em Farroupilha, recordando da imagem das pessoas com as mãos pretas, que eram luvas, carregando blocos de neve. "Uma vez fui mexer, acabei sentindo muito frio e comecei a chorar, e, então, meu pai me levou para a casa e as aqueceu em uma bacia com água quente", resgata.  Ele conta também que essa é a lembrança mais antiga da vida. "As pessoas até não acreditam quando eu digo, pois eu deveria ter dois anos pelo período", ressalta.

Convívio com grandes nomes

Sócio do Clube do Cinema, quando tinha 18 anos, Boeira teve uma boa formação da área por conta do convívio com Hélio Nascimento e Paulo Fontoura Gastal - sempre ficava de olho nas listas que forneciam com filmes e diretores. Hoje, assiste mais aos que interessam, como o cinema argentino, "que está muito bom". Apesar de prestigiar todos os gêneros, do Faroeste ao de Investigação, possui predileção pelo antigo, como 'Aquele que deve morrer', de Jules Dassin. "É meu filme de cabeceira, vamos dizer assim", diz. E completa: "O importante é ser bom".

Não foi só o Clube do Cinema que o ajudou a conhecer nomes importantes do cenário porto-alegrense. Ao som da música de Paulinho da Viola, que diz "... não sou eu que me navego, é o mar", Marino entende que "não é ele que se organiza, é a vida".

Houve um tempo em que o point de Porto Alegre era a Rua dos Andradas, também conhecida como Rua da Praia, e ele se reunia todas as noites, principalmente, no Largo dos Medeiros, para conversar sobre futebol, literatura, cinema e política. "O grupo que eu encontrava ali era formado, basicamente, por pessoas ligadas ao Jornalismo - o que não tinha nada a ver comigo", relembra aquele que pensava em cursar Medicina. Dentre seus amigos de boemia estavam o Ibsen Pinheiro, o Werner Becker e o próprio Hélio Nascimento.

A chegada da Comunicação

Determinado a seguir na área da saúde, rememora que alguém lhe disse que estava abrindo uma sucursal do jornal Última Hora, e lhe perguntou se não queria trabalhar lá, ao que respondeu que nunca tinha pensado nisso, apesar dos elogios à intimidade com a escrita. Assim, foi trabalhar no veículo e nunca mais largaria a Comunicação.

Com passagens pela Rádio Gaúcha, Revista Manchete e Jornal do Comércio, foi na TV Piratini que exerceu um dos cargos mais importantes da época: redator do Repórter Esso. "A gente achava que fazia uma oposição ao sistema e gostava de tentar passar umas mensagens subliminares, que eu acho que ninguém entendia", admite. Marino ainda foi diretor da FM Cultura durante o governo de Alceu Collares (1991-1995), quando criou um programa de debates políticos. "Foi um período muito importante, pois era muito bom ouvirem ideias e as pessoas podendo considerar e discutir", pontua.

Mesmo atuando em Jornalismo por muito tempo, foi na História que se graduou alguns anos após estar no mercado da informação. Após se formar, Marino passou em um concurso para o Estado e, durante muitos anos, trabalhou em jornal e televisão e dava aula, tudo ao mesmo tempo. Além disso, na Famecos, lecionou por 35 anos e mais alguns na Unisinos.

"Um dia, o Flávio Corrêa - o Faveco - me chamou para trabalhar em uma agência de publicidade que ele tinha criado, pois eu iria ganhar mais", relata. Foi assim que migrou do Jornalismo à Publicidade. Nessa área, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo, empresas que foram, por muitos anos, referência no Estado.

Novos desafios

Multifacetado, considera o maior desafio ter publicado algumas obras. É autor dos livros 'Raul', 'Crime na Madrugada', 'De Quatro', 'Tudo que você NÃO deve fazer para ganhar dinheiro na Propaganda' e 'Tudo Começou em 1964', que tem formato de e-book. Para o futuro, pretende lançar no papel sua última produção, mas admite que "teria que mudar algumas coisas", pois está há um tempo só olhando para ele. Atualmente, além de contribuir semanalmente como colunista de Coletiva.net, possui um blog no portal Sul21 e foi convidado para escrever a versão digital, em português, do Pravda, jornal do Partido Comunista Russo.

Como inspirações, ele acompanha muito a coluna de Jânio de Freitas e admira a qualidade do texto de Luis Fernando Verissimo. "Além do Millôr Fernandes, e do Flávio Tavares, que é meu amigo, e por tudo o que aconteceu com ele, e se tornou uma referência de integridade e honestidade intelectual", revela. Porém, conta que na Publicidade nunca teve um ídolo, pois sempre houve muita diferença entre ele e as pessoas que fizeram nome. "Talvez até um pouco de inveja", reflete.

Apesar do momento de maior satisfação de sua carreira ter sido escolhido para participar de festivais de Cinema Publicitário, em 1986, em Cannes, entre as três profissões, foi o Jornalismo que ganhou seu coração. "Era, seguramente, a área que me interessava mais."

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