Revista Voto: Feita de relacionamento e inovação

Se reinventar sempre que for preciso: essa é a receita de sucesso da publicação gaúcha que ganhou o Brasil

Sede da revista Voto - Divulgação/Coletiva.net

Sorriso largo, brilho nos olhos e carisma que transborda. É assim que a diretora da revista Voto, Karim Miskulin, recebe a reportagem de Coletiva.net para contar os bastidores da publicação que está no mercado há 14 anos. Poucos minutos de conversa e ela logo abre o jogo: "A Voto tem toda uma roupagem elegante, densa e conservadora, mas a essência de inovação respinga no design e nas pautas, e fica mais latente ainda nos eventos e nas redes sociais".

Ou seja, o veículo não se faz apenas a partir da versão impressa, pois há grande investimento nos meios digitais, projetos especiais, eventos diferenciados, e tudo isso recheado de relacionamento. Não estamos falando dos políticos que volta e meia são entrevistados ou convidados para palestrar em algum encontro promovido pela empresa. Trata-se de cuidar dos seus parceiros e fornecedores, anunciantes e equipe interna.

Hoje, a revista Voto é feita de muitas pontas, e elas precisam estar constantemente conectadas: fomentar, educar e informar o mercado, "sempre com um pé na política e outro na iniciativa privada", como explica Karim. Para isso, o veículo foi dividido em três principais agentes: a revista impressa, produzida pela Critério Inteligência em Conteúdo; a área Digital, comandada pela jornalista Rosane Frigeri - que já não fica mais full time na empresa; e o operacional, atuando na sede. Localizada no nono andar de um prédio na avenida Carlos Gomes, é lá que ficam as áreas administrativa, financeira, eventos, jurídica e comercial.

Dois em um

Para Karim, a história da revista pode ser dividida em dois momentos: antes e depois da ascensão das redes sociais. Até meados de 2016, a publicação era apenas impressa e mensal, mas há dois anos se assumiu, praticamente, como dois veículos distintos. "Na explosão das mídias digitais, começamos a sentir o peso da internet, que é quando te empurram a decidir se tu entras nessa onda de forma ativa e profissional, ou fica fora do mercado", explica a diretora, que optou por ficar com o primeiro cenário.

Em um processo que se iniciou dois anos antes, a transformação atingiu, por exemplo, a periodicidade da impressa, que passou a ser bimestral. Além disso, ela e o conteúdo digital começaram a ser trabalhados de forma independente, ainda que, até hoje, respeitem uma mesma linha filosófica e editorial. "Entendemos que são coisas bem diferentes, com seus públicos, seus anunciantes e suas necessidades", resume Karim.

Não foi uma mudança fácil, é verdade, até porque a Voto tem um perfil de leitor mais conservador, mas a escolha foi por "correr o risco". O interessante do processo é que isso tudo aconteceu exatamente num período no qual as pessoas começaram a se interessar mais por política e procurar mais informações sobre o tema. Nessa mesma época, surgiu no meio online uma infinidade de blogueiros, formadores de opinião e etc, mas, de acordo com a diretora, ficou de pé quem tem credibilidade e faz um trabalho sério.

Onde a notícia acontece

E nessa onda digital - e conquistando maiores proporções nacionais - a revista Voto ganhou ares mais modernos e, principalmente, dinâmicos. Há sete anos no veículo e há quatro como editora de Conteúdo Digital, Rosane Frigeri foi quem mais motivou a mudança, assumindo de vez e full time o site e os perfis em Facebook, Twitter e Instagram. Esse conteúdo multiplataforma foi o que tirou a jornalista de dentro da redação e permitiu que ela esteja onde a notícia acontece, ou seja, em qualquer lugar. Na primeira visita do portal à sede da empresa, por exemplo, ela estava na Argentina, acompanhando um evento sobre mercado ilegal.

Segundo Karim, o Twitter é o maior propulsor da presença nacional da revista e, em sua opinião, é o canal do qual os jornalistas tomaram conta. "Estar onde a notícia acontece faz toda a diferença para nós", comemora a diretora. Atualmente, a rede de microblogs da Voto está com mais de 30 mil seguidores e visualizações que ultrapassaram o número de 100 mil, como foi na ocasião do julgamento do ex-presidente Lula no TRF4, em janeiro deste ao, e, depois, quando da sua prisão.

Para Rosane, trabalhar na Voto é sempre um grande desafio, especialmente porque o período conturbado da política brasileira dos últimos anos coincidiu com o crescimento das redes sociais da empresa. E isso tudo a faz considerar que, no Jornalismo, não há rotina e é sempre um aprendizado diário. "Como em todas as profissões em que as pessoas fazem o que gostam, há momentos de preocupações e outros de muita alegria. É assim aqui: às vezes nos angustiamos à espera de resultados, ou comemoramos quando um projeto dá certo e é um sucesso", conta a jornalista. Particularmente, Rosane recorda o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o qual cobriu diretamente de Brasília. Segundo ela, foram dias de muito trabalho e ótimos resultados tanto para a revista como para ela, pessoalmente. "Foi um grande momento", resume.

Analítico e factual

Enquanto nas redes sociais a notícia é permanente e factual, a versão impressa da Voto se concentra em oferecer conteúdos aprofundados, analíticos e devidamente planejados. Desde o início do ano, a Critério é quem assina as matérias e a diagramação do título, sempre em sintonia com Karim, que faz questão de acompanhar tudo de perto.

Ela explica que uma grande reunião anual é realizada para definir temas, capas e entrevistas do ano, como é o caso de 2018, marcado pelas Eleições. Conforme os fatos vão surgindo, o planejamento é atualizado mensalmente, unindo, não raro, as duas áreas - impressa e digital -, de acordo com a abrangência e importância da pauta. Nesses encontros, todos os envolvidos propõem matérias, abordagens, fontes e tudo o que envolve o desenvolvimento das pautas.

Para os sócios da empresa de comunicação, ter assumido a coordenação editorial é, ao mesmo tempo, uma honra e uma grande responsabilidade. "Temos o desafio de transpor às reportagens, análises e colunas uma linha consolidada em 14 anos de trajetória - e que evolui de acordo com os desafios e os episódios da política e da economia no Brasil", diz a diretora Soraia Hanna. Segundo ela, ainda que o perfil seja de aprofundamento, com assuntos definidos com antecedência, muitas vezes os acontecimentos se sobrepõem e a estratégia precisa ser revista.

Foi assim na última edição, quando a prisão do ex-presidente Lula ocorreu enquanto fechavam o arquivo para impressão. Em poucos dias, mudaram a reportagem de capa para relatar o episódio histórico do País. "Queremos continuar nesse caminho de evolução, aumentando sua inserção em todo o Brasil. A recente reformulação do projeto gráfico já aponta para isso. Seguimos em frente, buscando construir, a cada edição, uma revista ainda mais consistente e relevante", garante Soraia.

Tudo junto e misturado

O fato de os agentes das versões impressa ou digital não atuarem in loco não faz da Voto uma empresa parada ou devagar, pois a rotina é corrida e quem entra na equipe sabe que vai fazer um pouco de tudo. Para mobilizar todo mundo, os desafios vêm das próprias pautas diferenciadas, que carregam a missão de falar de política sem ser chato, e humanizar os temas por meio dos eventos. "Buscamos sempre trazer inovação e modernidade, provocando reflexões", avalia Karim.

Para tudo sair alinhado e homogêneo, ela tem ao seu lado um trio de mulheres que faz acontecer. Enquanto Shanasys Ferreira coordena as áreas administrativa e financeira, Laura Regenin responde pelos Eventos e a secretária-executiva Nathália Costa garante a agenda da equipe, o mailing dos eventos e todos os cuidados com a sede física. "A equipe interna não faz apenas uma curadoria de conteúdo, todos acabam se envolvendo e colaborando, trazendo ideias. Até nossos clientes sugerem pautas e fontes. E isso é muito enriquecedor", exalta Karim.

Shai, como é chamada pelos colegas, diz que não existe "cada um fazer o seu trabalho", pois esse precisa ser integrado, tornando todo mundo essencial. "Temos que nos ajudar, pois precisamos de tudo muito bem organizado, para evitar qualquer tipo de erro, até pelo nosso público", avalia. Laura, por sua vez, entende que, por ser uma empresa pequena, a regra de ouro é colaborar mesmo: "É assim que a gente cresce, com experiências completas".

O projeto Brasil de Ideias é o carro-chefe e acontece, pelo menos, uma vez ao mês e não apenas em Porto Alegre - já teve edições no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tem, ainda, o Café com Política, que é um encontro com, no máximo, 12 pessoas, na sede da empresa, além de projetos especiais. Ou seja, não faltam eventos para envolver todo mundo com a máxima dedicação. O trabalho de cada uma é revisado diversas vezes entre elas, sem contar que precisam sempre ter planos A, B, C, D, afinal, já aconteceu de palestrante cancelar a presença na véspera, ou confirmar apenas três dias antes. "É tenso, mas a gente faz acontecer", garante Laura, que é corroborada por Nathália: "Quando o evento é muito grande, a gente chega a sonhar com os convidados, mas ver o resultado e a repercussão é sempre a melhor parte, é gratificante".

Gastar sola de sapato

Conduzir a Voto é quase um trabalho de costura - tem ainda colunistas e correspondentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte -, mas que resulta em consistência e credibilidade. Para chegar aqui, Karim não esquece a origem, quando trabalhava praticamente na base de parceria e muita gente acreditou em apenas um projeto, um sonho. Aliás, existe colunista e fornecedor que está do seu lado desde o lançamento, em 2004, na chamada edição número zero. "Adoro perceber isso e valorizo as parcerias de longa data", comemora.

"Todas as mudanças e investimentos que fizemos até hoje só foram possíveis por causa dos nossos parceiros. É essa inquietude que faz a revista romper obstáculos e crescer sempre", avalia a diretora. E a agitação, além de ser uma característica pessoal de Karim - que ela acredita passar para sua equipe -, vem de uma certeza: não dá para fazer uma reunião semanal sem que alguém traga uma ideia diferente! Afinal, no seu entendimento, todos têm o poder de influenciar.

Zona de conforto é uma expressão proibida na vida da diretora e que ela faz questão de levar para dentro da revista. Tanto que diz, com frequência, que onde menos a equipe deve estar é dentro da empresa. "Quanto mais vazia estiver a sede, mais feliz eu ficarei. Precisamos gastar sola de sapato também, estar atentos aos anseios da sociedade. Nossa missão é provocar reflexões e desconfortos."

 

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