As manchetes de Bolsonaro: vamos fazer uma autocrítica?

Por Kyane Sutelo, para Coletiva.net

Bolsonaro está pautando a mídia. Algo normal se tratando de um chefe de Estado. Bom, talvez não, visto que muitas dessas notícias não são sobre ações de governo. Sim, o presidente da República, com sua figura canastrona daquele tio que faz comentários inconvenientes no almoço de domingo, tem em suas frases polêmicas um espaço relevante nas manchetes. 

Aí, chego ao ponto delicado sobre o qual proponho a reflexão: o quanto nós, como imprensa, estamos sendo replicadores de declarações, pensando que estamos informando a sociedade? De antemão, confesso que não tenho a resposta. Mas, durante uma conversa com colegas, em mais uma das tantas tardes em que um pronunciamento do presidente rendeu três ou quatros manchetes a todos os principais veículos da mídia, esse questionamento me surgiu.

Costumamos nos guiar pelos famosos valores-notícia, e as ações e falas do presidente brasileiro certamente se encaixam em diversos deles. No entanto, quando "Bolsonaro sugere fazer cocô 'dia sim, dia não' contra poluição ambiental", ocupa o mesmo espaço que "Governo rebate dados do Inpe, mas não indica número real de desmatamento", será que não estamos sendo irresponsáveis no nível de filtragem? Afinal, ambas podem ser relevantes, mas uma é referente a uma ação de governo, enquanto outra se restringe a mais uma declaração presidencial 'irreverente'.

E esse artigo não é uma carta de repúdio aos atos do presidente, até porque esse tema renderia outros incontáveis caracteres. Mas, sim, um questionamento de como a mídia está participando desse governo, no sentido de ator do processo social? Quando olharmos para trás, daqui a alguns anos, como veremos e significaremos nosso trabalho? Porque mais do que a favor e contra, paralelamente a qualquer ideologia, um jornalista tem que buscar as técnicas que lhe garantam - não o melhor jornalismo, porque seria muita pretensão - mas a certeza de que não se desviou desse caminho.

Um dos principais fatores que complicam ainda mais o trabalho da imprensa nesse filtro de conteúdos 'bolsonarísticos' é o cenário das redes sociais. Quando o presidente da República faz diversas publicações diárias, nos sentimos impelidos a repercutir tudo que é dito. E... alerta de perigo! É assim que colocamos os pés no abismo da falta de critérios e passamos de jornalistas a marqueteiros do governo.

Unindo o advento das redes sociais à postura adotada por Bolsonaro de comentar diversos assuntos pela internet, quebrando seguidamente protocolos de pronunciamentos oficiais, o papel de quem tem que filtrar e noticiar se complica. Portanto, considere ela boa ou ruim, é necessário admitir que a gestão atual da Nação tem afetado diretamente a forma de fazer jornalismo. E, se pretendemos sobreviver a isso, mantendo a função social da profissão, é essencial fazermos uma autocrítica e, já que não somos mais os únicos produtores de conteúdo, que nos tornemos curadores mais questionadores e minuciosos.

Kyane Sutelo é jornalista.

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