
O ano que se encerra e o que se anuncia trazem consigo uma efervescência de emoções e expectativas. É o período em que a esperança se renova, e os corações se enchem de desejos por um novo ciclo de prosperidade, saúde e todas as bênçãos que a vida – e o universo – possam gentilmente nos conceder. Nesta virada de ano, a tradição de elencar anseios e traçar metas é quase um ritual sagrado. Contudo, em meio a tantas mensagens carinhosas e inspiradoras que recebi, uma em particular me convidou a uma reflexão mais profunda, um mergulho na essência do que realmente importa.
Ela me remeteu a uma antiga e singela prece portuguesa, que propõe uma inversão poderosa na nossa forma de pedir. Em vez de nos curvarmos ao divino para solicitar aquilo que gostaríamos que o novo ano nos trouxesse, somos convidados a uma postura de gratidão e preservação. A prece nos convida a pedir que aquilo que já temos e valorizamos não nos seja tirado. Uma perspectiva que, à primeira vista, pode parecer um paradoxo, mas que, ao ser contemplada com a devida atenção, revela uma sabedoria ancestral sobre a verdadeira abundância.
Mais do que pedir o que ainda não possuímos, a prece enaltece a arte de agradecer e de zelar por aquilo que já faz parte de nossa existência. É um lembrete sutil, porém contundente, de que a riqueza muitas vezes reside no que já nos foi dado, no que já construímos e no que já cultivamos.
Assim, o pedido se transforma: que o novo ano não nos leve o teto que nos protege das intempéries e nos oferece abrigo seguro; que não nos falte o prato que nos alimenta e nutre o corpo e a alma; que a manta que nos aquece nas noites frias continue a nos envolver em conforto; que a luz que nos ilumina, seja ela física ou metafórica, jamais se apague, conduzindo nossos passos e clareando nossos pensamentos.
Que o sorriso genuíno dos nossos amados, a melodia mais doce que ecoa em nossos dias, permaneça intacto; que a saúde, esse tesouro inestimável, continue a ser nossa companheira fiel; que o trabalho, fonte de sustento e propósito, não nos seja negado; que a amizade, o porto seguro em tempos de tempestade, e a companhia, que preenche vazios e multiplica alegrias, permaneçam firmes. Que os abraços, gestos de afeto que curam e conectam, continuem a nos envolver.
E, de forma ainda mais profunda, que o novo ano não ouse levar nossos sonhos, as asas que nos permitem voar para além do horizonte do possível. E, por fim, que não nos sejam arrancados os pedaços de corações formados por pessoas que amamos e carregamos em um lugar muito especial dentro do nosso peito, como relíquias preciosas que moldam quem somos.
Que assim seja 2026. Um ano leve como a brisa suave, e que passe sem levar consigo nada da nossa essência, das nossas conquistas e das nossas mais profundas afeições. Que, ao invés disso, nos proporcione tudo aquilo que merecemos, com a serenidade de quem sabe valorizar o que já tem e a esperança de quem confia no fluxo generoso da vida. Que a gratidão seja o nosso guia, e a prece invertida, o nosso mantra.


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