Dois documentários disponíveis na Netflix usam a Guerra do Vietnã como ponto de partida para discutir o Jornalismo e seus limites. Mais do que revisitar episódios históricos, as produções abordam dilemas da profissão, como autoria, responsabilidade, hierarquias internas e o impacto das decisões editoriais. ‘Seymour Hersh: em busca da verdade’ e ‘freelancer: o homem por trás da foto’ apontam o Vietnã como um marco simbólico de uma imprensa que passou a confrontar diretamente o poder estatal.
Dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, ‘Em busca da verdade’ acompanha a trajetória do repórter investigativo Seymour Hersh, responsável por revelar o massacre de My Lai, em 1969, e, décadas depois, as torturas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. O documentário mostra um Jornalismo baseado em fontes, apuração prolongada e conflitos com governos e grandes redações, além de expor erros e controvérsias do próprio repórter.
A produção evita uma narrativa heroica e apresenta o jornalismo como um trabalho sujeito a falhas, revisões e disputas institucionais. A rotina de apuração, o uso de fontes anônimas e os embates com editores e autoridades ocupam lugar central no filme.
Autor da imagem
Já ‘O freelancer’, dirigido por Bao Nguyen, questiona a autoria da fotografia conhecida como ‘Garota do Napalm’, símbolo da Guerra do Vietnã. O filme sustenta que o autor da imagem seria o freelancer vietnamita Nguyen Thanh Nghe, e não o fotógrafo da Associated Press creditado oficialmente por décadas.
O documentário amplia o debate ao tratar da posição de freelancers, especialmente em zonas de conflito, que frequentemente não controlam o crédito, a circulação ou o reconhecimento de seu trabalho. No caso de Nghe, o apagamento teria comprometido sua trajetória profissional e sua inserção na história do fotojornalismo.
Vistos em conjunto, os dois filmes mostram que a produção da verdade jornalística envolve disputas, escolhas editoriais e relações de poder. Ao revisitar o Vietnã, as obras indicam que o jornalismo se consolidou a partir do confronto com a violência do Estado, mas também revelam a necessidade permanente de autocrítica dentro da própria profissão.

