Por Jorge Polydoro
O texto é sempre correto, e cada vez melhor. As idéias são contemporâneas. Mais do que úteis, as reflexões e sugestões de Tostão se fazem necessárias para quem quer entender o jogo, mesmo que seja apenas para a discussão na mesa do bar. Era um meia-atacante de muita técnica, inteligência, rara visão de jogo, e que sabia se impor. Baixo, mas corajoso, tinha, como diria o Jorge Benjor, humildade em gol: foi o maior artilheiro da história do Cruzeiro e das eliminatórias de 70.
Naquela Copa do Mundo, quando a seleção brasileira foi tricampeã no México, cumpriu com diligência e humildade a função improvisada de centroavante num time recheado de jogadores excepcionais, reunidos de forma ousada pelo então jovem treinador Zagallo na melhor seleção já formada no país. Com Pelé, Tostão fez jogadas e tabelas notáveis. E com dois habilidosos “canhotinhas” como ele – Rivellino e Gerson -, e o dedicado Everaldo, compôs uma ala esquerda insuperável.
Pelo preparo intelectual, e, provavelmente, por viver em Belo Horizonte, longe das maiores pressões, tem uma abordagem ampla, lúcida e independente do que ocorre no futebol brasileiro, coisa rara nos dias de hoje. Claro que nem sempre concordo com o que ele escreve, mas isto não tem a mínima importância. As minhas eventuais discordâncias certamente são concordâncias de muitos outros, e mais qualificados. E o fato de divergir da opinião dele em algumas circunstâncias só reforça as referências que faço aqui.
Em recente crônica, Tostão lamenta a exagerada valorização do resultado em detrimento do espetáculo no futebol moderno. E a progressiva substituição do drible… “pelo passe, tecnicamente correto, seguro e, cada vez, mais curto”. E reforça: “Alguns comentaristas disseram que o drible de Robinho – contra o Equador, no Maracanã – foi espetacular porque resultou no gol de Elano. Não precisava. Fazemos coisas na vida somente pelo prazer, sem nenhum objetivo”. E depois lembra: “Quando Garrincha brincava, ele não sonhava em ser um menino, um passarinho, ele era um menino, um passarinho, um garrincha”.
Impossível ler isto e não lembrar imediatamente de Nelson Rodrigues, notório, entre outras razões, pelo profundo desprezo aos que chamava de “idiotas da objetividade”. No seu entender, estes eram todos os que pareciam desconhecer os meandros do inconsciente, do imponderável no comportamento das pessoas, para professar com rigor fundamentalista as análises objetivas.
Como dramaturgo, o carioca Nelson Rodrigues mergulhou fundo nos mistérios e contradições da alma humana. E, como cronista de futebol, quando o Rio de Janeiro ainda era o centro esportivo e cultural do país, construiu uma obra antológica admirada em todo o Brasil. Criou personagens que ainda circulam pelas quatro linhas do Estádio Mário Filho, nome oficial do Maracanã, assim batizado em homenagem ao seu irmão também jornalista e apaixonado pelo futebol. Quem não se lembra do “Sobrenatural de Almeida” e o do “Montinho Artilheiro”, responsáveis, segundo Nelson, por tantas alegrias e perplexidades de torcedores do Botafogo, Vasco, Fluminense, Flamengo, e até do Ameriquinha? E da grã-fina com narinas de cadáver, que foi assisti r seu primeiro Fla-Flu na tribuna de honra do “Maior do Mundo”: curiosa, olhou para uma torcida, depois para a outra, e, finalmente, mirando o campo, perguntou “Quem é a bola?”
Outro exímio driblador da crônica esportiva foi o recentemente falecido, e também carioca, Armando Nogueira. Diferentemente do trágico estilo rodriguiano, Armando Nogueira gingava seu texto com lirismo, mas também lotava de emoção as arquibancadas. Bem informado, sagaz em suas observações, o ex-diretor de jornalismo da TV Globo, e líder da equipe que criou o “Jornal Nacional”, em momentos épicos se transformava no poeta do jogo e da bola. Logo após a final de 70, ele escreveu: “Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias”. E arrematou: “Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar?”.
Aos 22 anos, por exemplo, levou uma bolada no rosto do zagueiro Ditão, do Corinthians, que lhe descolou a retina. Quase cego de um olho, foi levado e operado às pressas em Houston, nos Estados Unidos, e menos de um ano depois se consagrava como tricampeão mundial. O olho ferido acabou determinando uma aposentadoria precoce, a dedicação à medicina, e, finalmente, o feliz encontro com o colunismo esportivo.
As praias de Nelson Rodrigues e de Armando Nogueira não são exatamente a mesma praia do Tostão. Embora os mineiros tenham o antigo hábito de rumar para o litoral do Rio ao descer das montanhas em busca do mar. A prosa astuta do doutor Eduardo Gonçalves de Andrade, sem grandes dramas e poesia, traz consigo a sensibilidade de quem conhece o segredo dos vestiários, dos gramados, e o que acontece do lado de fora. A carreira de atleta, construida com resiliência longe dos microfones, câmeras e rotativas, ensinou a ele muitas lições.
Hoje, ele nos ensina que, apesar de ser uma competição que envolve contato físico e exige organização, o futebol é antes de tudo um esporte lúdico. Reforça também a convicção de que a busca por resultados não pode ser um pretexto para desqualificar a firula que encanta a arte de jogar. E, finalmente, assina a receita onde se lê que o chapéu, a caneta, a meia-lua, a pedalada, fazem bem à saude. E devem ser tomadas em doses regulares, de preferência duas vezes por semana, acompanhadas de muitos gols, se possível, de letra.

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