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O simbolismo sempre será real, mesmo no digital

Por Christian Müller Jung, para Coletiva.net

No universo dos cerimonialistas, estamos cercados de simbologia. Podemos começar pela posição distinta de sentar-se ao centro, à direita ou à esquerda.

Você já deve ter percebido que, depois do centro, estar do lado direito é a posição mais importante. E por que isso? Existem algumas explicações bem fundamentadas, assim como muitas citações bíblicas a respeito de Jesus estar sentado ao lado direito de Deus Pai, assim como na oração de manifestação da profissão de fé dos católicos, o credo, Símbolo dos Apóstolos.

“Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da Terra, e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor; que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, ESTÁ SENTADO À DIREITA de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos Pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém”

Essa distinção do centro e da direita deste, retratada na Bíblia, no decorrer da história, foi sendo adotada até mesmo pelas autoridades laicas. É um simbolismo. Está na nossa Legislação Brasileira, no Decreto nº. 70.274, de 9 de março de 1972. 

O símbolo, mesmo tendo um significado abstrato, é um instrumento importantíssimo na comunicação. No cerimonial, é uma ferramenta ilustrativa que caracteriza poder, respeito, confraternização e tantas outras deferências. 

De qualquer maneira, não podemos deixar de reconhecer que estamos vivendo em plena era digital, na qual até mesmo um mestre de cerimônias pode ser substituído por uma holografia – aliás, como já ocorreu comigo, ainda que não tenha funcionado direito na época, mas isso é assunto para outro artigo.

Você já deve ter visto, também, especialmente em partidas de futebol, que a bandeira nacional tremulando, quando da execução oficial do Hino Nacional, foi digitalizada – sim, é uma bandeira digital, mas o que simboliza é real. Também assistimos em enormes painéis digitais de alta definição à projeção de apresentações, filmes e transmissões ao vivo com convidados de outras localidades.

Mas até que ponto podemos digitalizar o simbolismo ou a significação simbólica das coisas?

Por exemplo, nas posses e transmissões de cargos. Existem certos conceitos, tais como o que me referi na abertura deste artigo, o de estar ao lado direito da autoridade máxima, que evidentemente devem permanecer, pelo mesmo motivo que se estabeleceram na organização de uma sociedade.

É fato, porém, que, apesar da facilidade da assinatura digital, que agiliza a vida de governantes no corre-corre das decisões políticas e subscreve documentos, ainda assim, o olhar da plateia que assiste à solenidade deve ser brindado com a apresentação do simbólico Livro Verde de Capa Estofada, que transmite a vontade popular de um governante para outro, assinado por uma caneta com a grafia característica de quem assume o poder, que nos distingue de outros seres humanos, assim como a nossa digital.

O que o mundo digital nos facilita, o analógico ainda nos habilita a ver, sentir, resgatar a origem de nossa existência e, com tudo isso, nos emocionar. Existe uma avaliação muito sutil para interpretar o simbolismo, até porque, para algumas pessoas, a falta de cultura e a falta de vivência com o ato solene e a tradição podem interferir em uma regra que não existe só por existir. 

A digitalização de uma ação – seja qual for – traz praticidade para um ato solene e pode servir de referência para o momento em que vivemos. Mas o que muitas vezes um ato solene quer não é ser tão somente prático e moderno. Fundamentalmente, quer ser ilustrativo e, com isso, resgatar a história de um povo.

Cabe a nós, que prezamos os símbolos de nossa história, preservá-los, disseminando o conhecimento sobre o que representam ou deveriam representar.

Christian Müller Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias.

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