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Em POA2020, painel debate sobre cidades inteligentes em ‘novo normal’

Na manhã deste sábado, 5, o jornalista e professor da PUC Eduardo Pellanda trouxe ao debate o papel das cidades inteligentes no ‘novo normal’, quando não estão em movimento mas, sim, com a sociedade isolada em casa. Conforme o mediador, a ideia da conversa foi pensar que as cidades sempre tiveram um fluxo próprio, com apropriações históricas dos espaços, além de serem lugares de efervescência cultural e com poluição na atmosfera.

“Nas metrópoles, a densidade da população se mistura com a do ar em uma combinação complexa. Problemas, soluções e aprendizados são estudados a partir das observações dessas dinâmicas, que apontam para o ecossistema mais amplo do atendimento humano. Nesse sentido, todo pesquisador pensou em pausar esses elementos para entender o todo a partir das partes. Então, veio 2020, e as cidades pararam. O que aprendemos com isso? Como serão as novas dinâmicas depois da inércia do combate à pandemia?”, instigou Pellanda, ao dar início ao bate-papo.

Edimara Luciano, professora da PUC e líder do grupo de pesquisas em Governança e Sociedade Digital, disse que entende 2020 como um ano para refletir o nosso propósito e o que estamos fazendo como seres humanos neste mundo, como cidadãos, pessoas e profissionais. “Todas essas mudanças impactaram, sem dúvida, na dinâmica das cidades, assim como na das famílias e organizações. O que traz uma série de desconfortos e problemas também”, pontuou.

Para ela, este período foi importante para pensarmos que novos padrões são possíveis e necessários, visto que tínhamos uma lógica de produtividade e acompanhamento do trabalho muito baseado na presença física. “Os novos modelos são necessários, porque se, quando voltarmos ao normal, todas as empresas retornarem a trabalhar das 8h30 às 18h, se todo mundo se movimentar para os mesmos lugares na cidade, os problemas de mobilidade serão exatamente os mesmos ou, até mesmo, superiores”, alertou.

O engenheiro, pesquisador e docente da Universidade Federal da Bahia (UFBA), André Lemos, iniciou a conversa opinando que a pandemia mostra, em primeiro lugar, que estamos sós, sem estarmos isolados. Contudo, para ele, ela ‘desempacotou’ também muitos problemas. “O que parecia arrumado, em seus domínios, começou a ser mostrado de forma brutal, com um entrelaçamento muito forte. Longe de ser um problema apenas biológico de Saúde, estamos assistindo a esses múltiplos desdobramentos e atravessamentos do vírus, descortinando controvérsias em várias áreas, como científica, econômica, política, educacional e epidemiológica”, alegou.

Em relação à temática do painel, salientou que as cidades são feitas hoje por dados, mobilizadas por plataformas e com amplos processos de dataficação, além de performances algorítmicas, que são produzidas sob inferências do que devemos fazer no presente e no futuro.

“Então, a vida por causa do vírus foi confinada, a cidade parou, mas os municípios e locais de dados não. Eles continuaram a funcionar tanto aqui, como nos países centrais. Apesar das ruas desertas, continuamos conectados e podendo fazer atividades como educação, entretenimento e falando com amigos”, abordou, ao entender que há uma materialidade de dados que foi descortinada pela pandemia. Isso porque evidenciou que grande parte da população não tem acesso à tecnologia, como internet, computadores e celulares. “Então, quando pedem para pessoas de baixa renda ficarem em casa é um martírio. Muitos brasileiros não têm condições de isolamento e nem materiais de acesso, além disso, a baixa e precária internet e a falta de energia elétrica acabaram agravando a situação”, destacou.

Lemos enxerga que uma cidade inteligente não é, necessariamente, uma que tenha mais tecnologia mas sim que seja mais adaptada às diferenças. “No fundo, acho que toda a cidade é inteligente a sua maneira. O grande desafio é como nos adaptamos a um mundo que necessita que a gente se vincule aos outros objetivos e animais de uma maneira diferente”, ponderou. Ao finalizar sua fala, disse que a grande lição da pandemia não é o isolamento, mas apontar e mostrar a nossa dependência e valorizá-la, justamente pela falta, essa necessidade de conexão.

“No início da pandemia a sensação geral era de que não conseguiríamos trabalhar e contribuir, mas fomos para a casa e descobrimos que sim, podemos e, inclusive, até melhor. Entendemos que não precisamos de um trânsito de horas, um transporte coletivo precário e grandes filas. Descobrimos que podemos nesse tempo perdido e, ao mesmo tempo, precisamos parar um pouco”: assim Eduardo Peres, da empresa desenvolvedora de software DB Server iniciou sua fala.

Para ele, também descobrimos que precisamos uns dos outros presencialmente e que podemos reconhecer isso. O profissional ainda acredita que estamos falhando como sociedade na solidariedade. “Não há como termos cidades inteligentes em locais com pessoas desfavorecidas que não têm telas ou quando estamos a um clique uns dos outros, e, contudo, outros são invisíveis”, advertiu.  

Ao vislumbrar o futuro, ele prevê que todo esse efeito pandêmico vai mostrar qual será a cidade ideal. “Essa situação Global nos mostrou que ficar na nossa cidade pode ser uma boa opção, como trabalhar de casa para qualquer lugar do mundo e também valorizar o comércio local”, falou.

Pellanda trouxe à conversa o pensamento de que antes se tinha uma divisão, principalmente por níveis de educação na sociedade. No entanto, neste ano, acabou surgindo outro tipo, que é justamente das pessoas que trabalham com átomos e das que atuam com bits. “Mesmo uma pessoa que não tenha tanta formação, mas que trabalha em um call center, de repente conseguiu fazer sua atividade de casa e teve seu emprego mantido, conseguindo ter um tipo de padrão de vida que, talvez, pudesse ser maior daqueles com educação superior”, opinou. Ele percebe que não há movimento de carros e pessoas, mas de bits, que gastam muita energia e são como fósseis. “Então, percebemos que tem trabalhos que podem ser feitos à distância e outros não”, alegou.

Os profissionais ainda trouxeram ao debate a evidência de plataformas em tempos de quarentena, que têm guiado ainda mais o dia a dia. Para o grupo, elas podem ser consideradas as novas cidades em que estamos transitando nesse momento de isolamento.

Sobre o POA2020

Com o apoio da Do it, Coletiva.net marca presença on-line no POA2020, cujo propósito é debater a produção de sentido na exponencialidade das transformações provocadas pela tecnologia e pelos modelos de inovação. A cobertura do evento, com transmissão virtual, é produzida pelas jornalistas Cleidi Pereira, Nathália Ely e Patrícia Lapuente. A iniciativa é uma realização da Aliança para Inovação, do Pacto Alegre e do Porto Alegre Inquieta . 

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