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Interferências e noção

Por Flavio Paiva

Hoje vivemos um mundo de interferências e interrupções. Quase desnecessário dizer isso, mas uma coisa interfere na outra: começa pelo mercado mundial, em que um espirro em um país acaba gerando (sem trocadilho com Covid) uma gripe em outro, bem distante. Já tendências de pensamento, hypes, moda, design, religiões, são interferências que em maior ou menor grau acabam acontecendo em cadeia, muitas vezes em progressão geométrica.

Interrupções são a todo instante. Podemos partir das mais banais, como notificações em smartphones, passando por interferências (me refiro aqui a poluição visual e sonora) nos grandes centros urbanos. Se notarmos um pouco, não existe o menor sentido de harmonia e decência estética ou sonora. Cada local usa o que bem quiser. Existe plano diretor? Existe. Mas além de ele ser desrespeitado a todo momento e a cada novo dia(talvez hora), ele é bastante amplo. Permissivo, talvez demais. 

Não me refiro aqui a uma padronização que torne as coisas monótonas e repetitivas. Uma padronização pode prever várias faixas e formas de variação, desde que elas tenham alguma harmonia. Não notamos, mas da maneira como a cidade está acontecendo visualmente, ela acaba nos estressando lentamente. E tornando as ruas bem mais feias. Não vou nem entrar no amontoado de fios de provedores de internet, energia elétrica e outras operações que se encontram nos postes, porque isso daria uma coluna separada, sozinha, e extensa.

Com relação à poluição sonora, se estiver em uma região não tão afastada da cidade(muitas vezes, mesmo nas afastadas, depois que inventaram as caixas bluetooth), vai ouvir descargas de carros, caminhões, trânsito de ônibus, motos, se for campanha política carro de som, ou fora de campanha carro de qualquer coisa(existem os carros de frutas e verduras, de produtos de limpeza, do ovo), além das próprias pessoas que não têm mais nenhuma noção de como falar de um modo que não interfira tanto nos que estão próximos. Falo de vizinhos, pessoas em restaurante, etc.

Alguns pensarão que quero todo mundo falando baixinho e murmurando. Não, não se trata disto. Mas o que vem acontecendo é o oposto: as pessoas falam em alto volume, muitas se comportam de uma maneira rudimentar demais, ouvem música em um volume em que claramente não existe preocupação com quem está à volta, etc. Então, reforçando: não, não estou querendo as pessoas murmurando, claro que não. Mas um pouco mais de educação, na verdade de noção, não seria de todo mal. 

O que me parece, tirando exceções como sempre, é exatamente isso: as pessoas chutaram o pau da barraca, perderam a noção total. E agem de uma maneira que diz muito de como vêem os outros, qual o grau de respeito que têm. 

O problema não é só o fato em si, mas o que ele gera: que sociedade podemos esperar com os cidadãos agindo assim? Uma sociedade com algum grau de solidariedade, de empatia? Não, por enquanto isso está muito mais nos discursos do que na prática. Mas assim como o ser humano tem uma capacidade infinita de produzir o mal, tem genialidade na mesma proporção também. A capacidade de tomar boas atitudes, de fazer algo realmente bom, apesar de ser em um grau menor, existe e acho até que está crescente. Impulsionada por exemplo, pelas mudanças climáticas, que se não pensarmos como comunidade, a coisa vai ficar feia. Então, vamos apostar nessa capacidade específica e projetar 2021 com muita expectativa. 

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