A principal notícia dos últimos meses gira em torno de algo que afeta a vida de todos nós: um vírus, que desafia a capacidade humana sem distinguir classe, raça ou cor. Aliás, que também ensina às autoridades de que saúde e ciência são áreas que não podem sofrer cortes de orçamento.
Agarrado ao pânico que absorve o pensamento da população, que assiste a números cada vez maiores de pessoas contaminadas (ou suspeitas de contaminação) na sua cidade, estado ou país, o mercado de trabalho também sofre as consequências. Um deles é o de eventos, seja pela necessidade de mudanças de comportamento seja pela onda de cancelamentos que já chegou ao Brasil.
A preocupação é evidente e justificada. Percebo isso no meu trabalho como Mestre de Cerimônias, que me exige atuação frequente em cerimoniais marcados por formalidades e protocolos rígidos.
São atividades que reúnem quantidade considerável de pessoas — uma aglomeração que pode ser propícia à propagação desse convidado indesejado: o coronavírus. Um elemento que não se preocupa com o R.S.V.P., chega sem avisar, é difícil de ser identificado e pode estar sentado ao seu lado, invisível, e pronto para ser transmitido a qualquer um.
O que vemos pelo mundo é que estamos, sim, vulneráveis.
Para nos proteger, médicos, instituições de saúde e a própria OMS — Organização Mundial de Saúde têm solicitado que se evite contato pessoal e propõem um novo “Protocolo Respiratório”. Um aprendizado a duras penas, ainda mais em um país como o nosso onde o contato físico é cultural, faz parte das relações humanas. Queremos dar a mão, um abraço e trocar beijos, às vezes mais de um.
Pelo mundo, diferentes formas de cumprimento têm sido recomendadas nos últimos dias, substituindo o protocolar aperto de mãos. Do footshake, saudação com os pés, sugerida por autoridade da OMS ao tradicional gesto gong shou, em que a pessoa une as suas próprias mãos, sendo uma aberta e outro fechada. Existem os que apenas trocam toques de cotovelo. Tudo ainda muito estranho para os brasileiros. Como é estranho, especialmente aos gaúchos, eliminar o hábito de partilhar o chimarrão, sempre um sinal de amizade e companheirismo.
Trabalho diretamente com o Governador do Estado e vejo como é praticamente impossível, em alguns momentos, ele não esticar a mão para aqueles que estão na primeira fila, composta pelas principais autoridades na solenidade.
Nas cerimônias oficiais, uma iniciativa talvez seja a de comunicar as pessoas de que estão liberadas de cumprimentar com um aperto de mão. Um olhar em direção ao outro pode ser suficiente, nestas ocasiões. Evitando-se, por exemplo, o constrangimento que passou a chanceler alemã Angela Merkel que estendeu a mão para o seu ministro do interior, Horst Seehofer e não foi retribuída. Menos mal que ela logo entendeu e os dois riram da situação.
Mudar um hábito, ainda mais de respeito e de aproximação, é complicado — era o protocolo que até então cabia e, ao menos por enquanto, terá de dar espaço para um novo conceito. O protocolo que fala mais algo agora é o respiratório!
Deve-se evitar o cumprimento com a mão. Não colocar a mão no próprio rosto. Se espirrar, tapar a boca e o nariz com o antebraço. Somente usar máscara se estiver com algum sintoma. Aliás, se sintoma houver, pense na possibilidade de evitar locais com aglomeração; não comparecer ao evento. O que mais se quer é não dar a mão à propagação de um vírus que pode causar doenças e matar pessoas.
Assim como mudamos e atualizamos o Cerimonial em função dos novos costumes e a praticidade do tempo em que vivemos, temos de ter consciência da responsabilidade nesse momento. A vida pede cuidado e um novo tipo de protocolo deve ser observado.
Pelo menos até que a ciência, neste tipo de circunstância, consiga retirar dos eventos o convidado indesejado!
Christian Müller Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias.

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