Que estamos vivenciando uma parte importante da história da humanidade, disso não há dúvida. Contudo, estamos, também, nos deparando com mudanças significativas no Jornalismo. Após semanas intensas, noticiando sem parar a chegada da Covid-19 no Brasil e, até algumas críticas por parte de alguns, a profissão foi reconhecida como atividade essencial pelo presidente, Jair Bolsonaro, bem como por nosso governador, Eduardo Leite. Isto quer dizer que não podemos parar. Precisamos estar atentos a tudo e a todos para que o povo entenda o cenário brasileiro diante dessa pandemia tão avassaladora.
Acredito que eu esteja falando aqui o que a maioria já sabe. A novidade, entretanto, fica por conta de uma pequena mudança que significou a transformação de uma forma de se fazer Jornalismo. Há 50 anos, os brasileiros arrumaram suas antenas e televisores em preto e branco para acompanhar o nascimento de um dos mais antigos e premiados telejornais. Apelidado de JN, o Jornal Nacional se tornou tradição nos lares brasileiros, primeiramente, com a apresentação de Cid Moreira e Hilton Gomes. De lá para cá, muitos foram os boa noites, mudanças e transições. Tivemos a primeira participação de uma mulher na bancada, Márcia Mendes, coberturas históricas, como a queda do Muro de Berlin e das Torres Gêmeas, além de entrevistas com os presidenciáveis a cada eleição para governar o Brasil.
Todavia, nestes 50 anos, nada havia quebrado o formato engessado e tradicional de apresentação das notícias. Por aqui, estamos acostumados já a ver Cristina Ranzolin comandar o Jornal do Almoço relatando as novidades por meio de seu tablet, enquanto caminha pelo estúdio. Por lá, a bancada continua a mesma, enquanto o que muda é um ponto ou outro do cenário. Acredito que a maior de todas as transformações até então foi a localização, já levou o estúdio para dentro da redação. Pela primeira vez, vimos mais pessoas além dos âncoras trabalhando para colocar o jornal no ar.
Contudo, foi na última semana que presenciamos uma mudança e tanto para a história, não só do telejornal, mas, também, do Jornalismo. O que pode ser comum em outros noticiários, foi uma grande novidade no JN. Uma quebra entre o que se pode dizer de gelo para algo extremamente humano. Não de jornalista para audiência, mas de pessoas para pessoas. Logo após o tradicional “Boa Noite”, o editor-chefe e âncora, William Bonner, começou a conversar diretamente com a câmera, ou melhor, conosco. “Antes de começar a apresentar as notícias de hoje a gente vai fazer uma pausa, porque é muita informação todo dia e o tempo todo sobre o novo coronavírus. Então, você ouviu as manchetes, já sabe quais foram os destaques. A gente vai fazer essa pausa, primeiro, para dizer simplesmente o que ficamos dizendo um para o outro aqui também: calma”, falou, ao ser seguido por mais alguns minutos de recados ao lado de Renata Vasconcellos.
Isto pode até ter passado despercebido pelos olhos do público, mas nós, jornalistas, sabemos da importância que este momento representa. Já passou mais do que da hora de sermos vistos não de cima (e, até mesmo, de baixo), mas na mesma linha horizontal. Acima de tudo, somos humanos. Que precisam engolir a emoção ao noticiar uma fatalidade, pois isso é o que nos torna humanos. Somos profissionais que aprenderam técnicas e teorias para levar ao público informações corretas e com credibilidade. Porém, isso não quer dizer que tenhamos que agir sempre com uma postura muito séria e com o olhar sisudo. E é exatamente por isso que comemoro como um gol do meu time em uma final de Copa Libertadores: que, de agora em diante, sejamos mais humanos. É disso que todos estamos precisando neste momento: um afago e palavras para nos lembrarem que precisamos, acima de tudo, respirar.
Patrícia Lapuente é jornalista e coordenadora de Comunicação de Coletiva.net.

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