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Ficção ou realidade?

Por Balala Campos, para Coletiva.net

Um dia, quando tudo passar, vamos lembrar do estranho 2020. Parecia ficção, mas era realidade. Durante muitos meses ficamos trancados em casa, proibidos de ver filhos e netos, amigos, numa proteção contra um inimigo milimétrico, invisível e desconhecido, que fazia inúmeras vítimas. A uns, atacava sem sintomas, a outros, com sintomas leves, mas alguns eram escolhidos para serem vítimas fatais. Passamos a andar pelas ruas mascarados e distantes uns dos outros, com aquele olhar medroso, tentando adivinhar o desconhecido. Até então, somente os assaltantes cobriam a boca e o nariz para não serem reconhecidos no crime. Pois assim estávamos nós.

Ninguém podia sair para trabalhar. Os contatos humanos cessaram. Nos meios de comunicação tradicionais o assunto era um só: quantos adoeceram e qual o número de mortes. O “fique em casa“ tornou-se um mantra repetido incessantemente. Crianças e jovens foram proibidos de ir à escola, casamentos foram cancelados, casais ficaram separados. Aeroportos, países e cidades ficaram inacessíveis.

Evitávamos a remota possibilidade de contato físico, mesmo que à distância. Ao invés de beijos, no máximo uma cotovelada, menos perigosa, ao encontrar um conhecido. Afinal, toda a ciência do mundo dedicada a descobrir remédios e vacina, não era ainda suficiente para nos dar um pouco de normalidade.

As artes passaram a ser transmitidas através de pequenas telinhas. Na nova modalidade, muitos se apresentavam de pijama, alguns com cabelo desgrenhado. Era o que tínhamos de melhor para sobreviver frente à proibição de shows e espetáculos de qualquer ordem. A tecnologia que permitia a transmissão de informações, às vezes falhava, interrompia conversas importantes. Era o sistema e, fora dele, não havia comunicação.

Milhões perderam empregos. Os empresários tiveram que se submeter ao abre e fecha de seus negócios. Ao final de alguns meses, grande parte das empresas cerrou as portas, talvez para sempre. Governos passaram a controlar a vida das populações. E o tempo ia passando… passando… sem solução.

Os mais vulneráveis ficaram à deriva, somando às más condições de habitação e higiene, à falta de trabalho durante a pandemia. Aos privilegiados, com conforto, trabalho remoto e boa comida na mesa, sobrou o adiado encontro consigo mesmo e com as inevitáveis e básicas perguntas filosóficas. Quem sou eu? Pra onde vou? Qual o sentido?

Balala Campos é jornalista.

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