Um dia, quando tudo passar, vamos lembrar do estranho 2020. Parecia ficção, mas era realidade. Durante muitos meses ficamos trancados em casa, proibidos de ver filhos e netos, amigos, numa proteção contra um inimigo milimétrico, invisível e desconhecido, que fazia inúmeras vítimas. A uns, atacava sem sintomas, a outros, com sintomas leves, mas alguns eram escolhidos para serem vítimas fatais. Passamos a andar pelas ruas mascarados e distantes uns dos outros, com aquele olhar medroso, tentando adivinhar o desconhecido. Até então, somente os assaltantes cobriam a boca e o nariz para não serem reconhecidos no crime. Pois assim estávamos nós.
Ninguém podia sair para trabalhar. Os contatos humanos cessaram. Nos meios de comunicação tradicionais o assunto era um só: quantos adoeceram e qual o número de mortes. O “fique em casa“ tornou-se um mantra repetido incessantemente. Crianças e jovens foram proibidos de ir à escola, casamentos foram cancelados, casais ficaram separados. Aeroportos, países e cidades ficaram inacessíveis.
Evitávamos a remota possibilidade de contato físico, mesmo que à distância. Ao invés de beijos, no máximo uma cotovelada, menos perigosa, ao encontrar um conhecido. Afinal, toda a ciência do mundo dedicada a descobrir remédios e vacina, não era ainda suficiente para nos dar um pouco de normalidade.
As artes passaram a ser transmitidas através de pequenas telinhas. Na nova modalidade, muitos se apresentavam de pijama, alguns com cabelo desgrenhado. Era o que tínhamos de melhor para sobreviver frente à proibição de shows e espetáculos de qualquer ordem. A tecnologia que permitia a transmissão de informações, às vezes falhava, interrompia conversas importantes. Era o sistema e, fora dele, não havia comunicação.
Milhões perderam empregos. Os empresários tiveram que se submeter ao abre e fecha de seus negócios. Ao final de alguns meses, grande parte das empresas cerrou as portas, talvez para sempre. Governos passaram a controlar a vida das populações. E o tempo ia passando… passando… sem solução.
Os mais vulneráveis ficaram à deriva, somando às más condições de habitação e higiene, à falta de trabalho durante a pandemia. Aos privilegiados, com conforto, trabalho remoto e boa comida na mesa, sobrou o adiado encontro consigo mesmo e com as inevitáveis e básicas perguntas filosóficas. Quem sou eu? Pra onde vou? Qual o sentido?
Balala Campos é jornalista.

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