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Risco de vida, cassetadas e outras aventuras

Por Gilberto Jasper, para Coletiva.net

Muitas vezes escrevo sobre as agruras de todo jornalista, mas colecionamos muitas experiências divertidas e inesquecíveis. Sem falar das pessoas inesquecíveis que conhecemos. Como repórter – de rádio e jornal – e assessor de imprensa dos três poderes, colecionei muitos causos parte deles reunidos no meu livro “O Tempo é o Senhor da Razão e Outras Crônicas”, lançado em novembro.

Em uma coletiva da direção da GM, em Gravataí, o governador Germano Rigotto deu uma ordem diferente da rotina: queria citar todos os veículos de comunicação presentes. Munido de planilha cumpri a romaria. Duas gurias conversavam animadamente com um crachá de imprensa. Pedi licença e perguntei:

– Qual é o veículo de vocês?

Elas se olharam e uma delas, muito irritada, virou-se para a amiga e disparou:

– Tá vendo só? Eu te disse pra não botar o nosso Chevette na entrada da garagem!

Greves sempre eram momentos tensos para repórteres, especialmente para quem trabalhava em determinadas empresas de comunicação. Tive dois momentos de pavor. Num deles, acompanhado de um calejado fotógrafo, os bancários tentavam virar nosso Fusca bege com logotipo da empresa na porta na Rua 7 de Setembro, no centro de Porto Alegre. Estava apavorado até que o experiente repórter fotográfico conseguiu baixar o vidro e berrar.

– Tchê… Por que vocês querem matar a gente? – perguntou.

– Porque tem o fulano, da rádio de vocês, que só mente e fala mal de nós. Por isso vocês vão apanhar! – retrucou.  Com calma, o “retratista” deu o nome e endereço do colega da emissora.

– Já que vocês são tão valentes, vão lá bater nele, mas deixem a gente trabalhar. E a calma voltou.

Numa greve de trabalhadores em ônibus eles deitaram no asfalto perto do Mercado Público para evitar que os veículos saíssem. Uma coluna de brigadianos, com os braços entrelaçados, avançou em direção aos grevistas. Estávamos atrás dos trabalhadores e em segundos o caos se instalou, com bombas de gás lacrimogêneo.

Grevistas e jornalistas corriam Borges de Medeiros acima para fugir dos cassetetes (àquela época de madeira maciça!). Dobrei na Salgado Filho, mas um PM me alcançou. Fiquei pendurado em uma árvore no canteiro central da avenida. Levei muitas cassetadas e fiquei com marcas roxas nas costas.

Ao chegar à redação da ZH me senti um herói de guerra contando detalhes da aventura. A única indiferente foi a editora e minha eterna  inspiração, Núbia Silveira. Suspirei ao dizer que estava todo dolorido.

– Tá bom! Senta aí, escreve tua matéria, sem “vitimite”, tá? É bom levar uns tapas de vez em quando – falou sem tirar os olhos do texto que rabiscava com caneta Bic azul.

Gilberto Jasper é jornalista.

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