Perfil

José Carlos Torves: Companheiro Torves

..

“Desde a redemocratização, os sindicatos procuram uma nova razão de existir, uma forma de se manter útil aos trabalhadores, para que estes enxerguem a organização sindical como o grande negociador, o grande lutador pelos seus direitos. Eles ainda procuram descobrir uma forma de agregar os trabalhadores.” Esse pode ser um resumo da luta do jornalista José Carlos de Oliveira Torves, há três anos presidente de sua categoria no estado do Rio Grande do Sul. Nascido a 6 de fevereiro de 1953, em Livramento, Torves trabalhou em veículos antes de passar a se dedicar integralmente ao sindicato, abdicando de parte de seu tempo para pensar no coletivo. Sua decisão pelo jornalismo se deu graças à influência do primo Kenny Braga, que ainda atua na imprensa gaúcha. Também foi por intermédio do primo que conseguiu seu primeiro emprego, bem no início da faculdade. Com apenas 17 anos, Torves veio sozinho a Porto Alegre para prestar vestibular na Ufrgs (Universidade Federal do RS). Antes, nunca havia saído de sua cidade. Chegou e deslumbrou-se, ainda mais quando foi aprovado para o curso e passou a morar na Capital. Em um ano, já estava trabalhando na editoria de Polícia de Zero Hora. “É onde todos os ‘focas’ começavam no jornal”, lembra. Mas seria apenas sua primeira atuação na RBS, onde permaneceu por 18 anos. Passou também pelas editorias de Geral e Esportes de Zero Hora, pelo diário Hoje (“um jornal sangüinário, que não durou muito tempo”, diz), pela RBS TV, onde foi repórter de Esportes em Porto Alegre e chefe de jornalismo em Caxias do Sul, pela rádio FM do grupo, que viria a ser a Atlântida (“não lembro bem se o nome era Gaúcha FM Zero Hora ou Zero Hora Gaúcha FM”), e pela Gaúcha AM. Sem risco de desemprego Esses anos, porém, não foram dedicados exclusivamente à RBS. No início da década de 1980, Torves começou a trabalhar também na Rádio Farroupilha, que pertencia aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Numa manhã, chegando à emissora, encontrou as portas lacradas. A rádio havia sido fechada por não pagar impostos. Não houve grande comoção, já que “os salários também não era pagos em dia”, conta. A deputada Dercy Furtado, do PDS, que era comentarista da rádio, chegou e encontrou apenas cerca de seis funcionários conversando sobre o fechamento da Farroupilha. Preocupada, perguntou o que eles fariam agora. “Não sabemos, estamos desempregados” foi a resposta, relembra. A deputada ficou comovida e os levou para a TVE, onde seu marido Jorge Furtado era presidente. “O professor Furtado pegou uma lista de vagas e deu trabalho para todos. Eu permaneci como repórter.” Isso faz 22 anos. Torves é contratado da estatal até hoje! Foram oito anos se dividindo entre os dois empregos, na RBS e na TVE, até o jornalista deixar o primeiro. “A relação estava desgastada, a empresa havia mudado muito, principalmente depois da morte do dono, Maurício Sirotsky”, conta. Torves recorda que o empresário, a quem chama simplesmente de “Maurício”, era muito atencioso com os funcionários. “A época da ditadura era difícil, mas muitas vezes o Maurício mandava os próprios advogados do grupo para nos tirar da prisão”, lembra. Além disso, Torves estava cansado: “Começava a trabalhar às 8h da manhã e só parava à meia-noite. Não tinha mais vida pessoal”. Nos últimos 10 anos de RBS, ele exercia cargos de chefia e tinha que conciliar as viagens para cobrir jogos de futebol com a TVE, onde também era repórter de Esportes. Outra barreira para um bom relacionamento com a empresa era sua militância, tanto sindical como partidária. ”Patrão é patrão e empregado é empregado” Torves filiou-se ao Partido Comunista pouco antes de deixar a cidade natal (hoje é filiado ao PT). Na Capital, seu contato com o partido foi intensificado, já que encontrou em Zero Hora algumas lideranças comunistas, como João Aveline. Pertencer ao “Partidão” fez com que o jornalista se visse, algumas vezes, prestes a perder o emprego. Lembra de quando Furtado o convocou para atuar na campanha de reeleição de sua esposa. Torves disse que não poderia, pois era filiado ao PC, e acreditou que seria demitido, já que havia conseguido o emprego graças à generosidade da deputada. “Ele nunca mais tocou no assunto. Demonstrou uma compreensão e um respeito que muitas vezes não são encontrados na esquerda”, relata. Já a atuação sindical demorou mais a surgir. Foi em 1980, quando começou a freqüentar as reuniões do Sindicato dos Radialistas. Na época, participava apenas como delegado. O trabalho em direção de sindicato só começou com os profissionais de sua área em 1986. Há três anos ele é presidente do Sindicato dos Jornalistas e, recentemente, foi reeleito para mais três anos. Torves acredita que a organização dos jornalistas já foi bem mais forte. “Não muda muito em relação ao movimento sindical em geral, hoje. No Brasil, houve um esvaziamento com a chegada do neoliberalismo. As próprias universidades preparam os alunos para serem colaboradores da empresa, mascarando a relação empregatícia, a crítica. Na verdade, patrão é patrão e empregado é empregado. Um paga o salário do outro e há um conflito de interesses”, diz. ”Eu vivo o sindicato” Torves vai para a sede do sindicato, que fica a duas quadras de sua casa, no Centro, às 9h da manhã. Geralmente, há reuniões com jornalistas à noite, então só deixa o local lá pelas 22h. Sua rotina inclui viagens semanais, para as cidades onde a entidade possui delegacias regionais. Por isso, considera impossível conciliar a presidência com o trabalho em veículo. Ele está licenciado da TVE, onde atuava como comentarista. “Trabalho muito mais aqui do que na TV. Lá eu chegava, fazia meu comentário e ia embora”, conta. O jornalista reserva para si apenas o período em que faz seu mestrado de Comunicação, na PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do RS). Além dos finais de semana, claro. “Fora isso, vivo o sindicato”, diz, acrescentando que pode fazer isso porque não tem família nem crianças pequenas para cuidar. Divorciado, Torves teve dois filhos com a ex-mulher Neli: Alex, de 28 anos, técnico em informática, e Simone, 26, que está sempre em volta do pai, pedindo ajuda para os trabalhos da Faculdade de Letras. Ambos são casados e costumam jantar com o pai freqüentemente. Jantar fora, pois Torves não costuma cozinhar. Não que não saiba, afirma ser um ótimo cozinheiro, mas prefere fazer as refeições em restaurantes, já que mora sozinho. No tempo livre (as primeiras horas do dia), aproveita para ler. Gosta de livros sobre Sociologia, Política e Comunicação e tenta ler três obras por semana. Torves formou-se também em Ciências Sociais na PUC, com a intenção de se preparar melhor para a atuação no sindicato. Os finais de semana, reserva para colocar o sono em dia. Disciplinado e organizado, Torves gosta de estudar e está sempre se aprimorando. Pretende fazer doutorado, após terminar o mestrado. “Não dou trabalho para minha empregada”, fala o jornalista, que afirma manter sempre as coisas em seus lugares, ao contrário do estereótipo da profissão, e cumprir horários. Defeitos diz ter vários, mas destaca a falta de cuidados com sua saúde: “Só vou ao médico quando já estou muito mal, fumo demais…”, conta Torves. “Pretendo parar de fumar – um dia -, mas nem tento”, se diverte com o próprio vício. Daqui a três anos, Torves ficará impedido de ser novamente presidente do sindicato, conforme o estatuto da organização. Assim, está em seus planos retornar para seu posto de comentarista na TVE, além de permanecer trabalhando em algum outro cargo da direção da entidade. “Me afastei do trabalho de jornalista devido à atuação sindical, mas é o que eu gosto de fazer, é assim que me realizo e consegui ser líder da categoria, que eu considero importantíssimo e , mal ou bem, com os salários que se ganha, criar meus filhos”, diz, explicando que está apenas retribuindo à categoria tudo que ganhou com a profissão.

Autor

Leca

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.