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Carolina Aguaidas: Laços e notícias

Da menina que descobriu sua vocação aos 10 anos, à mãe que sustenta uma carreira de sucesso sem abrir mão do que é inegociável: a presença em casa

Crédito: Arquivo Pessoal

Existe uma fotografia, hoje guardada com o zelo de quem protege um amuleto contra o esquecimento, que captura o exato instante em que o destino de Carolina Aguaidas deixou de ser uma possibilidade para se tornar um veredito. Na imagem, datada da década de 1990, uma menina de apenas 10 anos brinca de ser repórter tal qual as outras crianças da época gostavam de brincar de professora. 

Ela foi a jornalista por um dia de um caderno especial de Zero Hora. Ao fundo, o olhar de aprovação da mãe, que a acompanhou naquela incursão inaugural à redação, sela o pacto entre a infância e o futuro. Naquele dia, mesmo que ainda inconscientemente, ela descobriu que sua vida não seria escrita nos códigos da lei que habitavam as prateleiras de casa, mas no dinamismo efêmero e pulsante das notícias.

O peso do papel

A menina que brincava de ser repórter carregava uma máxima que se tornaria seu mantra profissional: se a pauta era complexa ou o horário era ingrato, a resposta é o movimento. A escolha pelo Jornalismo não ocorreu como uma ruptura traumática, mas como uma tradução poética da busca por justiça que sempre permeou o lar dos Aguaidas. 

Filha de Newton, um advogado de 83 anos, hoje aposentado, cuja carreira na área de família foi pautada pela ética inegociável que Carol reconhece com admiração: “Ele é uma pessoa que sempre pensa nos outros, é empático. A gente carrega isso dele, de olhar o coletivo”; e irmã de Karina, que seguiu os passos paternos nos tribunais – ela percebeu cedo que sua oratória encontraria outro palco. Enquanto o Direito busca a verdade nos autos, ela decidiu buscá-la nas vozes das ruas. “Minha família nunca se envolveu nas decisões, sempre me deixaram muito livre. E eu escolhi um caminho diferente do deles”, explica ela.

Contudo, a solidez dessa base familiar foi testada de forma bruta aos 16 anos. A perda da mãe, vitimada por um câncer que se espalhou silencioso, antecipou o fim da juventude. Carol aprendeu, no vácuo daquela ausência, que o tempo é uma mercadoria sem estoque. 

A mãe deixou uma lacuna que ela tenta preencher hoje com a presença onipresente na vida dos próprios filhos. “A perda da minha mãe me fez querer aproveitar cada segundo de qualidade com eles. É pensar que a gente tem que estar sempre junto e aproveitar o máximo”, pondera. Essa urgência vital é o que define sua postura: ela não apenas informa; ela vive o agora com a consciência de quem sabe que a luz do estúdio, assim como a vida, tem um tempo determinado para brilhar.

Alquimia do afeto

A trajetória profissional de Carol é indissociável de sua biografia amorosa. Foi em 2004, nos corredores da Band, que o destino operou sua jogada mais certeira. Foi no estágio em produção na Rádio AM 640 que ela conheceu Gustavo Berton. O que começou como uma amizade entre colegas de redação floresceu em uma união que já atravessa duas décadas. “Fomos crescendo juntos na profissão e na vida”, conta. 

Hoje, ambos jornalistas, eles operam uma logística de pratinhos: enquanto Carol acorda na madrugada para chegar à RBSTV e bater o ponto no ‘Bom Dia Rio Grande’, Gustavo assume a manhã das crianças, em um revezamento que exige sinergia do casal e, algumas vezes, apoio da sogra, peça fundamental das escalas de fim de semana.

Carol recorda com leveza os tempos de início de carreira. Um dos episódios memoráveis ocorreu quando sobrou para a então estagiária entrevistar o presidente do Grupo Bandeirantes, Johnny Saad. Com a informalidade que lhe é peculiar, Carol tratou o executivo por Johnny, o que gerou um pito memorável da chefia, que esperava dela mais formalidade. “O mais importante é nunca dizer que eu não sei fazer alguma coisa. A gente tem que acreditar no que a gente sabe”, indica como aprendizado.

Um pouco mais adiante na carreira, na época em que trabalhava no SBT RS, Carol estava cobrindo o enterro de uma vítima de tiroteio. “A família não queria filmagem e a gente sempre respeita. Fomos pro outro lado do cemitério fazer uma imagem da fachada, longe de todo mundo”, narra o episódio que avançou com a jornalista sendo pega pelo pescoço. “Eu sou pequena e ela me levantou. O cara que tava junto deu um tapão e jogou a câmera do cinegrafista no chão. Foi um horror! Depois, descobrimos que era uma briga entre facções criminosas”, rememora.

A cicatriz e a luz

Se houve uma cobertura que moldou seu caráter profissional, foi o acidente com o voo da TAM, em 2007. Trabalhando na Band News FM em Porto Alegre, Carol foi uma das primeiras a chegar ao aeroporto. Ali, diante do silêncio ensurdecedor de famílias que aguardavam nomes que ninguém queria pronunciar, ela entendeu a responsabilidade social do microfone. “Eu nunca vou me esquecer da cena de colocarem os familiares numa sala e começarem a ler os nomes das vítimas. A cada nome, um pai ou uma mãe caía chorando no chão. Até hoje, se fecho o olho, lembro daquela cena”, revela, emocionada. Foi essa performance técnica e humana que chamou a atenção da rede nacional, em São Paulo.

A mudança para a capital paulista em 2012 foi um salto sem paraquedas, com apenas 48 horas para decidir e empacotar a vida. Lá, Carol viveu o auge da visibilidade, dividindo bancada com gigantes como Carlos Nascimento, seu ídolo de infância, e Hermano Henning. Em 2017, alcançou um sonho profetizado anos antes ao Coletiva.net: a apresentação do SBT Brasil, o segundo maior telejornal do País. Cobriu viagens internacionais, acompanhou a presidência e passou uma semana na Paraíba, documentando a vida no sertão. Mas, mesmo no topo, a voz das raízes começou a falar mais alto.

O retorno ao solo

Em São Paulo, nasceu Isabela. Com a filha nos braços, a métrica do sucesso de Carol mudou. O brilho dos refletores nacionais não substituía o desejo de que as crianças crescessem perto do avô Newton e do pôr do sol do Guaíba. A decisão de retornar ao Rio Grande do Sul veio acompanhada da oportunidade de, além de âncora, também ser a editora-chefe do ‘RDC News’, telejornal principal da extinta RDC TV.  “Eu participei da concepção do programa. Não queríamos bancada e buscamos referências em programas internacionais para construir a estética do telejornal”, conta sobre a fase que durou quase três anos e oportunizou o público a acompanhar a gestação do seu filho mais novo. E foi após essa experiência que a jornalista passou a integrar o time da RBS TV. 

Hoje, a rotina dela é uma engenharia de horários. Desperta às quatro da manhã, prepara seu omelete em silêncio para não acordar a casa e parte para a TV. No estúdio, entre um bloco e outro, a tecnologia serve de ponte: ela monitora Isabela e Gabriel pelas câmeras de segurança da casa. “A mamãe está sempre trabalhando, mas ali a pouco estou olhando na câmera se já acordaram, se já estão vestidos”, revela. O sucesso, para ela, agora se manifesta no momento em que busca os filhos na escola, no treino de CrossFit às quatro da tarde ou no churrasco árabe preparado pelo pai.

A visão de 2036

Ao projetar o futuro, a jornalista de 41 anos não enxerga a linha de chegada. Em um mundo onde a inteligência artificial ameaça automatizar a notícia, Carol aposta na credibilidade baseada na empatia – algo que as máquinas não fabricam. Ela se projeta daqui a 10 ou 20 anos ainda contando histórias, sentindo o “frio na barriga” antes de cada entrada ao vivo e sendo a voz que humaniza o cotidiano dos gaúchos. Para ela, o Jornalismo sempre será sobre dar voz a quem não a tem.

Sua trajetória é um testemunho de que é possível ser uma profissional de alta performance sem abrir mão da doçura e da bagunça doméstica que ela admite cultivar. Carolina Aguaidas não apenas informa o Estado; ela o sente. Entre o samba ‘O Show Tem Que Continuar’, que carrega como lema de vida, e a leitura de biografias ou de Érico Veríssimo, ela segue em frente. Ao final de cada transmissão, quando as luzes se apagam, o que resta é a satisfação de quem vive em absoluta harmonia com suas escolhas, pronta para que o show continue, com a coragem de quem descobriu que o melhor lugar do mundo é sempre onde o coração encontra repouso.

Autor

Ilana Xavier

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