Um espírito empreendedor é o que move a vida de Vitor Zatti Faccioni. Criado em meio a políticos e empresários, o que sempre soube é queria ter seu próprio negócio. A família de sua mãe é dona de uma indústria de casas pré-fabricadas, a Madezatti, que chegou a ser uma das cinco maiores empresas do Estado. Seu pai, também chamado Vitor Faccioni, é um influente político de Caxias do Sul, que se elegeu deputado estadual pelo PPB em 1966, quando o pequeno Vitor e seu irmão gêmeo tinham 11 meses e sua irmã mais velha menos de dois anos.
Assim, a família se mudou para Porto Alegre, onde as crianças se criaram. Apesar disso, avós e tios permaneceram na cidade natal, para onde Vitor e os irmãos iriam com freqüência e acabariam desenvolvendo grandes amizades. “Descobri Caxias, em termos de galera e parcerias, quando adolescente. Também podia sempre rever os amigos de lá nos verões, em Torres”, recorda. A primeira idéia de Vitor para levar adiante sua vontade de empreender foi ser fazendeiro. Gostava muito do campo e pensou que poderia cursar Agronomia, sem perceber que ser agrônomo é uma coisa e ter as fazendas, outra, bem diferente e mais complicada. “Ainda bem que eu descobri isso logo, a tempo de desistir”, se diverte ao lembrar. Sua grande referência era o negócio da família, que, embora fosse forte, estava vulnerável. Então, com apenas 15 anos, optou por procurar um trabalho para poder comprar uma prancha de surfe. Durante o mês de dezembro, foi empacotador das lojas Renner. No ano seguinte, voltaria ao trabalho nessa época, mas daí já como vendedor. Já nessa época, atuou como representante de confecções catarinenses. E aos 17 anos, trabalharia durante todo o ano, em outra empresa do Grupo Renner, uma corretora de seguros. O objetivo já era maior que uma prancha: uma viagem de três meses aos Estados Unidos. Realizando um sonho De volta ao Brasil, começou a cursar Administração e a realizar o sonho do negócio próprio. Montou uma distribuidora de perfumes da linha Pharmantiga. Vitor comprava os produtos e vendia para lojas, como Renner e Lyra, e também de casa em casa, através de uma rede que formara quando percebeu que a margem de vendas era maior nesse sistema do que para o varejo. O empreendimento durou dois anos até que a empresa resolveu montar lojas próprias e o dispensou. “Eu fui contra, claro, achava uma idéia equivocada e ainda iam acabar com a figura do distribuidor, mas no período em que trabalhei com a marca consegui juntar um bom dinheiro e aprendi a lidar com a inflação”, conta. Sem trabalho, resolveu procurar vagas em grandes empresas, especialmente em multinacionais, para ter essa experiência. Das que teve acesso, conseguiu um retorno da Editora Abril, em 1988, e passou a ser contato, atuando junto à região da Serra gaúcha. “Acabei na comunicação, portanto, por acaso, eu não busquei isso, foi uma conseqüência, porque minha origem é de vendas”, explica. No ano seguinte, um colega na editora alertou sobre a possibilidade de representar a MTV Brasil em Porto Alegre. Os dois foram a São Paulo e se depararam com um projeto novo, que não conseguia se vender. Vitor achou que trazendo a emissora para a Capital aumentaria o volume de vendas, a partir da instalação de seu sinal, o que ocorreu em 1991, um ano depois de entrar no ar em São Paulo. Dívida nunca mais! Então, foi atrás da grana para implantar o projeto. “Até aí, sempre tinha empreendido assumindo todos os riscos, fazendo o dinheiro girar no próprio negócio. Mas para instalar uma emissora seria necessário um empréstimo”, recorda. Com 80% de inflação ao mês, não valia a pena fazer financiamento, o que o levou a pedir dinheiro aos parentes. Pretendia pagar tudo em um ano, mas três anos depois não conseguira devolver um centavo, o que deixou Vitor desesperado: “Foi a primeira vez que fiquei devendo e nunca mais quero dever na vida. Não adiantava desistir, porque àquela altura, mesmo vendendo todo o equipamento, não conseguiria pagar o que estava devendo. O jeito era insistir até dar certo. Foi uma experiência interessante e dolorosa. Acho que não existe crescimento sem dor. Aprendi muito, descobri que para o negócio dar certo, é preciso ter o fôlego necessário para esperar dar certo. Vai se achando o caminho, conforme vai se aprendendo a fazer o negócio”. Esses primeiros anos da MTV Brasil foram difíceis, porque até o quinto aniversário da emissora, ela pertencia 100% ao Grupo Abril. A empresa aparentava não se preocupar em ter lucros, já que poderia cobrir possíveis prejuízos. Depois de cinco anos, terminou o contrato de experiência entre a Abril e a Viacom, que é a dona da MTV no mundo, e esta passou a ser sócia no País. “A partir daí, as coisas começaram a melhorar. Consegui pagar o que devia e, quando o projeto passou a dar lucros, fiz o que considero fundamental para o negócio dar certo: reinvesti tudo o que entra”, conta Vitor. A Vit Music, a afiliada da MTV Brasil no Rio Grande do Sul, hoje, tem registrado um crescimento de 20 a 30% ao ano, o mesmo de São Paulo. Uma vida com a MTV Vitor é o diretor-geral da Vit Music e diz que, apesar de sua entrada no ramo da comunicação ter se dado “por uma coincidência”, não pode mais imaginar sua vida em outra área: “A MTV representa a vanguarda, a segmentação, representa exatamente o que o mercado precisa”. O executivo explica que, ao contrário das concorrentes, a emissora cobra proporcionalmente ao que entrega, pois foca a necessidade do cliente e não o espaço comercial. “Vendemos resultados e não espaço. É por isso que temos crescido tanto. Temos uma audiência consistente no segmento jovem A, B e C. Não tem melhor investimento do que a MTV”, afirma, lembrando que também tem seu negócio e sabe que quando se tira um dinheiro do bolso, ele tem que voltar depois: “Parece óbvio, mas os outros veículos não pensam assim.” Vitor conta inclusive que já dispensou clientes por entender que o público da MTV não correspondia às suas necessidades ou por considerar que a verba disponível não era suficiente para gerar um trabalho consistente e com resultados. Ele diz que recebe seguidamente convite para representar outros veículos. Fica feliz, agradece o convite, mas não aceita, pois se identifica integralmente com a filosofia da MTV. “Há um abismo entre a nossa forma de operação e a das outras emissoras. Hoje, tenho muito espaço para a criatividade, o que considero fundamental, não poderia mais trabalhar sem poder criar”, justifica. E os clientes reconhecem isso, tanto que a grade de programação já não tem mais espaço para novos anúncios até o final do ano. Cases de sucesso Dentre os projetos criados pela MTV, Vitor destaca o Olympikus MTV Rock Gol, o Kildare Turnê Acústico MTV Ira!, a Claro TV, os Sup`s Detran, o Coca-Cola Music Mixer e o Quiz Feevale. São todos cases de sucesso. Os Sup’s (Serviços de Utilidade Pública) Detran, por exemplo, são programetes desenvolvidos em parceria com o Departamento Estadual de Trânsito/RS, com a participação de bandas gaúchas e que são transmitidos em rede nacional, durante o intervalo. Foi a primeira vez que um projeto de Sup’s foi desenvolvido fora de São Paulo. “Nosso conceito de intervalo é o ‘art-break’. Dentro do break, além dos comerciais, tem programação: os ID’s (brincadeiras com o logo da emissora desenvolvidas por todas as MTV’s do mundo), os Sup’s, os cromos (brincadeiras com artistas), entre outros, como explica Vitor, apontando mais um fator de identificação dele com o veículo. Apesar de dizer que é sempre um grande desafio fazer com que São Paulo aceite um projeto criado por uma afiliada, a Vit Music nunca teve uma idéia rejeitada pela MTV Brasil: “Mas com certeza é mais fácil vender as propostas para o mercado, do que a realidade local para fora!” O projeto desenvolvido com a Coca-Cola, em parceria com as rádios Atlântida, Ipanema e Pop Rock, teve mais músicas inscritas num concurso de bandas do que evento similar realizado nacionalmente no mesmo ano. E a banda vencedora está com contrato assinado com a gravadora Orbeat. Ter rádios como parceiras de seus projetos já é uma constante na MTV. Isso ocorreu ainda com o Quiz Feevale, desenvolvido junto com a RBA, agência da universidade. “Não temos a pretensão de ser a única emissora voltada aos jovens”, explica Vitor. E para conhecer bem esse público, a MTV já realizou duas grandes pesquisas, que fizeram tanto sucesso, que foram disponibilizadas para o mercado. Vitor também se orgulha da turnê do Ira!, um projeto da Kildare, que teve os ingressos esgotados dias antes dos shows. Paixões em casa e no trabalho O trabalho constante e muitas vezes à noite não impede Vitor de curtir sua família. Ele nunca está exausto e atribui isso ao fato de trabalhar com paixão. Outra paixão é o filho Luca, de dois anos. Como o bebê acorda cedo, ele pode dedicar boa parte da sua manhã, antes de ir trabalhar, ao filhote. E afirma que a coisa que mais gosta de fazer quando está em casa é “apertar o Luquinha”. “Ter um filho era um sonho e deixei para realizá-lo num momento em que pudesse curtir bastante”, conta o executivo, que vive há sete anos com Márcia, também atuante na área de marketing. Também se dedica muito ao esporte, pelo menos três vezes por semana caminha e sempre que possível sai para pedalar, levando o filho no banquinho. Charutos e vinhos também são prazeres indispensáveis. Vitor ainda encontra tempo para integrar diversos conselhos: é vice-presidente do Conselho Deliberativo da TVE e da ACPA (Associação Comercial de Porto Alegre) e membro do Comitê Estadual para o Desenvolvimento Integral da Primeira-Infância. Vitor diz que sua rotina pessoal é o trabalho, seus amigos têm relação com sua atividade, suas festas são relacionadas à MTV. “Não tem nada que eu faça que não tenha relação com o trabalho, ler jornal é trabalho. Para mim não tem desopilar, eu desopilo trabalhando. Faço isso com tanto prazer, que só falar a respeito já é uma coisa muito gratificante”, conta.
