Jovem, alegre, sincero, louco pelo Grêmio e muito falante – o que, segundo ele mesmo, seria uma forma de esconder a timidez. Assim é o publicitário Tiago Coelho Russel Soares, conhecido como Tiago Russell. “Faço questão de manter esse sobrenome porque sou a última geração dos Russell”, explica ele, falando do sobrenome do avô materno, descendente de ingleses. Tiago também vai logo avisando que, apesar de trabalhar com criação, não gosta de “marcas”. “A sua personalidade tá na forma que você se veste, mas não na marca da roupa, você não é o que quer que os outros pensem de você”, diz.
O publicitário, formado em 1999 pela PUCRS (Pontifícia Universidade Católica), começou a carreira na agência Método, depois foi para a Acori, onde trabalhou com o Eduardo Vanoni, que um ano depois o levou para a SLM. E é na sala de reuniões desta agência, da qual é redator há quatro anos, que Tiago conta que está em clima de despedida. Está se preparando para um novo desafio profissional: vai atuar na Competence. “Aqui na SLM trabalho com propaganda corporativa, na Competence vou fazer o varejo. Os comerciais vão estar direto na mídia e o retorno é imediato, vou saber na hora se estou trabalhando bem ou não”, conta com entusiasmo, entre um gole e outro de café.
É com este mesmo entusiasmo que fala do Clube dos Jovens Criativos, criado em 2003 e do qual é um dos fundadores. “O Clube foi criado apenas para amadurecer os profissionais do mercado, mas a propaganda estava tão por baixo, estávamos tão carentes, que a idéia tomou uma proporção maior do que a imaginávamos”, comenta. Com apenas dois anos de criação, o Clube dos Jovens Criativos é uma referência para os profissionais do mercado publicitário. “Todos os meses realizamos dois eventos, o Lavanderia, onde discutimos assuntos de mercado, e o Espremedor, onde convidamos um profissional renomado e tiramos dele tudo que ele tem para nos ensinar”, explica.
Família, mas nem tanto assim
Filho do consultor financeiro Luiz Maurício Soares e da professora de francês Rosângela Russell Soares, Tiago nasceu em Porto Alegre no dia 15 de junho de 1976, mas, apesar de ter vivido na capital a maior parte dos seus 29 anos, são do interior as melhores lembranças da infância. “Quando eu estava na segunda série moramos seis meses em Bagé, onde meu pai foi trabalhar. Lembro das brincadeiras com os colegas e do frio da cidade que me obrigava a usar um macacão de astronautas da Nasa, presente trazido dos Estados Unidos pelo meu pai e meu tio.”
As lembranças das férias na fazenda da família em Santa Maria também estão muito presentes. “Adorava brincar de gente grande, passava o dia montando a cavalo, ajudando os peões a tocar o gado. Na verdade, acho que mais atrapalhava do que ajudava”, sorri. “Também adorava me juntar com meus primos para roubar os bolinhos de chuva da cozinha dos empregados “, relembra.
Há dois anos, o publicitário achou que era hora de se virar e sair de casa, uma decisão difícil, principalmente porque a mãe não aceitava. “Ela ficava brava, não falava comigo, mas agora já se acostumou e está tudo bem. Não adianta, é a evolução da vida”, diz ele, que não se considera muito família. “Sou ligado a eles, mas sempre quis ter o meu canto”, argumenta. Hoje, mora perto da casa dos pais e sempre que sente saudade faz uma visita a eles. “Não tem regra, vou quando sinto vontade, mas acho que pelo menos duas vezes por mês dou uma passadinha por lá”, revela. Outro compromisso que tem é com a avó e tia-avó. “Sou procurador delas, pago contas, demito e contrato empregadas, coisas assim”, explica.
O publicitário tem dois irmãos, Carolina, que é a mais jovem, e o Cássio. “Tive também o Rafael, mas ele faleceu quando eu tinha dez anos. Foi num acidente de carro”, conta passando a mão pelo rosto, mostrando discretamente uma certa emoção.
Solteiro, mas bem acompanhado
Solteiro, o publicitário revela que adora estar com os amigos “na balada” , mas às vezes prefere ficar sozinho, quieto no canto dele. “Minhas namoradas sempre sofrem com isso”, revela. Há quase um ano, ganhou a companhia da cachorra Ila: “Ela é vira-lata, mas é muito bonita, encontrei ela presa em uma corda de varal, quase se enforcando. Levei até uma Ong que cuida de animais, mas estava sempre preocupado, perguntando por ela, então resolvi levá-la para casa”, conta Tiago, que diz ter mudado a rotina por causa do animal. “É um compromisso; quando posso vou para casa mais cedo para ficar com ela ou acordo mais cedo de manhã e levo ela para passear”.
Mas vida de solteiro tem suas desvantagens, e Tiago percebe isso na hora das refeições. “A comida acaba estragando porque tudo é muito para uma pessoa só, então sempre convido um amigo ou amiga para jantar fora ou acabo pedindo comida em casa”. Ele garante que come de tudo, menos mondongo. “Gosto de experimentar. Em 2003, quando fui no Festival Mundial de Propaganda em Cannes, chegava nos restaurantes e pedia pratos desconhecidos, claro que algumas vezes me dei mal, mas foi válido conhecer comidas diferentes”, conclui.
Nas horas de folga Tiago gosta de curtir a casa. Costuma ler muito, assistir filmes e escrever contos inspirados no momento que está vivendo. Prefere livros de história, biografias ou “aqueles que misturam personagens reais em histórias de ficção, como Quando Nietsche chorou.” Já filmes, só dispensa as comédias. É eclético também no que ouve. “Sou curioso e escuto todo o tipo de música pelo menos para conhecer. Gosto de Placebo, Strokes, Queens of the Stone Age, só não gosto muito de axé e pagode, mas se for a uma festa e estiver rolando esse tipo de som, tudo bem”, conta ele.
Com a chegada do verão, Tiago começa a passar os fins de semana na praia onde pratica surfe. ” Vou para Capão ou Atlântida e em Santa Catarina prefiro a Gamboa, que tem boas ondas e pouco movimento, porque é bom não ter muita gente disputando onda para conseguir surfar em paz”, diz. Outro esporte que o publicitário pratica é o boxe, e também gosta de andar de bicicleta. Mas sempre à tarde ou à noite porque não gosta de acordar cedo.
Ele diz ter vários grupos de amigos e que a tentativa de unir todos eles foi um fracasso. “Tem o grupo de amigos de infância, o da faculdade, o dos judeus e agora o dos novos paulistas, que são publicitários gaúchos que estão morando em São Paulo, fico me dividindo entre eles”, diverte-se.
Por que, porque, porquê e por quê?
Antes de ser publicitário Tiago não escapou de tentar outro curso, não por opção mas por pressão familiar. “Tenho uma tradição de advogados na família, um primo é Procurador de Justiça do Estado, quando falava que queria fazer propaganda me diziam que isso não dava dinheiro. Não tive opção e acabei tentando o Direito, mas gosto muito de questionar as coisas e por isso desisti do curso, “conta ele. “Adoro a palavra porque, tanto que ela tem quatro formas para ser escrita, acho fantástico. Não aceito as coisas simplesmente porque elas são do jeito que são, tem que saber o porquê?”, diverte-se.
Aliás, questionar é, segundo ele, uma de suas qualidades além da sinceridade. “Considero qualidades, embora às vezes muita gente se ofenda com as verdades”, diz, destacando que “falar demais na hora em que tenho que ficar de boca fechada é meu pior defeito, eu acho”, conclui.
Talvez a única coisa que Tiago não questione seja a vida. Vive um dia depois do outro e não costuma fazer planos, gosta de estar sempre ligado no momento. Garante que não descobriu ainda o segredo do sucesso e diz entre risos, “se eu descobrir não conto pra ninguém”.
Para o futuro, não tem grandes planos. “Espero envelhecer com a cabeça aberta para não desperdiçar grandes idéias de novos publicitários, e daqui a dez anos espero estar rico”, diz esclarecendo – de forma não convincente – que é brincadeira.
Revela gostar muito de duas frases: “Não faça com os outros aquilo que não quer que façam contigo”, e “Toda rebeldia requer pensamento”, esta última de Howard Jacobs, um punk inglês que estuda a mitologia das mitocôndrias, esclarece. Se dedica ao trabalho, curte os amigos, a família e deixa a vida rolar, aproveitando as oportunidades que ela oferece. Assim o redator do mundo publicitário vai redigindo a sua história.

