Perfil

Arthur Monteiro: Rebelde por natureza

Ele já passou por diversas redações do Sul do país, sempre na defesa de causas que considera nobres e pregando o conceito de que “sem crítica, não há jornalismo”.

Com mais de 40 anos de jornalismo – profissão que começou a exercer com 17 –, Arthur Monteiro sempre fez jus à fama de contestador e justiceiro em todas as redações que trabalhou. Resistente à ditadura e, às vezes, até aos editoriais dos veículos, ele já encarou governo, grandes empresas e inclusive foi afastado dos jornais. Hoje, é pai de três filhos, e dois deles colaboram com o crescimento da ABC Digital, uma agência de notícias um tanto peculiar. Pintor nas horas vagas e cozinheiro de mão-cheia, ele garante que não pretende, nunca, parar de fazer duas coisas: escrever suas matérias e “encher o saco” das pessoas.

Arthur Tadeu Dutra Monteiro nasceu há 58 anos em Taquara, interior do Rio Grande do Sul, e viveu toda infância e adolescência no bairro Floresta, em Porto Alegre. Filho de um ferroviário e de uma dona-de-casa que tinham mais cinco crianças para criar, aos 14 anos começou a luta para botar dinheiro dentro de casa. Era um belo desenhista – “aliás, ainda sou até hoje” –, e por isso não foi difícil arrumar um emprego num escritório de arquitetura, onde colocava no papel as plantas das construções. “Naquela época, guri não escolhia trabalho. A molecada tinha que ralar, e não existia esse negócio de exploração infantil”, lembra. Nesse escritório, Arthur conta que, enquanto os funcionários passavam o dia todo ouvindo rádio, um placar pregado na parede marcava quantos americanos e quantos vietcongues morriam no início da guerra que iniciava: “Os vietcongues eram os mocinhos. Cada vez que a gente acrescentava um ponto aos americanos, era uma comemoração”.

Pouco tempo depois, em 1963, conseguiu um emprego de revisor no Jornal do Comércio, graças ao seu cunhado – “Carlos Átila, um verdadeiro anjo da guarda” –, que era editor no veículo. Depois de quase dois anos exercendo a mesma função, foi chamado pelo editor-chefe para cobrir o aumento do preço do pão, já que não havia repórter disponível para cumprir a pauta. “A partir daí, nunca mais consegui largar o jornalismo. Eu pensava em ser médico, mas nem tive tempo de escolher uma profissão”, conta. Após servir o Exército, e assim “aprender a detestar ainda mais os militares”, ingressou na sucursal do Correio da Manhã, onde participou de uma revolução na editoria de Economia do jornal, liderada por Políbio Braga: “As reportagens só divulgavam as visões dos presidentes das entidades. Nós começamos a fazer críticas, a ouvir também pecuaristas, empresários, trabalhadores”. Tudo isso em tempos de ditadura, lembremos. A parceria rendia bons frutos e, quando Políbio transferiu-se para a Folha da Manhã – em 1972, o veículo mais resistente à censura no Estado –, levou Arthur junto. “Aí, sim, era uma guerra diária contra a ditadura. Nem lembro de quantas páginas minhas foram censuradas”, diz ele, que se tornou editor de Economia do jornal.

Denúncia para mais de metro

Mudou-se para Blumenau, em Santa Catarina, em 1975, e foi trabalhar na sucursal da empresa Caldas Júnior, escrevendo para Folha da Manhã, Folha da Tarde e Correio do Povo. Lá, denunciava com freqüência o descaso do governo, de fábricas e de indústrias com a quantidade de gases e substâncias tóxicas que desembocavam em rios e ribeirões do Estado. Ele lembra que foi o primeiro jornalista a redigir uma matéria denunciando empresas que desrespeitavam o meio ambiente, uma causa que lhe provocava revolta: “Eu ficava enlouquecido com o aspecto que aqueles rios ficavam”. Quando as sucursais da Caldas Júnior fecharam em Santa Catarina, Arthur foi atuar como assessor de imprensa do prefeito de Blumenau, Renato Viana (PMDB), e ainda teve passagens pelos jornais O Estado, A Notícia e O Globo – sempre trabalhando nas sucursais da cidade. “Também falei alguns palavrões na Rádio Unisul, mas o diretor não gostou muito”, recorda.

Ao ingressar no Jornal de Santa Catarina, em 1985, descobriu que o governo queria derrubar o Cavalinho Branco, um verdadeiro patrimônio arquitetônico de Blumenau. “Eu vi derrubarem muitos prédios maravilhosos em Porto Alegre, e botei na cabeça que não deixaria isso se repetir em Blumenau”. Não perdoou: “Publiquei uma nota de 12 linhas informando esse absurdo”. Nunca derrubaram o prédio. Numa luta incessante pelas causas sociais e pela preservação do meio ambiente, ele não hesitava em usar sua autoridade de chefe de redação para publicar nomes de empresas e de personalidades que desrespeitavam a natureza. “Não era comum os jornais divulgarem quem eram esses criminosos”, lembra. E não era nada comum, naquele tempo, os veículos criticarem qualquer coisa que fosse. Mas, para Arthur, “sem crítica não há jornalismo”. E assim, “nós implantamos em Santa Catarina esse conteúdo mais contestador”.

Tango e feijoada

Após liderar inúmeras brigas pelo estímulo do debate em associações de bairro, por um salário mais justo à classe jornalística e pela valorização de questões sociais, em 1990 ele foi completamente afastado das redações, numa espécie de exílio profissional. “Não podiam me demitir, porque eu era dirigente sindical. Aí, me pagavam um belo salário para eu passar as tardes jogando bola com o meu filho”, conta. Em 1992, então, voltou a trabalhar com Renato Viana – que se reelegia prefeito de Blumenau – e deu a volta por cima. Tornou-se o secretário de Comunicação do município. “Estimulávamos muito a comunicação comunitária. Mais de 10 jornais de bairro foram criados em bem pouco tempo”, recorda.

Foi o trabalho com Viana que o levou a morar em Brasília, em 1999, quando assumiu a coordenação da assessoria de imprensa do político, que voltava a ganhar uma cadeira no Congresso como deputado federal. Quando a gestão terminou, em 2003, Arthur fundou a ABC Digital – Agência Brasília de Comunicação –, um site que divulga notícias de interesse de Santa Catarina geradas na capital do país, abastecendo gratuitamente redações de diversos veículos do Estado. Atualmente, além de seguir à frente da ABC, também é assessor de imprensa do deputado federal Paulo Lima (PMDB-SP).

“Tudo passa na vida. Só não passa o Grêmio e a família”, alerta. Arthur é gremista ardoroso – “O Internacional é uma grande mentira, a começar pelo nome, que devia ser “Nacional” ou “Regional”. Aqui no Sul, só tem um time internacional: o Tricolor” – e é pai de três filhos, que nasceram de dois casamentos. Do primeiro veio Maria Alice, que leciona português no Equador e colabora como redatora para a ABC Digital. “Ela tem um pouquinho mais de 30… Mas não se revela a idade de uma dama”, escapa-se, esquecendo quantos anos a primogênita tem. Do segundo casamento nasceram Érico, de 20, que mora e trabalha com ele, e Félix, de 18, estudante de Ciências Aeronáuticas em Porto Alegre. Arthur e Érico moram no apartamento ao lado da agência, e todos os dias cozinham juntos, numa “relação excelente”, segundo o pai coruja. “Passamos o tempo inteiro grudados, e adoramos fazer feijoadas malucas no fogão à lenha”, sorri. Thelma, que é namorada do jornalista, também participa da rotina e ajuda na comida: “Faz uma carne assada maravilhosa”.

Uma cuba libre

Arthur avalia Brasília como uma cidade que “não tem papo furado” e que goza de um povo “culto e atualizado”. Assim, dá gosto de beber um chopp com os amigos quando o expediente termina – embora, às vezes, só pare de trabalhar depois das duas da madrugada. “Mas tenho pavor de bêbado doméstico. Para beber, tem que ser assim, com o cotovelo na mesa e com gente em volta para bater papo”, esclarece, lembrando que gosta mesmo é de cuba libre. Aos fins de semana, a festa é em outra casa, que Arthur comprou exatamente para desfrutar do convívio com a família e com os amigos. Fica num condomínio afastado da zona urbana de Brasília, e é lá que ele deixa de ser jornalista para virar pintor de quadros: “Honestamente, faço umas coisinhas bem legais. Criei uma técnica diferente, bem doida, usando fotos que eu mesmo tiro das pessoas”, garante, recusando-se a revelar mais segredos de suas habilidades.

Amante das artes, quando fala em música, sua modéstia lhe permite dizer que sabe cantar “mais ou menos”. Tango e bossa nova são seus gêneros preferidos, embora também seja vidrado no saxofone de Ben Webster, Gerry Mulligan e John Coltrane. No Brasil, idolatra Paulinho da Viola, para quem jura já ter cozinhado “um macarrãozinho, em Blumenau” – “quando ele entrou na minha cozinha, deu de cara com um pôster dele que eu tinha, em cima da geladeira”. Mas na região do Prata, não é apenas do tango que Arthur gosta: “Eu detesto essa cultura estúpida e gratuita de falar mal de argentino”. Segundo ele, Buenos Aires e Montevidéu estão entre os lugares mais fascinantes que já conheceu, mesmo já tendo passado por boa parte da Europa. “A arquitetura é encantadora, o povo é receptivo, a cultura é riquíssima. Adoro aqueles castelhanos”, empolga-se.

Arthur assegura que não nutre nenhum grande sonho e que seus projetos profissionais e pessoais giram em torno de continuar ampliando a ABC. “Enquanto eu continuar enxergando e escrevendo, meu amigo, não paro com o jornalismo”, garante. Porém, acrescenta que também não pretende parar de pintar seus quadros e de “encher o saco” das pessoas – “principalmente das que eu adoro”. Enfim, o jornalista se define como um “guasca andejo”, um intrépido andarilho que segue a vida sem se apegar a muita coisa, sem prever o dia de amanhã e sem superestimar a importância dos valores materiais. “Eu gosto é de chinelo de dedo, feijão com arroz, e de incomodar de vez em quando”, conclui.

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Redação Coletiva

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