Perfil

Valpírio Monteiro: Em formação transversal

Trabalho como indianista e cinco faculdades inacabadas fazem dele um designer que construiu seu conhecimento em camadas, numa formação transversal.

Valpírio Gianni Monteiro já fez de tudo antes de ser sócio-diretor do GAD” Branding & Design. Tocou em banda de rock, foi indianista e iniciou cinco faculdades diferentes – todas inacabadas –, só para citar alguns exemplos. Esse canceriano, nascido em Pelotas em 1º de julho de 1951, adotou Porto Alegre como lar desde os nove anos de idade, quando seu pai, gerente do Banco do Brasil, foi transferido para uma agência de Canoas.

A adaptação não foi fácil. Para quem vinha de uma cidade plana, era difícil a subida diária da Rua João Telles, onde morava, até o colégio Rosário, no qual estudou. “Em Pelotas, estava sempre vendo a linha do horizonte. Tive um choque de relevo, da percepção visual do meu entorno. Foi o primeiro contraste interessante”, conta. O primeiro, mas não o único. A escola também era novidade para Valpírio, que estudou a primeira série em casa, com professora particular. Choques à parte, hoje ele não pensa em outro lugar para viver: “Apesar de eu me adaptar bem, dificilmente moraria em outra cidade. A gente viaja bastante, mas vivo em Porto Alegre por opção, isso é importante. Aqui se tem uma boa qualidade de vida”, acredita.

Beatles e Rolling Stones

A adolescência, ele passou entre o curso ginasial Clássico, passeatas estudantis e a banda de rock Woodsface. Escolheu o Clássico, porque achava as pessoas mais interessantes. “Eu sempre fui muito visual e superficial, me fixo muito na superfície para, intuitivamente, trabalhar o conteúdo”, diz Valpírio, que tinha idéia fixa em cursar Arquitetura e teve que fazer um cursinho específico para prestar vestibular, já que só estudara Humanas no ginásio. “Foi bem bacana, tive essa formação em Latim, Filosofia, e um pouco de Sociologia”, justifica. Na banda, tocava contrabaixo e o repertório era basicamente cover dos Beatles e um pouco de Rolling Stones. “Teve o Woodstock, que mexeu com a cabeça de todo mundo, foi um evento que impressionou bastante a gente”, lembra. Paralelamente, freqüentava as passeatas de estudantes na Avenida João Pessoa, mesmo sendo destinadas apenas a universitários. Para não ser descoberto, comprou uma pasta da Faculdade de Filosofia. “O Centro Acadêmico da Filosofia era o mais politizado, então era legal ter a pastinha, uma coisa bacana”, esclarece.

Não passou no vestibular para Arquitetura e ingressou no “movimento dos excedentes”, um grupo que passou nas provas, obteve o grau mínimo de classificação, mas não pôde ingressar por falta de vagas. Arrecadaram dinheiro e foram a Brasília falar com o ministro Jarbas Passarinho, da Educação. Valpírio estava nessa comissão: “Queríamos conseguir verba suplementar para a Arquitetura, para disponibilizar mais 20 vagas. Não deu em nada o assunto”, lamenta. Assim, ingressou em sua segunda opção, Ciências Sociais. Depois de três anos de faculdade, convivendo com movimentos políticos, revisionistas etc., viu um cartaz sobre trabalho com índios: “Achei interessante, fiz um concurso para a Funai [Fundação Nacional do Índio], passei e me tornei técnico indigenista”, conta. Tinha apenas 19 anos e trancou a faculdade para fazer um curso de seis meses em Brasília. “Por isso que eu digo que minha formação foi transversal e muito irregular”, explica.

Aventuras na selva

Logo, foi transferido para uma aldeia na beira do Rio Madeira, no Amazonas. Ficava a três dias de barco de Manaus, em direção a Rondônia. “Fiquei três meses isolado, fazendo relatórios e voltei para Manaus, onde pedi transferência”, lembra. Então, foi enviado para uma região de conflitos no sul do Maranhão, o Bico do Papagaio, onde hoje é a divisa com o estado de Tocantins. Durante seis meses, a cada 30 dias, saía de São Luís, andava 14 horas de ônibus, entre asfalto e chão batido, até a pequena Grajaú. De lá, esperava cerca de quatro dias para lotar um jipe Willis que o levava até Amarante do Maranhão, numa viagem que levava 10 horas para percorrer 80 quilômetros. Depois, eram mais duas horas para chegar à aldeia dos índios Gavião, do grupo lingüístico Ge.

Uma aventura, na qual foi até preso! Em Grajaú, viu índios trocando coisas da aldeia por bebidas alcoólicas. Com apenas 20 anos, Valpírio deu uma de autoridade, fretou um jipe e os mandou de volta para a aldeia. Acabou sendo acusado por um capitão do Exército de cercear a liberdade de ir e vir. Depois de explicar o que estava acontecendo, que aquilo era contra a cultura indígena, que o próximo passo seria prostituir as mulheres – o que acabou acontecendo, mesmo –, foi solto. Ficou amigo do capitão e recorda que as únicas pessoas cultas, com as quais podia conversar na região, eram ele, o prefeito da cidade e missionários americanos que eram também antropólogos.

Um generalista absoluto

Não agüentou o isolamento: “Queria voltar, sentia falta de desafios intelectuais, enchi o saco da burocracia da Funai”, diz. “Pedi demissão. Não entenderam como é que um funcionário público federal pedia demissão. Era demais para a cabeça deles”, lembra. Teve que ficar três meses em Brasília, à custa do Governo, esperando os papéis de dispensa. De volta ao Rio Grande do Sul, em 1973, ingressou na Arquitetura da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), onde permaneceu por 10 anos e mais uma vez saiu sem se formar. “Foi um sofrimento esse curso!”, larga.

Nesse período, também estudou Regência e Composição, na Faculdade de Música, Jornalismo, na Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Ufrgs), e tentou diversas vezes ingressar na Arquitetura da Federal, sem sucesso. Mais recentemente, também se aventurou pela Publicidade e Propaganda, na Unisinos. “De certa forma, cursar um pouco de todas essas faculdades foi interessante, porque me deu camadas de experiência culturais absolutamente diferentes: o processo e a metodologia da Arquitetura, as humanidades das Ciências Sociais, o ritmo e a modulação da Música, os signos e a semiologia da Comunicação. Construí meu repertório em cima desses conceitos transversais, sou um generalista”, acredita.

Escrito nas estrelas

Além de fazer faculdades, Valpírio trabalhava. Primeiro foi roteirista do gibi “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, na Rio Gráfica Editora, onde iniciou uma parceria que dura até hoje. A ilustradora da revista era Bina, artista plástica com quem é casado há 29 anos. Ele derrete-se ao falar na mulher: “Ela é uma grande companheira. Percorremos todos esses anos, passamos por transformações e evoluímos juntos. Construímos um relacionamento bastante forte”, diz. Juntos, eles criaram outro gibi – Valpírio adora histórias em quadrinhos –, estudaram mitologias – tão a fundo que ele virou astrólogo e se dedicou a fazer cartas astrológicas – e abriram uma loja, a Demanhando, de roupas exclusivas que o próprio casal desenhava. Eles têm três filhos e todos atuam em Comunicação: Vitória, de 23 anos, atendimento na Agência Matriz, e os gêmeos de 21 anos Augusto e Alberto, respectivamente, redator da Matriz e produtor de vídeos da Clip.

Depois da editora, atuou na Grupografi, que fazia todo tipo de trabalho gráfico: conceituação, criação, layout, arte-final, fotolito, impressão… “Foi uma grande escola, fantástica em termos de aprendizado”, atribui. Foi nesse trabalho que começou a construir sua formação como designer. Em 1978, foi para a Palotti, onde teve contato com publicações editoriais. Junto com Jorge Polydoro, que fora seu colega na faculdade de Arquitetura, atuou ainda no Coojornal, diagramando algumas edições, e começou um projeto de identidades corporativas, que deu origem à Plural e depois à Via Design, empresa que terminou no início da década de 1990, segundo Valpírio, devido ao Plano Collor.

Sucesso profissional e pessoal

Em seguida, 1992, surgiu a oportunidade de se associar ao GAD” Design, hoje GAD” Branding & Design, onde atua como diretor de Criação. A empresa tem a característica de abordar o design de forma mais abrangente, não só como projeto, mas como processo. “Hoje, o design deixou de ser substantivo para ser verbo”, explica. Junto com a implementação do serviço de branding, o GAD começou a fazer um movimento para o centro do país. Com escritório em São Paulo, atende a clientes com atuação em diversos estados e é a maior agência de design e arquitetura do Brasil. Em sua carteira, estão Copesul, CPFL, RGE, Nacional, Paquetá, Claro, Oi, Unisinos e Bienal do Mercosul, entre muitos outros. Valpírio destaca como fatores de sucesso profissional e pessoal a boa relação que tem com os sócios e com a equipe que ele dirige.

Quando não está em viagens e compromissos do GAD, Valpírio gosta de se dedicar à família. Costuma viajar nos finais de semana para a Serra e para a Costa Doce, com a mulher, os filhos e seus respectivos namorado e namoradas. Adora jogar paddle, embora tenha ficado um tempo afastado do esporte devido a uma inflamação no cotovelo. Entre as paixões, também estão HQs, filmes, para ver tanto no cinema quanto em casa, e a música, que acompanha em DVDs. O baixo ficou no passado, mas um de seus filhos começou a aprender o instrumento, para a alegria do pai.

Toda a família vive junta, na subida da Rua Quintino Bocaiúva. Definitivamente, Valpírio perdeu o trauma do relevo porto-alegrense. Mas não deixou a característica da impulsividade: “Ainda quero fazer uma faculdade, mas não tenho nada planejado, sou muito impulsivo. Às vezes isso é ruim, mas comigo foi assim que se deu a formação dessas camadas que construíram minha expertise, instintivamente e intuitivamente”.

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Autor

Redação Coletiva

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