Jacqueline Therezinha Urroz Sanchotene queria ser bailarina clássica ou professora de História, mas a pressão familiar por estabilidade financeira a levou a prestar vestibular também para Economia. Não passou na História, na Ufrgs, e acabou ingressando na Economia da PUC, curso com o qual não se identifica em nada, embora só não tenha concluído por um semestre e tenha até atuado no mercado financeiro. Hoje, aos 44 anos completados em 21 de novembro, ela sabe que o quê viria a atraí-la de verdade era a imagem: “Minha intuição me dizia que o caminho era por aí: imagem e movimento”, revela. Foi por acaso que ela finalmente cumpriu seu destino. Por volta de 1990, um amigo a convidou para atuar como contato free-lancer na RBS Vídeo-Empresa: “Passei a ter sucesso nessa área, captando alguns trabalhos, até que chegou o momento em que outras empresas começaram a me procurar para fazer a mesma atividade para elas”, lembra.
Passou pela TGD e pelo Coletivo de Produção, até que formou sua própria empresa, a Táxi Atendimento Multimídia: “Eu ia nas agências de publicidade, apresentava aqueles portifólios, olhavam, me chamavam… Tinha que ter agilidade e achei que Táxi era um nome bacana”, justifica. Ela representava a extinta MT Vídeo e a Lancaste Motta, que hoje é a Gato Amarelo, produtora de animação. Em meados da década de 90, seu trabalho já era reconhecido e Jacqueline passou a receber propostas para captar recursos para projetos culturais. Seu primeiro desafio foi um média-metragem do cineasta Jaime Lerner: “Não tive muito êxito. Era uma coisa nova e acho que eu não soube batalhar o suficiente”, lamenta.
Negócios cinematográficos
Foi com “Anahy de las Misiones”, produção de 1997, que seu trabalho deslanchou: “Aí sim eu tive bastante sucesso, considero o “Anahy” meu primeiro filme e tenho um carinho especial por ele”, confessa. O inusitado é que Jacqueline não era grande fã de cinema antes de começar a atuar na área. “Adoro televisão, acho muito bacana, o máximo, no Brasil, deu certo, como entretenimento e como negócio. Tomara que ela interaja mais com o cinema. Hoje, eu vou bastante ao cinema, antes não ia muito, mas agora posso até dizer que eu entendo do assunto”, brinca. A representação de produtoras ficou em segundo plano a partir disso.
“Quando eu vi, 90% do meu tempo eram dedicados a projetos culturais. Chegava nas empresas para captar recursos e me perguntavam o por quê de “Táxi”. Quando tu tens que explicar muito, o nome perde o sentido. E também eu vi que o meu nome dava mais credibilidade. Chego com um monte de papel, que só vai ser um filme, só vai acontecer daqui a três, quatro anos. Meu nome no projeto dá alguma confiança”, explica Jacqueline. Foi por isso que sua firma passou a se chamar Jac Sanchotene Marketing Cultural. Hoje, ela se divide entre os projetos sociais e culturais, com foco, principalmente,
Envolvida com a comunidade
O envolvimento com o social começou em 2004, quando participou como voluntária de um dos projetos de Ruth Cardoso, o UniSol: “Era um projeto muito legal e eu captava recursos para as ações acontecerem. Colaborei durante um ano e meio”, conta. Com isso, o Sebrae do Rio Grande do Sul convidou Jacqueline para atuar no projeto Pampa Gaúcho. Há oito meses a profissional atua exclusivamente para a entidade, na área social. Mais recentemente, Jac firmou contrato com a construtora Rotta Ely para ser uma espécie de gestora do Espaço Rotta Ely, centro cultural que a empreiteira abriu, em 11 de dezembro, na Rua Padre Chagas. “A idéia é fazer uma programação pop, inusitada, moderna e com qualidade. É um espaço de convivência, de relacionamento. Eu tenho que formatar esse programa e buscar a autossustentabilidade do centro. É um novo desafio”, empolga-se a produtora, que já está cheia de planos para o lugar, como palestras e exposições de Allan Sieber, Roberto Miguens, Otto Guerra, Fernando Gabeira, Hans Donner e Marcos Palmeira.
Jacqueline também anda muito envolvida com a revitalização do Gasômetro. Há um mês e meio, ela se mudou da “casa chique”, no Moinhos de Vento, para o centro da cidade e vive exatamente em frente à chaminé da Usina. “Morava numa zona bem valorizada e não me sentia feliz lá. Eu acho que a gente tem que buscar ser feliz. Percorri a cidade de bicicleta procurando uma nova casa e cheguei à conclusão que era esta”, avalia, mostrando seu lar. A produtora sofreu de alopécia, doença causada pelo estresse, que provocou a queda de seus cabelos. A casa está em construção e Jac se vira num pequeno espaço enquanto aguarda o fim da obra, mas está realizada. “Este é um dos lugares mais bonitos de Porto Alegre. Sento no meu sofá e vejo o pôr-do-sol pela janela, à tardinha me reúno com meus vizinhos para beber um mate ou um champagne. Outro dia, mal precisei sair de casa para ver o Inter passar em carro aberto e comemorar que somos campeões do mundo!”, diverte-se. “Fora isso, atravesso a rua e tenho um grande centro cultural, uma marina pública, o Museu do Trabalho em frente de casa. Tenho até uma vara para pescar no rio”, complementa.
Quem não protesta concorda
Mas nem tudo é perfeito: o lugar está abandonado pelo poder público. “Desde que comprei o terreno, só via lixo acumulando nessa praça, ratos circulando. Eu me ofereci para ajudar na captação de recursos por melhorias, pedi diálogos, tentei o secretário do Meio Ambiente, mas não consegui. Fiquei muito irritada, porque tem que ter caminho para pedestre, lixeiras apropriadas, coleta seletiva de lixo, iluminação”, reclama. “Nós temos que fazer alguma coisa por essa praça, mas a solução não é particular, porque 38% dos negócios que eu fecho vão para tributos. Para onde vai esse dinheiro? Se nós não protestarmos, concordamos com a situação”, acredita, por isso, fundou o movimento Viva Gasômetro. Com o apoio do amigo Christian Lavich, da Fundação Gaia, tem tentado conscientizar a população e os carroceiros para não jogarem lixo na praça e cobrado dos garis que recolham o lixo depositado no local correto, o que não acontecia.
Ainda com relação à preservação ambiental, Jac acredita no sucesso de um projeto em especial para o qual captou recursos: “Lutzenberger: For Ever Gaia”, sobre a vida do ambientalista e que mescla animação com documentário. A produtora anda encantada com esses dois estilos e também está esperançosa em relação aos documentários “Crioulo, o cavalo do sul da América” e “Expedição A”WE”, além dos filmes de ficção “Bia Bisa, Bisa Bel” e “É Proibido Fumar”, entre outros.
Prazeres simples
Jacqueline tem uma filha, a estudante de Jornalismo Greta, de 19 anos. A jovem está morando com o pai, José Fagundes de Melo Neto, enquanto espera que sua nova casa fique pronta. Atualmente, Jac está solteira e, além de curtir a filha, gosta de estar com os amigos, beber um bom vinho e assistir o pôr-do-sol no Guaíba. Para se dedicar ainda mais a este último prazer está construindo um grande terraço na casa: “Será um terraço ecológico em alguns pontos. Eu quero poder dividir esta vista com as pessoas de quem eu gosto, que seja um local de confraternização”, decreta.

