Perfil

Lupi Martins: Convívio com presidentes

Assessor da presidência da República por 36 anos, não possui curso de Jornalismo, o que nunca trouxe dificuldades.

Recém-aposentado, o jornalista Lupi Martins, 63 anos, agora tem tempo para contar as histórias de mais de quatro décadas de carreira, iniciada no município gaúcho de Montenegro. Segue sendo um cara simples, tranqüilo, que se preocupa em agir com humildade, apesar do invejável currículo e da longa duração de cada atividade que exerceu. “Possuo alguns recordes: 36 anos na assessoria presidencial, 25 anos na ‘Voz do Brasil’ e 25 anos cobrindo o Grêmio”, explica. É irmão de Lasier Martins, o respeitado comunicador, mas alcançou sucesso na profissão sem a ajuda familiar. Do jornal do colégio para a rádio, da rádio para a televisão, Lupi conviveu com oito presidentes da República, cobriu futebol, praticou esportes radicais, criticou, informou e vivenciou muita coisa que se orgulha em contar: “Minha carreira no jornalismo iniciou sem querer”.

Psiu!

No Colégio São João Batista, em Montenegro, onde estudava, Lupi foi convocado para organizar uma festa, para a qual convidou o padre Augusto Dalvit, figura conhecida na época, para dar uma palestra aos alunos. Porém, o diretor transferiu o evento para o auditório de outro colégio, por ser maior, e mandou apenas uma representação de estudantes do São João Batista. Isso incomodou Lupi, que além de protestar na rádio do colégio, onde anunciava os jogos do final de semana, escreveu um texto intitulado ‘Psiu!’ e colou no mural. Criticava ali a “falta de consideração” da diretoria em mandar apenas uma representação dos alunos para acompanhar a palestra do padre, já que eram os organizadores.

O professor de Português gostou da iniciativa e convidou o jovem atrevido a continuar escrevendo o Psiu! para colar no mural, desde que não criticasse mais a diretoria. “E ali eu estava começando minha carreira sem me dar conta. Era a veia jornalística que estava nascendo”, considera Lupi. Dois meses depois, foi criado o jornal do colégio, e, claro, também foi convidado a participar da iniciativa. “Aquilo teve uma repercussão muito grande, pois fui eleito presidente de turma, entrei na diretoria do Grêmio do Colégio e, como eu era metido a falar, me convidaram para apresentar ‘A Hora do Estudante’ na Rádio Montenegro, em 1958, tudo em função do Psiu!”.

A primeira fascinação que teve com o jornalismo foi a possibilidade de viajar pelo mundo graças à profissão, principalmente na área esportiva, ainda mais que era 1958, ano de Copa do Mundo. “Morando em Montenegro e pensando em conhecer o mundo, através do futebol, eu fazia ‘A Hora do Estudante’ já de olho na programação esportiva que a rádio possuía”, revela. A partir daí, não parou mais.

Com as próprias pernas

O jovem Lupi Martins entrou como repórter na rádio Montenegro e fazia a cobertura do Montenegro Futebol Clube, antes de se mudar para Porto Alegre. “Chegando aqui, o Lasier já trabalhava na rádio Guaíba, mas eu não queria que ele se metesse. Queria eu conseguir o meu emprego”, orgulha-se. E conseguiu: o primeiro emprego na Capital foi na rádio Continental, onde ficou três meses, até entrar na Farroupilha em 1963. Mais três meses e a programação esportiva da Farroupilha faliu. E todos os demitidos foram tentar a sorte na rádio Gaúcha, onde Lupi ficou em teste cobrindo a Olimpíada Estudantil realizada em Porto Alegre naquele ano.

Depois, passou mais dois anos na cobertura do futebol, realizando entrevistas no programa ‘Bar 12’, onde foi convidado a ter sua primeira experiência na televisão. Como não seria diferente, tremeu muito na primeira vez em que ficou na frente de uma câmera. “Coloquei o papel das perguntas na frente das mãos para disfarçar o nervosismo”, diverte-se hoje. Nesta mesma ocasião foi convidado a trabalhar na Guaíba – e aqui faz questão de salientar a palavra ‘convidado’, pois não foi ele quem se ofereceu para a vaga. Após uma disputa de salários, entre Gaúcha e Guaíba, optou pela segunda.

Múltiplas tarefas

Em 1967, recebeu mais um convite, desta vez da TV Piratini, a extinta emissora que pertencia aos Diários e Emissoras Associados. Porém, a pedido de Francisco Antônio, um dos diretores da Empresa Caldas Júnior, na época, Lupi não saiu da Guaíba. Começou então a trabalhar na TV Piratini, adquirindo experiência para, posteriormente, ingressar na TV Guaíba, que iria ao ar só na década de 80. Nessa época também escrevia para o Correio do Povo. Lupi gosta de enfatizar, exatamente, o período total em que exerceu cada função: foram 21 anos na Guaíba e 17 escrevendo para o jornal.

Não bastasse o trabalho na rádio, na televisão e no jornal, em 1970 ingressou na antiga Agência Nacional, a empresa de assessoria de imprensa do Governo Federal, que depois virou EBN (Empresa Brasileira de Notícias), e por fim Rádiobrás: “Eu nunca tive vínculo partidário nenhum, por isso trabalhei com oito presidentes da República. Passei por Médici, Geisel, Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula”, enumera, com orgulho.

Convívio presidencial

Lupi Martins chegou a conviver com o presidente Castelo Branco, em função de entrevistas, antes de trabalhar para o Governo Federal durante 36 anos. Com isto, acumula saborosas histórias sobre cada um dos governantes: “Cada um tinha uma característica diferente. Os militares, menos o Figueiredo que era desbocado, se achavam deuses e nem cumprimentavam. O Itamar foi o único que me chamou pelo nome. Eu convivi com oito presidentes e centenas de ministros e cheguei à conclusão que todos, apesar da pose, são pessoas como outras quaisquer. Têm os mesmos sentimentos”, considera. Esse tipo de característica Lupi exalta, pois, segundo ele, sempre foi ensinado pelo pai a ser simples e humilde.

Uma história que se diverte em contar é sobre as pequenas marchas do presidente Fernando Collor: “Ele tinha a terrível, mas engraçadíssima mania de, a qualquer momento, pegar a primeira-dama pela mão e se deslocar muito rapidamente. Marchando e de nariz em pé. Numa dessas arrancadas, no saguão de um hotel em Canela, ele atraiu um batalhão de repórteres que, tentando entrevistá-lo, acompanharam sua marcha e me atropelaram. Eu, que estava parado, olhando, caí sentado em um vaso de plantas. Foi ridículo”.

O aventureiro

Em 1985, em função da precariedade da rádio Guaíba, do fechamento do Correio do Povo e da Folha da Tarde, além dos salários atrasados, Lasier Martins ficou à frente de um grupo de funcionários que, judicialmente, adquiriram o direito de administrar a empresa. Cerca de um ano depois,  quando o empresário Renato Ribeiro comprou a Caldas Júnior, Lupi e Lasier foram demitidos. “Isso, na verdade, acabou sendo um grande impulso na minha carreira, pois eu fui trabalhar no Jornal do Almoço, da RBS TV, só que eu não queria mais fazer futebol”, conta, esclarecendo que já fazia 23 anos que estava cobrindo futebol.

Ganhou um espaço diário para fazer reportagens sobre esporte amador, no qual passou a abordar assuntos como Aeromodelismo, Motonáutica, Judô e Esgrima, entre outros. A maioria, a partir dos clubes Sogipa e União. Nessa função, passou por alguns apuros. Em uma trilha de jipes off-road (para terrenos acidentados), convocou 24 pilotos a subir um grande morro. Conseguiu a companhia de apenas seis, sendo que só um completou o percurso idealizado. Em outra situação, virou um caiaque em uma descida rio abaixo e teve dificuldade em sair da água.

Muito tempo depois, fez o ‘Brasil em 2 minutos’ para a rádio Nacional de Brasília onde, de Porto Alegre, narrava casos polêmicos. “Estilo Zambiasi”, como ele mesmo define. Seus dois minutos foram ampliados para 10 até chegar à meia hora. Até 2006, inclusive, participou, durante 10 anos, do programa “Tarde Nacional”. Nele o tema era o Rio Grande do Sul, com assuntos que iam de economia e política a esporte e turismo regional. Por fim, não aceitou um convite da rádio para apresentar um programa às 6h da manhã, de segunda a sábado. Tomou uma decisão que considerou sensata e oportuna: pediu o boné e se aposentou.

Hipismo, parques e passarinhos

Lupi está há sete anos com a esposa Valeska, com quem produz o ‘Jornal do Hipismo’. O jornalista mantém a publicação há 14 anos a pedidos do grupo de hipismo do qual sua filha, fruto do primeiro casamento, faz parte. Na rotina doméstica, suas principais atividades são ler jornal, ver TV e cuidar de passarinhos. “Eu os crio soltos. Boto potes de água cada vez mais para dentro de casa e eles vêm vindo. O problema é que eles se renovam muito, e a domesticação tem de ser recomeçada”, explica Lupi, demonstrando conhecimento de causa.

Agora que se aposentou, cuida da saúde realizando caminhadas em parques, onde gosta também de plantar. “Gosto muito da vida ao ar livre: mato, campo e fazenda. Sempre que posso, planto algumas sementes nos parques de Porto Alegre. As pessoas nem imaginam que fui eu, mas alguém precisa plantar”, conclui. Uma relação com seu começo de profissão onde não assinava matérias: “Eu não podia escrever meu nome, mas aquela meia página de esportes do Correio sempre foi minha”, relembra. Tem certeza de que, assim como as sementes, muita gente leu suas matérias, só faltou o devido reconhecimento.

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Autor

Redação Coletiva

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