Em um cômodo do apartamento, no 17º andar de um edifício no Centro de Porto Alegre, dezenas de livros, jornais, fotos e documentos antigos registram a carreira de Segundo Brasileiro Reis. O jornalista guardou tudo o que saiu de mais importante sobre ele durante seus mais de 30 anos de profissão no rádio, no jornal e na televisão. São estas amareladas peças que auxiliam Brasileiro Reis a contar a sua história.
As diversas fotos, de todas as décadas, trazem imagens de Reis ao lado de personalidades e autoridades como João Goulart, Maurício Sirotsky Sobrinho, Chacrinha, entre outros, em diferentes ocasiões. O livro ‘Na Onda do Progresso’, de Luís Thomé, apresenta a história radiofônica gaúcha e as biografias dos seus principais ícones. Entre elas, está a de Segundo Brasileiro Reis. As obras que foram dadas de presente a ele pelos próprios autores são exibidas com orgulho. Segundo mostra cada dedicatória ou sua relação com o tema. “Eu era amigão desse cara aqui”, salienta, ao apontar para um livro com a história de Assis Chateubriand. Os jornais guardam matérias e qualquer citação a respeito dos passos de Reis. Há, ainda, documentos como os da ARI (Associação Riograndense de Imprensa), entidade da qual faz parte desde 1975, que registram prêmios, diplomas e homenagens recebidas.
O começo de tudo
Mergulhado no material nostálgico, gosta de ler cada trecho que registra a sua trajetória jornalística que se iniciou em 1942, desde as manchetes ou os textos, até a legenda das fotos. Ele nasceu em 1925, em Ponta Grossa, no Paraná, e mudou-se ainda criança para o Rio Grande do Sul. Depois de fazer um curso de Jornalismo por correspondência com 15 anos, aos 17 ingressou no Diário da Manhã, de Passo Fundo, como redator e repórter.
“Eu nem sei explicar como comecei. Imagino que me apresentei na redação do jornal, disse que queria começar lá e fui acolhido”, confessa ele. Em 1944, o diretor do Jornal da Serra, Astério Canuto de Souza, procurou Túlio Fontoura, diretor do Diário da Manhã, e disse que precisava de um repórter para trabalhar no jornal que se encontrava em dificuldades. “Com isso, eu fui parar em Carazinho, para trabalhar no Jornal da Serra”, conta. Dois anos mais tarde, foi inaugurada a ZYF-8, Rádio Carazinho, e lá se foi Segundo, contratado para montar o departamento de notícias da emissora, que, como era comum na época, incluía um completo Jornal Falado.
Trabalhos acumulados
Já em 1948, de volta a Passo Fundo, Segundo foi convidado por Maurício Sirotsky Sobrinho, diretor-gerente da ZYF-5, para trabalhar na Rádio Passo Fundo. Sirotsky e o então chefe da publicidade, José Lamaison Porto, eram os locutores do programa Globo em Foco, pelo qual Segundo era o responsável. “Veja só como caíram em minhas mãos gente de expressão dos meios da comunicação gaúcha”, aponta. Um emissário de Assis Chateubriand foi enviado ao Estado, no início da década de 50, para montar o departamento de notícias da Rádio Farroupilha e da Rádio Difusora, ambas pertencentes na época à rede dos Diários e Emissoras Associados.
Já em Porto Alegre, para trabalhar nos Diários Associados, Segundo acumulou funções na Rádio Farroupilha, na Rádio Difusora, no Diário de Notícias e na TV Piratini, e ainda encontrava tempo para colaborar para o jornal A Razão, de Santa Maria. Na TV Piratini, produziu e apresentou, semanalmente, o programa noturno Vestibular Eleitoral, em 1962. No Grande Jornal Falado, da Farroupilha, elaborava uma crônica diária. Também nesta emissora apresentou o programa músico-literário Noites de Prata. Devido aos seus trabalhos no rádio, no jornal e na TV, Segundo se autodefine um “fomentador da comunicação no Rio Grande do Sul”, pois ajudou a criar diversos veículos jornalísticos no Estado.
“Atuando como repórter, cobriu os mais diversos eventos, na época em que os equipamentos radiofônicos eram precários e os profissionais precisavam usar de criatividade”, destaca, lendo sobre ele mesmo, no livro ‘Na Onda do Progresso’. Além de tudo, o comunicador foi relações-públicas das secretarias do Interior e Justiça e de Segurança do Estado, realizou promoções comunitárias, como Criança Alegre e Natal Feliz, e criou concursos de beleza no Estado, como a Mais Linda Prenda. “Yeda Maria Vargas, Rejane Vieira Costa e Marta Rocha passaram pelas minhas mãos, no bom sentido, é claro”, brinca Segundo. “Falo no sentido de elas crescerem como representantes da beleza gaúcha”, completa.
Poucas memórias
Embora considere que teve uma vida e carreira movimentada, Segundo revela que não costuma guardar muitas memórias. “Eu costumava anotar tudo o que acontecia, ler uma vez e deixar de lado, é passado. Também faço um pouquinho de confusão, afinal já tenho 82 anos e vou perdendo a memória. Mas também nunca sofri nada espetacular, nem tiro, nem perseguições”, afirma.
Apenas dois fatos o marcaram mais. Foram os incêndios da redação da rádio Farroupilha e dos arquivos dos Diários e Emissoras Associados, nos quais foi perdida grande parte da memória cultural e artística da comunicação do Rio Grande do Sul.
Possui no currículo uma matéria sobre discos voadores, mas sobre ela não gosta de falar muito. “Na verdade, infelizmente, não fui eu que vi, mas me fizeram alguns relatos e eu coloquei na rádio”, relembra.
Aposentadoria
Com o fechamento dos Diários Associados no Rio Grande do Sul, em 1982, Segundo se aposentou. Hoje é sócio-honorário da ARI e participa semanalmente das reuniões do Conselho Deliberativo da entidade. Seu maior lazer, agora, são as viagens, hábito que o acompanha desde os tempos de profissão. Segundo já viajou o mundo todo. Para comprovar, exibe mais um item: um cartão de apresentação utilizado em Washington, nos Estados Unidos. “Eu conheço diversos países como Austrália, Nova Zelândia, Turquia, China, Japão, Estados Unidos, Canadá, toda a América, o Brasil e todo o Rio Grande do Sul. Agora quero repetir essas viagens, começando por EUA e Canadá”, explica.
Em Porto Alegre, faz algumas palestras e concede entrevistas. Vive com a mulher, com quem é casado desde 1961. Ao lado está também a cachorrinha Mel. “Só falta falar, essa bichinha sabe tudo, entende tudo e é a alegria da casa. Minha mulher tem algumas amigas, mas a sua grande companheira é a Mel”, explica, divertido.

