Perfil

Raul Quevedo: Inquieto por natureza

Jornalista, historiador e poeta, nunca criou raízes. Seu grande feito foi mudar a data de comemoração do Dia da Imprensa

Por conta de sua ousadia, o jornalista Raul Quevedo nunca criou raízes nos lugares por onde passou. Atrevido, arrogante e inquieto, segundo ele mesmo, sempre teve facilidade para lidar com as palavras, pois gostava muito de ler e escrever. A escolha pelo jornalismo foi influenciada por uma tarefa corriqueira, desempenhada por ele ainda garoto: entregar jornal. Dos oito aos dez anos, foi jornaleiro na cidade natal, Pelotas. Uma parte do trocado arrecadado com o trabalho era destinada ao único lazer da época: ir à matiné de domingo. Neste momento, também começava a despertar um certo interesse por tudo que fosse relacionado à cultura.

Raul passou por importantes veículos de comunicação do Rio Grande do Sul. “Minha vida foi um ir e vir…”, resume sua trajetória. Atuou no Jornal do Comércio, Correio do Povo e Zero Hora, em jornais do Interior e em assessorias de imprensa de instituições. Também criou duas revistas e o primeiro jornal de cooperativa. Ao se aposentar, decidiu que era o momento de concentrar esforços na conquista de seu grande objetivo enquanto jornalista e historiador: popularizar o nome do patrono da imprensa brasileira e mudar o Dia da Imprensa, o que o motivou a escrever artigos sobre a causa para jornais de todo o Brasil.

Um historiador do jornalismo

Em seus textos, Raul reivindicava que o Dia da Imprensa fosse comemorado em 1º de junho, data em que começou a circular o Correio Braziliense, criado em 1808, em Londres, por Hipólito José da Costa, que estava exilado por conta da Inquisição. O jornalista defende que o veículo não foi o primeiro jornal a circular no Brasil, além de não ser brasileiro, mas sim do Império Português. No Brasil, foi o primeiro jornal independente a dar voz aos ideais do povo. A batalha pela alteração da data, iniciada em 1972, estendeu-se até 1999, quando foi aprovada pelo governo federal através de projeto de lei. E este foi um de seus grandes feitos: conseguir mudar a data de comemoração do Dia da Imprensa, antes dedicada ao 10 de setembro, em homenagem à Gazeta do Rio de Janeiro.

Em toda sua trajetória profissional, Raul sempre participou ativamente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul e da ARI (Associação Riograndense de Imprensa). Há mais de três décadas, tem se dedicado a resgatar a história de Hipólito da Costa e o surgimento da imprensa no País. A partir deste apanhado histórico, publicou dois livros: “Em nome da liberdade – a saga de Hipólito José da Costa”, pela Editora UFPel, em 1998, e “Construtores da liberdade”, pela Editora Ulbra, em 2002.

Um vai e vem

Nasceu em 4 de outubro de 1926, e ficou em Pelotas até completar 21 anos. Na época, servia ao Exército e resolveu se transferir para uma das unidades militares de Porto Alegre. Em seguida, passou um período em São Paulo, onde atuou na Guarda Civil, mas logo retornou ao Rio Grande do Sul. “Sempre com uma certa inspiração para a área das Letras. Eu lia muito os clássicos dos grandes autores da época, como Karl May”, relembra. Foi quando aos 27 anos, com vocação para o jornalismo, começou a escrever para a revista Cena Muda, publicação sobre cinema do Rio de Janeiro.

No ano seguinte, Raul fundou em Porto Alegre a Revista TV, especializada em espetáculos públicos. O jornalista manteve a publicação durante dois anos, até ser convidado, em 1956, a trabalhar no Jornal do Comércio, na época chamado Consultor do Comércio. Dois anos mais tarde, quando o veículo recebeu o novo nome, teve a oportunidade de participar da primeira cobertura internacional que o jornal fez. Foi enviado à Argentina, para cobrir a posse do presidente Arturo Frondize, sucessor de Juan Perón. “Assim eu me profissionalizei, pois sou anterior às escolas de Comunicação”, orgulha-se. Logo em seguida, resolveu pedir demissão e passou a atuar como redator da presidência da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural (Ascar), que mais tarde daria origem à Emater/RS.

Mais uma vez não demorou muito para que o jovem jornalista, que nunca “esquentou banco”, resolvesse apostar em uma nova oportunidade. Em 1959, foi contratado como repórter pelo Correio do Povo. “Eu sempre fui muito arrogante e pretensioso. Eu escrevia artigos que desgostavam a direção do jornal”, explica, citando como exemplo a questão do êxodo rural, que já naquela época o preocupava. “Tentava chamar a atenção para estes problemas, mas como o proprietário do jornal era latifundiário, me demitiu”, conta. Então Raul foi fazer assessoria de imprensa no Instituto de Carnes, autarquia do governo. Nesta época, também escrevia artigos para o jornal A Platéia, de Santana do Livramento.

“Quando aconteceu o golpe de 1964, eu escrevia muito sobre este assunto. E quando o golpe se consolidou, em 1965, o dono do jornal me levou para o Uruguai porque tinha convicção de que eu seria preso”, conta Raul. Ele e toda a família – esposa e filhos – foram de trem, e permaneceram exilados por mais de um ano. No retorno, em 1966, foram para São Paulo. Chegando lá, Raul foi contratado, na mesma semana, como editor-chefe do “Iguatemi News”, o primeiro jornal de shopping centers do Brasil. Segundo ele, naquela época, os bons profissionais podiam ter a convicção de que sempre arrumariam um novo emprego. “Mudava de cidade e tinha jornal pra trabalhar. Era outra época, hoje isto não existe mais…”, compara o jornalista à atual situação do mercado de trabalho.

De volta para casa

“A minha instabilidade emocional nunca me deixou criar raízes… eu recomeçava tudo de novo”, constata Raul. Tanto que, no final de 1968, resolveu voltar à capital gaúcha, ingressando como repórter em Zero Hora. Logo, tornou-se o primeiro editorialista do veículo, que na época estava tentando se consolidar. Também foi editor de Economia e de Interior, e nesta época começou a se envolver com as questões históricas do jornalismo. Em 1972, junto à ARI, organizou um grupo de amigos, jornalistas e historiadores, dando início a um movimento em prol de Hipólito José da Costa. Começaram a levantar todo tipo de informação sobre o jornalista. “É o começo da mudança do Dia da Imprensa. Foram muitos anos de luta”, diz Raul, enfatizando que a mudança na data de comemoração só se deu em 1999.

Mais uma reviravolta em sua vida profissional estava por acontecer. Desta vez, uma das mais significativas. Em 1973, Raul foi para Ijuí, atuar como assessor da Cotrijuí. Foi então que fundou, no mesmo ano, o Cotrijornal, veículo que circulava na região de atuação da cooperativa tritícola de Ijuí. “Como já existiam jornais de bairro e boletins cooperativistas, resolvemos fazer um jornal com uma abordagem geral”, explica o jornalista. Pioneiro, o Cotrijornal trazia, inclusive, informações sobre cinema, teatro e até mesmo poesia. Sempre muito ligado à cultura, Raul considerava, já na época, que “a cabeça do ser humano é um ente que precisa alimentar todos os temas do cotidiano, da arte e da cultura em geral. Esta sempre foi a minha visão de jornalismo”.

Segundo Raul, foi nesta época que o jornalismo de cooperativa começou a se projetar. Com o Cotrijornal, em 1975 o jornalista recebeu o primeiro Prêmio Aberje de Jornalismo. Em 1978, resolveu retornar à sua terra natal. Fundou em Pelotas a Revista Extremo Sul, que se manteve até 1980, quando foi convidado a trabalhar no Diário Popular de Pelotas, onde permaneceu por dois anos. Ele mesmo brinca com o fato de suas experiências profissionais não durarem muito. Segundo Raul, a média era esta mesma: dois anos. Mas isto antes de voltar à Cotrijuí. Atuando de Porto Alegre, obteve certa estabilidade. Sossegou até 1994, ano em que se aposentou. Com a sua saída, fechava o Cotrijornal.

Cotidiano repleto de atividades

“Fundamentalmente, o que me movia era o gosto por mudar de ambiente, o impulso por buscar o desconhecido”. E Wilma, sua esposa há 54 anos, sempre foi uma grande parceira, já que nunca relutou em acompanhá-lo nas andanças em função da profissão. Juntos eles tiveram quatro filhos: Sérgio, o mais velho, com 53 anos, Adélia, Patrícia e Andréia. Em 1994, quando o jornalista aposentou-se, eles comemoraram 40 anos de casamento com uma viagem por 12 países da Europa, definida por ele como uma segunda lua-de-mel, atendendo a uma das paixões do casal, que adora viajar e conhecer novos lugares.

Assim como o patrono do jornalismo brasileiro, Raul é membro da maçonaria, e fundou as lojas de maçonaria Hipólito José da Costa, em Pelotas e Porto Alegre. O jornalista está sempre envolvido com as atividades realizadas pelos maçons, e explica que o termo “loja” designa uma assembléia organizada de maçons.

Sobre realização, Raul é enfático. “Eu gostaria ainda de continuar escrevendo sempre”, resume seu objetivo. “E eu inclusive sou metido a fabulista”, acrescenta. A maioria é de protesto, sempre com versos relacionados a problemas atuais da sociedade.  Aos 81 anos, aposentado, seu objetivo é nunca deixar de escrever, e cria versos como estes, da fábula “O Capitalismo”: “…E os pássaros criados e os bichos / na selva, viveram em paz, / cada espécie em seus limites./ Mas Deus, em seguida, criou / o homem. E o homem viu que tudo / era bom. E o bom não devia fartar / a todos, só aos mais fortes, / aos mais espertos e aos mais ladinos…/ E o homem, adulando a Deus, o distraiu./ Tempo suficiente para criar a mercancia / e o conceito de propriedade./ Havia nascido o capitalismo”.

Também publicou um livro de poesias, “O renascer do Fênix”, faz parte da Academia Pelotense de Letras e logo deve ingressar na Academia Maçônica de Letras. E assim segue nosso bom e velho Raul: mesmo aposentado, age como jornalista e continua produzindo artigos, com os quais colabora para os mais diversos veículos, especialmente os da terra natal, como o Diário Popular, aos quais dedica um carinho especial.

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Redação Coletiva

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