Perfil

João Mattos: Um sujeito boa-praça

Com um olhar de simplicidade e satisfação – é assim que ele enxerga a vida

Por trás das lentes da câmera está um homem simples e apreciador da arte de viver. Este é o filho mais novo de João Alberto de Mattos e Maria Olympio de Mello, o editor de fotografia do Jornal do Comércio, João Alberto Mello de Mattos. Tem 40 anos, completados em 2 de maio, e fala das lembranças da infância como se estivesse visualizando uma fotografia em um porta-retrato. Recordações das brincadeiras com o irmão mais velho, Ubirajara, quando andavam de bicicleta e carrinho de mão na volta da casa em que viviam no bairro Partenon.

A mãe, falecida há seis anos, é lembrada como uma companheira e inventora. “Lembro dela brincando conosco; fazendo bolo, nos ajudando e nos ensinando as tarefas de casa”, anota o fotógrafo. Uma cena que não esquece é quando a televisão da família queimou. Sem televisão e com três crianças em casa, Maria Olympia pegou um jogo de cartas e inventou uma nova modalidade de jogo e com isso acabou entretendo e divertindo os filhos. “Mesmo sendo triste ter ficado sem ter TV, isto me marcou muito, pois nos uniu ainda mais também’, recorda.

João formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em 1994, e registra que foi na época da faculdade que conheceu a atual esposa, a jornalista Carla Santos, com quem tem uma relação de cinco anos. Conheceram-se quando era monitor do laboratório de fotografia da Famecos. “Fiz monitoria por alguns semestres e conheci muitas pessoas, e quem me marcou foi a Carla”. Mas então nada evoluiu, pois na época ela era casada – e o máximo que faziam era trocar cumprimentos ou informações sobre fotos.

O relacionamento só iniciou quando ele foi trabalhar no mesmo local que ela, no Jornal do Comércio, em 2004. E desde então não se desgrudaram mais. Da relação ele ganhou também duas enteadas, Júlia, de 9 anos, e Bruna, 12, que vieram fazer parte da família que se completa com o filho de criação, Jeferson, de 21 anos. Filho do irmão mais velho de João, o rapaz já vive com o pai adotivo há mais de 18 anos. “Crio o Jeferson desde os três anos e meio, pois ele foi morar na minha casa com esta idade. Na época eu morava com minha mãe, e quando eu me mudei ele foi morar comigo.” Mora até hoje. “Para mim ele é um filho”, confessa João.

De hábitos simples

Costuma sair para caminhar no parque com a família e a cadela de estimação, a linguiçinha chamada Sofia. E sempre que possível, gosta de andar de bicicleta e de ficar em casa com a família assistindo a filmes em DVD. Compras também são outra opção de lazer, mas diz que não gosta de ficar passeando em shoppings. “Sou um cara mais caseiro, mas gosto muito de ir ao cinema também, assistir a filmes de drama e suspense”, diz João. O último filme que viu e que chamou sua atenção foi o filme nacional ‘O Contador de História’, que deve estrear esta semana nas salas de cinema, mas que viu em sessão especial para a imprensa. O filme conta a história verídica de um menino que morou na Febem dos cinco aos 13 anos, e o único aprendizado que conheceu estava ligado à violência. Sua história mudou quando encontrou uma mulher que lhe demonstrou amor e, graças à perseverança dela, hoje é um exemplo de que é possível se recuperar um jovem nestas condições.

Para João, a lição de vida que este filme passa é de que às vezes uma pessoa consegue fazer a diferença na vida de outras pessoas, e tem a possibilidade de mudar algumas coisas que algumas vezes são estratificadas. “Na verdade, se tivermos um pouco de boa vontade, tempo e disposição, vemos que na vida, nada é realmente definitivo, a não ser a morte, e o filme mostra isto”, explica.

O fotógrafo confessa que gosta de uma boa mesa, mas em casa quem pilota o fogão é a esposa, pois ele diz não gostar de cozinhar – prefere ajudar nos afazeres da casa e na degustação da gastronomia. Não dispensa um bom churrasco, um feijão bem temperado, “quase uma feijoada”, e um peixe assado. “E para adoçar a vida, um pudim completa o cardápio.”

Lealdade e irritabilidade são duas coisas que destaca que fazem parte da sua personalidade. “Saio do sério muito fácil, mas ao mesmo tempo sou humilde e sei voltar atrás. É, depois que esfrio a cabeça, volto atrás, reconheço meu erro e me desculpo”, assume.

A paixão pela fotografia

De 1988 a 1989 trabalhou na gráfica Maredi Fotolitos, época em que fez um curso sobre fotografia e achou interessante o que aprendeu, mas resolveu sair da empresa e concluir o segundo grau. Ao escolher o vestibular, acabou, por influência da família, concorrendo ao Direito. Talvez exatamente por não ser sua preferência, não passou e optou por fazer jornalismo. Como a primeira cadeira prática que havia no curso na Famecos é a de fotografia, e como já tinha o conhecimento prático da profissão, acabou se apaixonando pela atividade que viria a abraçar.

Acha fantástico olhar um objeto ou uma imagem, fotografar e, em seguida, ter a prova física disso, o que o faz sentir um autor de alguma coisa de valor. “Acredito que a fotografia é o mais próximo que nós homens, vamos ter da maternidade, pois olhamos uma foto, a revelamos e depois vemos que participamos de todas as etapas e processos de construção de uma determinada imagem onde somos o autor daquilo”, diz, explicitando a paixão pelo que faz.

Aprendeu a fotografar no tempo pré-digital, quando a máquina tinha filme e o filme precisava ser revelado em uma câmara escura. Daí as boas lembranças, que o fazem sorrir de satisfação ao recordar que, daquela luz vermelha de laboratório, “a gente via surgir o resultado de um trabalho”. Hoje, em um mundo cercado de novas tecnologias, enfatiza que é importante continuar aprimorando a técnica. E ainda acredita que uma boa imagem está relacionada ao olhar, à perspectiva que tem do acontecimento e à técnica que aplica.

Na sua rotina de fotógrafo de jornal, pontua que há pautas mais complicadas que exigem um pouco mais do fotógrafo, mas a foto que é feita na hora é sempre a mais importante. “O presente na fotografia ajuda a preservar aquele momento em que se está vivendo e é necessário estar focado no momento”, ensina. E explica, metódico: “Não me considero uma pessoa genial e digamos que tento manter meu trabalho linear. Não aceitando muitos erros, sempre controlo a parte técnica e busco cada vez mais um olhar que contextualize sempre com a informação.”

A Carreira

Trabalhou com fotos publicitárias de 1995 a 2003 e quando o dono do estúdio, Eurico Sales, viajou para os Estados Unidos, ficou responsável pelo negócio. Atualmente, acaba realizando trabalhos com Eurico nas publicações de alguns livros, como o álbum ‘Porto Alegre Cenas Urbanas e Paisagens Rurais’, no qual contribuiu como fotógrafo assistente, procurando as locações adequadas. As obtenções foram feitas pelo Eurico, mas ambos avaliavam toda logística do processo. ”Na verdade, foi mais uma contribuição, onde participei de todas as execuções, de todas saídas e todos os cliques da câmera”, informa.

Graças a este trabalho, que durou quase dois anos, acabou conhecendo ainda mais Porto Alegre e descobrindo que a cidade não acaba em Ipanema, que hoje considera apenas o começo da Zona Sul. “Eu fui além, então hoje posso garantir para as pessoas que conheço a cidade”, diz, apontando este como sendo um trabalho produtivo e estimulante, especialmente por ser difícil escolher qual a melhor entre tantas imagens boas.

Trabalhou também fazendo book, e em março de 2004 ingressou no Jornal do Comércio, onde foi fazer um trabalho de freelancer a convite da editora de fotografia da época, Flávia Quadros, que o convidou para trabalhar no turno da noite. Anos depois, Flávia foi embora, outro editor passou pela função e, há dois anos e meio, João assumiu a editoria de fotografia do JC.

Desde então, chega todos os dias na redação às 14h e vai embora quando todo o jornal já está encaminhado. O editor destaca que o veículo é um local excepcional para se trabalhar e acredita que atrai uma pitada de inveja de colegas de outros jornais por não trabalhar aos sábados – além de ter uma jornada de trabalho mais tranquila aos domingos, devido ao fato de o jornal tratar basicamente de economia e negócios. O final de semana é bem mais calmo, pois o mercado fecha na sexta-feira e o jornal não tem edição no sábado.

Mesmo assumindo uma posição de chefia, ele diz que não consegue se ver diferente dos demais, tanto é que pega a máquina e continua indo para a rua sempre que possível. “Sou o mesmo fotógrafo ao lado do pessoal, só estou assumindo algumas responsabilidades pelo departamento. Nasci fotógrafo e irei morrer fotógrafo”, desabafa. E acredita que, para avaliar o trabalho dos colegas e conseguir equacionar questões que envolvem a fotografia, tem que estar ciente de todos os processos, inclusive e especialmente a rotina do que acontece na rua.

Lembra que certa vez estava fotografando um evento para a coluna social e pediu licença para fotografar um homem e sua filha – mas foi corrigido com rispidez pelo interlocutor, que fez questão de esclarecer, com um ar muito sério: “Ela é a minha esposa”. Mas frustrante mesmo, revela João, foi o momento vivido há cerca de três anos, quando foi fotografar o presidente Lula em um evento. Esperou por cerca de cinco horas para conseguir chegar até ele e, quando estava trocando o equipamento e havia feito apenas três fotografias sem muita qualidade, foi impedido de continuar, pois a organização só disponibilizava um minuto para fotografias. “Este, sem dúvida, foi um dos piores momentos no meu trabalho”, confessa.

O olhar do futuro

Com a simplicidade que o caracteriza, declara que se sente realizado, pois tem tudo o que quer da vida: amigos, bons colegas e trabalhar com o que gosta. Quando surgem problemas, acredita que tem é que olhar para eles e tentar buscar soluções, não apenas enxergá-los como obstáculos. “É necessário querer ir além, romper as barreiras e sempre respeitar o próximo, pois o mundo é redondo, e se hoje estamos nesta posição amanhã podemos nos encontrar em outra. Então, temos que pensar sempre à frente”.

Os planos para os próximos 10 anos são de continuar trabalhando com fotografia no jornal e disseminar o conhecimento que tem na área em algum projeto voltado para jovens em situação de vulnerabilidade social. Quer trabalhar a parte educacional da fotografia, ensinar crianças carentes a aprenderem uma profissão e terem receita com isto. “Acredito que as coisas são muito rápidas nesta vida e temos que extrair dela o melhor de tudo”, diz João, revelando sua fé: “Não podemos ficar frustrados com o que não deu certo e sim agradecer o que temos e procurarmos fazer o melhor sempre, pois daqui a pouco a nossa luz se apaga e aí é o fim, a morte é o fim”.

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Autor

Redação Coletiva

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