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Floriano Corrêa: Florianão, a lenda

Aposentado desde 1993, jornalista lembra os anos de carreira e comenta o casamento após os 70

“Deixa um recado para os jovens jornalistas”, diz o bilhete que Líbera entregou a Floriano. “Ela é minha assessora de imprensa”, brinca ele, ao explicar o gesto da esposa. Na verdade, ela é uma admiradora da carreira do marido. Com 82 anos, Floriano Hengist Corrêa, o Florianão, conhecido entre os colegas como lenda viva do jornalismo, acumula experiência e histórias para contar. São 35 anos de exercício da profissão em jornais, rádios e TVs de Porto Alegre, em que já foi de tudo, de ajudante de taquigrafia a diretor de redação.

Sempre atenta às atividades do marido, LÍbera faz questão de ouvir seus relatos. Zelosa, para não atrapalhar a entrevista que ele concede, ela escreve discretos bilhetinhos lembrando-o dos fatos importantes que precisam ser citados. Ele, também por zelo, ou pura curiosidade, interrompe o que estava falando para dar atenção aos pedidos. Tanta cumplicidade tem uma explicação. Floriano declara-se apaixonado pela esposa, que conheceu, totalmente por acaso, em uma ligação cruzada, há 12 anos.

Florianão ganhou o apelido tanto por sua altura – cerca de 1,90 metro – quanto pelo jeito carinhoso como sempre tratou colegas e amigos. E amigas, pois houve uma época em que era muito conhecido também pelo lado mulherengo. Tantas fez que acabou fisgado: o jornalista conversava com um amigo ao telefone, quando duas mulheres interferiram na conversa. “Elas estavam combinando de tomar chimarrão na Redenção. Pedi para falar com a Líbera e fui logo perguntando. Tu és casada, separada ou viúva? Porque eu estou louco para casar”, conta Floriano. Ao que ela sorriu e respondeu: “Sou viúva”, e anotou o telefone dele.

“Quando ouvi a voz de Floriano achei que ele era locutor de rádio. Fiquei encantada”, lembra Líbera. E ela não estava de todo errada não. A estreia profissional do jornalista foi mesmo em uma rádio. No início como ajudante de taquigrafia, mas depois teve até participação em rádio-teatro. “Fiz rádio-teatro com o Otávio Germano, na época em que ele nem era político ainda”, recorda, referindo-se ao ex-deputado e ex-vice-governador do Estado. A voz de locutor lhe rendeu um encontro: Floriano e Líbera saíram para almoçar e um ano depois estavam casados.

Repórter Esso

Natural de Porto Alegre, o jornalista nasceu ou foi “fundado”, segundo suas próprias palavras, em 1927. A escolha pela profissão surgiu durante a segunda Guerra Mundial. “Em 1942, foi lançado aqui em Porto Alegre o Repórter Esso, primeiro noticiário de radiojornalismo do Brasil. Eu tinha 15 anos e fiquei impressionado com aquele estilo de locução. Estava decidido o que eu queria fazer.”

Como na época não existia faculdade de Jornalismo, Floriano buscou uma forma de estar por perto das transmissões do Repórter Esso. Assim, ingressou como ajudante de taquigrafia na rádio Farroupilha. Depois foi ajudante de jornalismo na Rádio Gaúcha, época em que decidiu cursar Filosofia para complementar sua formação. Com o tempo passou a conciliar as atividades na Rádio Gaúcha com o trabalho no Jornal do Dia, diário que circulou até os anos 70.

A oportunidade para fazer o Repórter Esso surgiu no início dos anos 60, quando Floriano foi convidado para assumir o cargo na Rádio Farroupilha às pressas. “Fui trabalhar no radiojornal na marra porque eles precisavam de alguém. Recebia o noticiário pronto do Rio de Janeiro, mas sempre acabava acrescentando as manchetes daqui.” Para assumir a função, ele deixou o cargo de supervisor geral de rádio e telejornalismo nos Diários e Emissoras Associados. Antes, chegou a cogitar a possibilidade de mudar-se para o Rio de Janeiro, a convite de Heron Domingues, à época locutor do Repórter Esso na capital carioca. Mas Floriano acabou seguindo com sua carreira em solo gaúcho.

Última Hora

Convicto de seus ideais e posicionamento profissional, Floriano demitiu-se algumas vezes por divergir de seus superiores. “Naquela época era diferente de hoje. Se algo estava em desacordo, deixávamos o emprego mesmo.” Segundo ele, outra oportunidade de trabalho logo batia à porta. Assim, Florianão também teve passagens por Última Hora, Rádio Guaíba, Correio do Povo, Folha da Tarde, Zero Hora e RBS TV.

Uma de suas lembranças mais marcantes, porém, foi sua participação na fundação e composição do jornal carioca Ultima Hora, de Samuel Wainer, em Porto Alegre, no início dos anos 60. O diário foi um marco no jornalismo brasileiro, inovando em termos técnicos e gráficos. “Arranjamos uma sala na Rua 7 de Setembro, em cima do Cinema Rex, para fazer a redação. Alugamos a oficina de impressão do jornal O Dia. Rodávamos o Última Hora depois da meia-noite”, recorda. Floriano iniciou o trabalho no Última Hora ao lado dos colegas Nestor Fedrizzi e Nëo Reihart. “Foi muito emocionante participar da concepção de um jornal”, recorda.

O jornalista foi editor de economia do diário até 1964, quando a redação foi totalmente depredada durante a ditadura militar. Naquele ano, o jornalista Ary Carvalho comprou de Samuel Wainer as máquinas e as rotativas que restaram do jornal Última Hora e fundou a Zero Hora, que vendeu em 1970 para Maurício Sirotsky, numa ação que pode ser considerada o embrião do Grupo RBS. Floriano migrou para a Zero Hora e, com o tempo, passou a exercer funções de editor também na RBS TV.

Sempre compromissado com a profissão, Floriano costuma dizer que casou com o jornalismo. “Me dediquei com afinco ao jornalismo. Tenho a impressão que dei emprego e ensinei muita gente”, orgulha-se. Em 1980, aposentou-se da atividade nos veículos e foi dedicar-se a outra função. Floriano passou num concurso para o governo do Estado e foi assessor de imprensa de três governadores, Amaral de Souza (1979-1983), Jair Soares (1983-1987) e Alceu Collares (1991-1994). Nesse meio-tempo também atuou na assessoria de imprensa da Secretaria de Transportes do Estado. Em 1993, vítima de um infarto, decidiu que estava na hora de parar.

Casamento noticiado

Com a rotina corrida, Floriano acabou não conseguindo acompanhar o crescimento dos filhos. Pai de Fernando e Lélia e avô de Fernando Jones Jr., frutos de seu primeiro casamento, ele confessa que está curtindo o núcleo familiar agora. “Casar depois de aposentado foi a melhor coisa que eu poderia ter feito."

Segundo ele, são os familiares que o mantêm vivo e disposto. “Estão sempre me dando incumbências.” Para junho de 2010, ele já assumiu o compromisso de assistir à formatura do filho de Líbera, o Paulo, em Direito. “Assisti ele apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso, e ele se saiu muito bem, viu?”, diz. E segue contando que “outro dia um neto se formou, depois o mais novo casou.” Nessa hora, Líbera escreve outro bilhetinho. Desta vez para explicar que têm três filhos e cinco netos. Floriano completa: “Ao casar com ela, adquiri uma família maravilhosa”.

O casal tinha planos de ser discreto quando decidiu oficializar a união, o que não deu muito certo. Floriano ligou para um amigo jornalista na intenção de aconselhar-se sobre onde passar a lua-de-mel. O colega indicou um hotel na praia de Capão da Canoa. “Quando desci do carro, tinha um fotógrafo nos aguardando. Acabou o sigilo, a foto foi parar no Correio do Povo.”

Os dois acabaram sendo notícia em vários jornais e participaram até de um programa na televisão. O jornalista Lauro Quadros soube da novidade e convidou Floriano e Líbera para participarem do Programa Estúdio 36, na TVCOM. “Trabalhei com o Floriano na década de 70 na Rádio Guaíba. Ele é um profissional tudo de bom”, conta Lauro Quadros.

“A Líbera se saiu tão bem dando entrevista, que o Lauro perguntou se ela é do ramo”, recorda Floriano. “Sou bem comunicativa mesmo”, confirma ela. E vai logo perguntando se o seu nome será mencionado na matéria. “ Coloca o acento aí no i, se não fica Libera e eu não estou liberando nada”, brinca.

Outros tempos

Envaidecida com a carreira que o marido construiu, Líbera declara-se muito feliz ao lado do companheiro. “Seguidamente encontramos pessoas na rua que me contam que o Florianão contribuiu muito para a carreira deles. Fico orgulhosa”, diz, sem deixar de comentar que o casal adotou um ‘filho’, um sabiá chamado Kiko, que viaja sempre com eles. “Somos muito entrosados”, completa Floriano.

Ao recordar sua trajetória, o jornalista se diz satisfeito com o que fez. “Quando comecei no rádio, os repórteres tinham que se desdobrar para conseguir as notícias. Eram outros tempos”, diz. Conforme ele, naquela época, os jornais eram uma potência econômica. “As autoridades chegavam em Porto Alegre e visitavam as redações para conseguir uma entrevista, hoje são os jornalistas que vão atrás.”

Se não fosse jornalista, Floriano teria sido médico ou advogado. Mas a paixão pelo Repórter Esso falou mais alto e ele não deixou mais a profissão.“ Na minha época, não tinha como dizer que tínhamos ingressado em jornalismo, ingressávamos em rádio”, comenta. Ele explica que, quando surgiu o primeiro curso de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), nos anos 60, não foi fazer porque já conciliava dois empregos.

Sobre a recomendação para os jovens jornalistas, ele faz uma referência aos problemas do planeta e o apelo vai além da profissão: “Lutem para evitar que o mundo acabe”.

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Autor

Redação Coletiva

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