Perfil

José Aldair: O último locutor

Apresentador de notícias da Rádio Gaúcha por 35 anos fala das lembranças e vontade de retornar ao rádio

Sujeito despojado e com ar sereno, José Aldair descontrai o ambiente ao oferecer uma cerveja e revelar que estava completando 65 anos no dia 26 de janeiro, dia em que concedeu esta entrevista. Natural de Canoinhas, norte de Santa Catarina, começou muito cedo na carreira. Aos oito anos já cantava no rádio com a irmã Matilde. Aos 12 comandava um programa infantil de auditório, e aos 15, foi tentar a vida no Paraná, mas seu pai, Gabriel Nidejelski, resolveu buscá-lo, pois o achava muito jovem para enfrentar as dificuldades de viver sozinho.

Ao ingressar no rádio, José Nidejelski não gostava da sonoridade de seu nome. Na Justiça, conseguiu a permissão de incorporar o codinome “Aldair”, uma homenagem ao padrinho, o locutor Aldair José, a quem atribui o despertar da paixão pelo rádio. Sem nunca ter frequentado a faculdade de Jornalismo, garante que sua experiência o tornou um “jornalista profissional” – ou radialista – muito bom no que fazia. Prova disso foram os 42 anos de atividades, que lhe renderam o título de “Cidadão Honorário de Porto Alegre”, indicado pelo vereador Cassiá Carpes, fato eternizado na parede da sala.

José Aldair teve uma infância que denomina “caipira, de roça, interiorana e simples”. Como a família não tinha condições de comprar um aparelho de rádio, o jornalista e o irmão Luiz Alberto ouviam as notícias, da Rádio Tupi (Rio de Janeiro – RJ), através de um aparato feito de pedra galena, um tipo de cristal que consegue captar ondas eletromagnéticas em diversas frequências, e um fone de ouvido.

Em nome do pai e dos filhos

O radialista tem quatro filhos do primeiro casamento. A enfermeira Danusa, mãe de Luan; José Aldair Filho, paraplégico devido a um grave acidente sofrido aos 22 anos, ele lembra, emocionado, que a RBS o ajudou conseguindo um avião para que pudesse ir com urgência ao encontro do filho no dia do acidente; A ex-Mis Porto Alegre Tatiana, mãe de Ranani, que atualmente trabalha com finanças; E Débora, que atua em órgão público e é mãe de Giovane.

Casado há 30 anos com Bárbara Elisabeth, José Aldair criou o filho dela, Alexandre, desde os três anos, e se emociona novamente ao contar do seu falecimento, aos 22 anos, por acidente de moto. Mais tarde nasceram, desta união, os gêmeos Daniel, que cursa Ciências da Computação, e Gabriel, que está no último ano de Direito. Para todos, o radialista diz se considerar um bom pai, que nunca deixou faltar nada e que esteve presente sempre, na medida do possível, apoiando no que fosse necessário.

Católico e paroquiano da Igreja São Francisco, José Aldair conta que seu livro preferido é a Bíblia. “Tem tudo ali, não preciso de mais nada.” Apesar de não se considerar um fanático religioso, ele faz questão de ajudar, pessoalmente, algumas famílias carentes. “Era para eu ter sido padre, fui coroinha na infância. Não sei como acabei tendo seis filhos”, brinca.

Rádio Gaúcha, o destino

No início da caminhada, passou pelas rádios Paiquerê (Londrina – PR), Caçador (Caçador – SC), Rio Negro (Rio Negro – PR) e Canoinhas (Canoinhas – SC). Quando Luiz Alberto recebeu um convite para atuar numa rádio de Florianópolis, ouviu dele: “Ou tu vais comigo, ou eu não vou.” A frase do irmão soou como uma intimação e José Aldair se aventurou na Diário da Manhã como apresentador de informativo radiofônico. Lá deu início à longa jornada pelo Jornalismo.

Já trabalhando como Correspondente Simon na Rádio Guarujá, além de apresentador, foi também o redator e pôde experenciar a participação em radionovela. “Na época, pegávamos notícias das principais transmissões do centro do país, ou até do exterior, em espanhol”, conta o radialista. Segundo ele, aos 18 anos e com a visibilidade que recebeu, surgiram convites de nomes influentes do Jornalismo, como Holmes Aquino, Mendes Ribeiro e Maurício Sirotsky, para trabalhar na Rádio Gaúcha em Porto Alegre.

Mudou-se de Estado, em 1962, embora não planejasse trocar Florianópolis por Porto Alegre. “Lá a cidade era praticamente interiorana. Cheguei aqui e era uma enormidade, uma metrópole. E mesmo assim tinha, no máximo, 400 mil habitantes, pouco carro, tinha até bonde e a Restinga nem existia”, recorda.

Sua estreia na emissora foi no Correspondente GBOEX, em 9 de abril de 1966. Seis meses depois, o programa de síntese noticiosa, que foi inspirado no Repórter Esso (veiculado de 1941 a 1964, na Rádio Farroupilha), lhe rendeu o cargo de redator. Com três anos de casa, Aldair passou a ser chefe do departamento de notícias da rádio.

São lembranças…

Em 2004, foi demitido da Rádio Gaúcha. Queria tentar a carreira política, mas não teve o apoio da emissora. José Aldair já tinha feito o mesmo em 1976, quando se afastou por três meses do cargo para se dedicar à campanha de Vereador, voltada a crianças carentes. Não sendo eleito, retornou, e teve seu emprego de volta. O mesmo não aconteceu na segunda tentativa.

Com a saída de José Aldair, a Rádio Gaúcha passou a adotar um novo formato de transmissão do Correspondente Ipiranga, fato que ele lamenta muito, e que o levou a não ser mais ouvinte do programa. Nunca mais os ouvintes da Gaúcha escutaram o bordão que o tornou conhecido em todo o Estado: “…Quando José Aldair, locutor exxxxclusivo deste shoooow de informação…”

O radialista afirma que não guarda mágoas, e que raiva só faz mal a quem sente, ensinamentos que faz questão de deixar para os filhos. Aldair é convicto ao dizer que prefere ficar com as lembranças boas que a emissora lhe deixou.

Ele gostava da correria rotineira da redação, mas recorda que transmitir notícias de guerra era algo dolorido, e cita a do Vietnã como exemplo. Outra lembrança é a máquina de escrever, que ganhou de presente da rádio, e que guarda até hoje com muito carinho. José Aldair se diverte quando conta que muitas vezes teve que subir o morro Santa Tereza a pé para chegar na rádio. Certa ocasião, chegou atrasado em razão do ônibus que quebrou e levou uma suspensão. O que era para ser de três dias, durou apenas um, pois era considerado um profissional necessário ao programa.

O jornalista acredita que ainda pode acrescentar algo à profissão e pretende retornar ao mercado. “É engraçado como a gente muda. A pessoa atinge uma certa idade e não perde as esperanças de continuar vivendo e fazer aquilo que gosta. Como se ganha experiência, acaba sabendo a melhor forma de usar a voz e fazer bem feito”, justifica.

Marcas deixadas

Durante sua jornada, o principal programa noticioso da Rádio Gaúcha teve vários nomes, todos relacionados ao patrocinador do programa. Correspondente GBOEX, Correspondente Maisonnave, Correspondente Strassburger, Correspondente Alfred, para então permanecer no atual Correspondente Ipiranga/ Rede Gaúcha Sat. José Aldair se orgulha de ter participado dessa história. “Posso dizer que dei a minha contribuição para a construção desse império que o Grupo RBS se transformou”, afirma, envaidecido.

Apaixonado por rádio, pela instantaneidade que o veículo oferece, o jornalista cita o gaúcho Heron Domingues, Repórter Esso do Rio de Janeiro, como um nome que lhe inspira, pois em suas chamadas conseguia transmitir emoção aos ouvintes. “As pessoas ouvem rádio onde e quando quiserem. Pode ser do outro lado do mundo, ou aqui pertinho. O rádio te proporciona essa facilidade.”

Com o sonho de retomar sua profissão, José conta que não se sente realizado, pois “ainda não morreu”, como ele mesmo brinca. E aos que iniciam na caminhada, ele deixa um recado para quem gosta de rádio: “Aprender e continuar aprendendo sempre. Isso deve ser diário”.

O jornalista Paulo Sant’Ana confirmou as qualidades visíveis de José Aldair ao dedicar uma coluna exclusiva para falar do colega. Em 16 de maio de 2003, um ano antes de o radialista deixar a emissora, Santana escreveu: “É um dos mais atilados locutores do país (…)Um extraordinário profissional, sua voz é a mais característica de todas as 400 vozes que falam diariamente na Rádio Gaúcha, ele é o distintivo e a marca mais notáveis da nossa emissora, tornou solene os seus espaços diários, escutados sempre em silêncio, respeito e atenção pelos milhares de ouvintes, há mais de uma geração.” E finalizou: “Uma abelha da minha mesma colmeia, que engrandece a minha profissão, essa sublime saga do jornalismo que o José Aldair Nidejelski ainda mais enobrece.”

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Autor

Márcia Christofoli

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