Em meio a algumas interrupções carinhosas de seu filho Pedro, de 7 anos, a diretora da Marketing Business e professora da Feevale, Simone Rosa, conta, de forma divertida, um pouco da sua rotina e trajetória profissional. Filha da professora de Artes, Ivone, e do técnico da CEEE, Isabelino, com mais cinco irmãs e um irmão já falecido, ela já se considerou uma workaholic. “Vivia para o trabalho, dedicava praticamente todo o meu tempo às viagens profissionais e planejamentos”, diz.
Com o nascimento de Pedro, percebeu que seu ritmo mudaria e seus hábitos também. A partir disso, outras situações passaram a ser prioridades. Buscar o filho no colégio e dedicar algumas horas do seu tempo a ele são compromissos inadiáveis. O ritual de assar um churrasco, habilidade que aprendeu para não depender de ninguém, e compartilhar esses momentos com o rebento são também de extrema importância.
A marqueteira, que, antes de entrar no mundo da Comunicação cursou, totalmente por acaso, o técnico de Edificações, explica que cometeu um engano quando jovem. Com a possibilidade de seguir a vida escolar num curso técnico, o de Telecomunicações era o que mais se parecia com a vontade de Simone, em função da terminação da palavra. Apaixonada por comunicação desde os 13 anos, quando leu uma reportagem na extinta Revista Pop, sobre o perfil das profissões, se interessou por uma entrevista com um jornalista.
“Depois que passei no teste e fui apresentada ao curso, dei de cara com uma sala cheia de fios e percebi que não era nada do que eu pensava. Perguntei então qual o curso mais fácil, pois não poderia perder o ano, e assim acabei cursando dois anos de Edificações”, recorda entre gargalhadas. As poucas dúvidas que tinha foram sanadas com uma orientação profissional que reafirmou seu perfil comunicativo.
Vício pelo desafio
A vida profissional de Simone foi marcada pela presença constante de desafios e novas experiências. A publicitária aproximou-se ainda mais do Marketing quando recebeu uma proposta da empresa Cristais Hering, em Blumenau, Santa Catarina. Ainda casada – ela foi morar com o marido aos 18 anos – e com uma vida “normal” em Porto Alegre, ela revela como se preparou para a entrevista. “Eu tinha um cabelão, usava roupas manchadas, bem ao estilo bicho-grilo. Mas uma amiga me alertou que eu precisava mudar radicalmente o visual. Fui para a entrevista com cabelos curtos, um tubinho preto e scarpim, nem parecia eu”, brinca. A mudança deu certo, Simone foi aprovada – e com um salário exorbitante para a época. Avisada por sua mãe que a solidão seria sua companheira em outro Estado, Simone teve um ano difícil, mas, mais uma vez, de novas experiências e muito aprendizado.
A chegada do Iguatemi à capital gaúcha também é lembrada com muito orgulho. A extinta agência Standard conquistou a conta do novo empreendimento, e a publicitária soube que precisariam de alguém para coordenar o setor de promoções, algo que ela nunca havia feito. Viu aí mais uma chance para algo novo, que exigiria muita dedicação. Após uma resposta positiva do seu superior, foi ao encontro de Nilton Rique, dono do empreendimento. Sem conseguir mentir, algo que, segundo ela, não sabe fazer até hoje, contou que nunca tinha feito nada na área, mas que faria tudo para superar as expectativas. Na época com 20 anos, dedicou seu último ano na agência a este desafio e conheceu outra parte de sua profissão que a encantaria mais tarde: as promoções.
Na presidência da Associação de Marketing Promocional (Ampro), foi convidada pelo publicitário Airton Rocha, em 2004, para integrar a diretoria da Associação Riograndense de Propaganda (ARP). O desafio, dessa vez, era reerguer a imagem da entidade. “Como eu digo para os meus alunos, nós somos artistas. Peguei a minha tela branca e comecei a pincelar as minhas ideias.” Desta tela branca surgiu a Semana da Propaganda, e, com ela, a reestruturação do conceito da ARP. Novamente, o desafio foi vencido.
Simone traz também na bagagem passagens pela agência Escala, onde teve de estruturar um setor específico de promoções, empresa Promo, em que atendeu a grandes marcas, como Brasken, e pôde retornar à área cultural das promoções. Atuou ainda como sócia da Plano de Ação, em Curitiba, em que o foco voltou-se para eventos de grande porte.
Decidida a voltar para Porto Alegre, a publicitária reativou uma empresa que deixara em stand by, conforme conta. A Marketing Business foi reinaugurada ao lado de um sócio paulista que apostou em sua capacidade, e Simone conseguiu realizar o desejo de trabalhar em casa.
Sempre transparente
Aos 47 anos, a taurina convicta acredita que aprende com todos que a cercam e de muitas formas. Com a certeza de que nasceu para a Comunicação, atualmente dá aulas de Marketing na Feevale e se admira com o tempo que já leciona. A vida acadêmica nunca foi um sonho, mas a paixão por ensinar e aprender já dura 10 anos. Mesmo afirmando que não viveria apenas dando aulas, ela definitivamente não se vê em apenas um segmento, o mundo dinâmico em que vive é a base da sua motivação.
Ao falar da faculdade, Simone lembra do tempo em que era estudante da Famecos (PUC-RS). “Tive que fazer um trabalho, que é muito semelhante ao que aplico hoje aos meus alunos, em que eu deveria analisar uma área da Publicidade para apresentar aos demais colegas. Fui visitar a antiga agência Standard e me interessei por um setor chamado Planejamento. Não tínhamos noção disso. As áreas que conhecíamos eram muito engessadas”, diz. Desse interesse surgiu a coragem de perguntar como deveria proceder para se candidatar a uma vaga de estágio. Mesmo sabendo que o diretor da agência, Rogério Ruschel, dava prioridade a seus alunos, dois dias depois ela foi bater à porta da Standard para dizer “oi, estou aqui”, segundo conta. A audácia lhe rendeu a primeira oportunidade de estágio.
Este processo de aprendizado é denominado por ela como uma escola. Com um chefe exigente e temido por todos, a publicitária encarou a chance com extrema dedicação e define o período como multidisciplinar, pois exigiu “um grande leque de raciocínio e percepção”. Aprendeu lá a discutir o planejamento, conceituar, pesquisar e estudar muito. “Sempre respeitei os meus superiores, desde que eles soubessem mais do que eu”, explica.
Simone não se divide em pessoal e profissional, pois acredita ser exatamente igual nas duas “vidas”. Adora ler e ouvir música, mas sabe que fazendo isso também está estudando. Na vida profissional, inventa promoções e estratégias, e na vida pessoal adora inventar jogos novos com Pedro. Se necessário for, pode passar 10 horas trabalhando, mas se o filho desejar, passa esse mesmo tempo dentro do mar brincando com ele. Ela se define como transparente, nem os amigos nem os clientes ouvirão algo dela em que não acredita.
Do zero…
Nascida em Nova Prata, antes de vir para Porto Alegre, morou em Vacaria e Pelotas. Com tantas mudanças, amizades deixadas para trás, dificuldades de se ambientar, Simone aprendeu a começar sempre do zero.
Ela se considera uma mescla das características dos pais. Da mãe herdou o gosto pela cultura, pelas coisas diferentes e o dom de ensinar. “Sou muito curiosa também, acho que isso vem da minha mãe.” Já do pai, a prática e a habilidade manual. Prova disso é sua facilidade de consertar e construir. A professora tem quatro caixas de ferramentas. É ela, por exemplo, quem pendura os quadros, que podem ser vistos em todas as paredes da casa.
Nascida em família grande, Simone gosta de recordar os momentos juntos. As reuniões com os pais, os irmãos, os cunhados, as refeições com muita gente à mesa. Mesmo depois do falecimento dos pais e do irmão mais novo, as tradições em datas festivas permanecem. A irmã Adriane é atualmente sua sócia, e, segundo explica, as duas se completam. “Nós somos quase como o Ying Yang. Eu sou uma pessoa que penso no que quero e coloco no planejamento e ela dá um toque que abre as linhas do projeto”, explica.
Ao falar do filho, Simone se derrete em elogios. “O Pedro é uma criança muito sociável, sempre me acompanhou nas viagens, e se comporta muito bem. Adora meus incensos, minhas comidas. Ele é muito companheiro. Falo com ele com uma pessoa comum, mas sem esquecer que é uma criança.”
Para o futuro, a especialista em Marketing pretende desenvolver um projeto, ainda em fase de estudo, em que pretende unir tudo o que aprendeu até hoje. Talvez morar em Berlim por alguns meses, talvez no Rio de Janeiro, não tem certeza. Simone não fala em aposentadoria, mas sabe que tudo o que fizer daqui pra frente será pensando em proporcionar novas experiências ao filho. Com as diversas mudanças, a marqueteira, que inventa tudo com os pés no chão, tem um lema: “Sempre dar a volta por cima. Não interessa o que possa acontecer, sempre há uma maneira de se reerguer”.

