Perfil

José Fontella: Um eterno construtor

Comunicador relembra os momentos na televisão e no rádio e revela os prazeres que encontrou após sua aposentaria

É na varanda de um aconchegante apartamento no bairro Menino Deus que José Francisco Castro Fontella se sente sempre muito à vontade. Com o Rio Guaíba e parte do Parque Marinha do Brasil como paisagens ao fundo da sacada, o comunicador relembra os momentos da vida profissional na televisão e no rádio e comemora os prazeres que encontrou após sua aposentaria. Aos 67 anos, ele se considera um construtor, com um senão: “Não repara, não, pois, apesar de ‘construtor’, sou pré-histórico em relação às novas tecnologias. Por isso, não tenho celular e não utilizo a internet nem sei mexer no computador”, confessa, já revelando um bom humor que parece inesgotável.

O mais velho de quatro irmãos lembra que a construção e a comercialização de produtos sempre estiveram presentes em sua vida. Na infância, gostava de produzir pandorgas e jogar bolinhas de gude em sua terra natal, São Borja. O menino comercializava o brinquedo, com “grande dor”. Hoje, entende quando um pintor diz que sente uma dor imensa ao se desfazer de sua obra. “Eu sentia muito quando tinha que vender uma pandorga, porque construía cada uma com muito prazer.”

Ainda criança, Fontella vendia, na companhia de um dos irmãos, pão feito em casa e rapadura que a mãe, a dona de casa Leocadia Fontella, fazia. Em outro momento, comercializavam revistas e jornais, de pequenos negócios de propriedade do pai, o funcionário público Abelardo Trindade Fontella. “Quando eu entrei para o rádio, com 14 anos, em São Borja, já comercializava espaços no veículo. Acho que o espírito empreendedor de comércio estava na minha veia”, relata.

Formado há 38 anos em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Fontella lamenta nunca ter atuado como advogado. Ao se formar, já tinha constituído família e estava com a carreira consolidada, e por esse motivo continuou trabalhando com rádio, televisão e publicidade. “Como o Direito me exigiria mais tempo para ter um retorno, pois o advogado só recebe seus honorários à medida que as causas vão sendo julgadas e eu não teria este tempo, segui fazendo o que eu gostava.”

Mordido pela mosca azul

Fontella começou a carreira aos 14 anos. O Grêmio Estudantil de seu colégio em São Borja tinha um programa cultural de rádio que era apresentado pelo jovem, que já possuía como característica a voz grave. Então, foi convidado pelo diretor do programa para trabalhar em outras programações também. “Era tão grande o meu entusiasmo que, quando algum alguém faltava, eu me oferecia para ir trabalhar.” Na época, as pessoas costumavam dizer que Fontella era um bom locutor. “Eu acreditei nisto e fiquei mordido pela mosca azul”, explica.

Quando terminou o serviço militar, veio para Porto Alegre e percorreu algumas rádios fazendo testes, mas era mandado embora com a justificativa de que não tinha qualificação suficiente. Até que, aos 21 anos, fez um teste na Rádio Princesa, da Rede Pampa. Aprovado, passou a ter uma rotina que iniciava às 5h da manhã na emissora.

Após um ano, passou no teste da Rádio Gaúcha. “Já entrei com aquela ideia de que não era tão bom quanto diziam lá na minha terra”, lembra. Nessa época, existia uma espécie de ascensão gradativa na profissão e então o jovem, que começou como locutor, fazendo a abertura da rádio, passou para as leituras de comerciais; após, para os textos das radionovelas e os comerciais de auditórios. “O Maurício Sirotsky Sobrinho, que construiu este império que é a RBS, me promoveu a locutor comercial do programa dele. Com isso, fiquei com o peito estufado”, emociona-se. Logo, Fontella passou a ler notícias e, posteriormente, a fazer reportagens. “Existia um gravador de plástico, que os mais antigos vão lembrar, que se chamava Geloso. Saíamos para fazer reportagens com ele e, muito tempo depois, fui apresentar um programa”, recorda.

Vídeo abre possibilidades

Quando a rádio se mudou para o prédio da televisão, em 1962, no Morro Santa Teresa, o profissional foi aprovado em um teste para TV, feito com o diretor de telejornalismo, Lauro Schirmer. “O mais engraçado é que, na época, eu perguntava como eu tinha que fazer na televisão, e a orientação que recebi era de que devia atuar como na rádio. A partir daí, eu comecei a minha construção, vendo como os maiores faziam, pensando como poderia mudar a maneira de apresentar e evoluir.”

Confirmando que o vídeo abre muitas possibilidades, Fontella traz em seu currículo, além de outros telejornais, a apresentação da parte local do Jornal Nacional nos anos 1970, e passagens pela TV e Rádio Guaíba, onde ficou por mais de 20 anos. Passou também pela TV Bandeirantes, Pampa e TVE. “Na TVE e na Rádio Cultura, eu trabalhei por um largo tempo, até que o PT ganhou as eleições para governo do Estado com Olívio Dutra, em 1999. Me demitiram com a justificativa de que eu não tinha o perfil deles.” Fontella, que também era proprietário da Produtora de Áudio Coperson, estava com mais de 50 anos. Decidiu “começar a viver e conhecer lugares”. “Fechei um ciclo. Passei a viajar com minha esposa e, de certa forma, agradeço ao PT por isso”, diz hoje, com ironia.

Emboscada

Casado pela segunda vez, está há 35 anos com a advogada YolKa Guimarães Teixeira. Fontella diz que se casou após 28 anos de namoro. Eles foram contemporâneos na faculdade, mas foi no restaurante Emboscada que se aproximaram. “Era o local da moda, onde tinha música ao vivo e, apesar dela lembrar-se de mim nos tempos de faculdade, eu a conheci ali e acho que foi, sim, amor à primeira vista.”

Do primeiro casamento, Fontella teve uma filha, a jornalista e gastrônoma Consuelo, 44 anos, mãe de Marina, 18, e de João, 12. E, antes ainda, na adolescência, foi pai aos 19 anos. Da relação com Adailsa Capes nasceu o jornalista Aldo Fontella, 47 anos, que é pai do Pedro, 13. “Foi um deslize próprio da juventude, mas foi muito gratificante, e hoje nos damos muito bem.”

Nos momentos de lazer, Fontella gosta de estar em contato com a natureza, de ler e viajar, para compensar o tempo em que tinha diversos empregos e era impossível desfrutar desses bons momentos, algo que faz agora. “Hoje, eu desfruto da vida. Saio frequentemente para jantar com meus amigos e estou sempre viajando com minha esposa, para Punta del Este, onde tenho um apartamento”, revela. E completa em seguida: “Sou aposentado, não exerço mais minha atividade há muito tempo, e nem tenho muito interesse em exercê-la. Então, os meus dias são usufruídos, como diria um amigo meu, como um fiscal da natureza”.

Construir sempre

As leituras também estão entre suas preferências nesta fase. “Gosto muito de ler. Diria que uma das coisas que mais gosto é da leitura, a ponto de me tornar um ‘rato’ de sebo’.” Assim, frequentemente está vasculhando algum sebo, onde troca, vende e compra livros. E acaba dando muitos livros de presente também. Eclético nas leituras, diz que gosta de ler de tudo, desde bula de remédio até os jornais diários.

Como costuma ir bastante ao Uruguai e por influência do amigo-escritor Sérgio Faraco, estão entre seus títulos atuais as obras de autores uruguaios como Mário Beer-Sheva, Eduardo Galeano, Horacio Quiroga e Mario Arregui. Na cabeceira está O Estaleiro, de Juan Carlos Onetti. Afirma que gosta muito das diferentes formas de cultura e confessa que algumas das manifestações culturais que aprecia, mas que não têm estado muito na sua agenda, são o teatro e o cinema.

Outro gosto especial é por comida. Apesar de não saber cozinhar, confessa que é um admirador da boa culinária. “Aprendi a comer muito tarde, com mais de 50 anos, pois até então, em matéria de paladar, eu comia como um gaúcho lá da fronteira. Só churrasco, salada de tomate e cebola e mais nada.” Mas com os quitutes que a esposa faz e com as receitas que ele mesmo costuma passar para que ela cozinhe, acabou aprimorando o paladar e se tornou apreciador da gastronomia. “A arte que se transformou a culinária me encanta.”

Destacando a persistência como qualidade, diz que, segundo a esposa, seu defeito é ser teimoso e acredita que são os outros que podem dar um parecer do que acredita ser defeito. Um acaso interessante na vida de Fontella é que tem poucos velhos amigos. A maioria, segundo ele, são pessoas novas que surgem. “Não me encontro com meus amigos para falar do que aconteceu no passado e, sim, para pensar no presente e no futuro, pois é para frente que se anda.” Não à toa, diz que seu lema de vida é construir. “Construir uma boa relação, construir amizades e, se puder, até um prédio”, brinca.

Imagem

Autor

Redação Coletiva

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.